Ler é uma constante da vida de muitos. Da minha também. Pegar num livro é um momento importante. Um instante de escolha e de decisão. Misturar leituras também gosto. Mas há sempre o livro principal, aquele ao qual determino dar prioridade. As razões são pessoais, é claro.
Em busca de uma leitura com algum poder de distracção, mas que não caísse numa entediante superficialidade, fui conduzida ultimamente a uma publicação da Paralelo 40º, cujo título é algo nauseabundo e que numa primeira abordagem pode repugnar quer como ideia, quer como leitura: "O Grande Fedor" ou "The Great Stink". A autora é Clare Clark, formada em História (Cambridge) e a viver em Londres.
Uma certa estratégia de marketing indica que se trata de um Perfume do avesso. O de Patrick Süskind. Mas não creio que possua a mesma qualidade literária. Nem que seja exactamente uma história invertida da outra. Tem, no entanto, algumas características assinaláveis e de reter.
Por outro lado, se os aromas agradáveis merecem ser tematizados, porque serão de ignorar os desagradáveis?! Eles existem. E se não são desejados, é preciso eliminá-los.
Pois é esse mesmo o aspecto que encontrei de grande interesse neste livro. A partir de uma pesquisa histórica que se apresenta séria e rigorosa, a autora transporta-nos até uma época e um lugar onde as pessoas conviviam de modo escandalosamente íntimo com um ambiente conspurcado pelos piores cheiros imagináveis, provenientes do precário e ineficaz sistema de esgotos da cidade de Londres, centro urbano em acelerado crescimento durante o século XIX. Até que o Tamisa começa a ficar atolado de todo o tipo de porcarias. O ar é irrespirável. As águas de consumo doméstico são contaminadas e é também o próprio ar que propaga a terrível ameaça da cólera. As pessoas morrem umas atrás das outras devido a esta implacável epidemia.... A situação é insustentável e é preciso tomar medidas urgentes e eficazes para salvaguardar a cidade e a saúde pública.
É nesta atmosfera do submundo de uma Londres vitoriana que tudo acontece, nesse ar que se respira ao longo de um labirinto de esgotos decadentes e cheios de armadilhas. Tudo o que é importante nesta narrativa é aí que se passa, incluindo um crime que dá a este romance histórico um toque de policial.
Ocorre-nos Dickens e as suas descrições daqueles tempos e daqueles lugares. Os ambientes evocados transportam-nos para realidades chocantes: sobreviventes da guerra da Crimeia cuja vivência traumática resulta numa destruição do próprio corpo, através de rituais solitários praticados algures nos túneis da cidade, dominados pelas trevas e pelos odores mais repulsivos; espectáculos de lutas de cães com ratos caçados nos esgotos por antigos respigadores reconvertidos então para um novo negócio, realizados à porta fechada em tabernas e lugares infectos, onde os apetites mais sanguinários dão lucro aos seus proprietários e, por vezes, a clientes entorpecidos pelo álcool que arriscam uma aposta.
Mas a maior virtude deste romance é a de trazer até aos leitores a história de um dos mais notáveis empreendimentos de engenharia de todos os tempos: a construção do moderno sistema de esgotos da cidade de Londres. O engenheiro responsável foi Joseph Bazalgette.
Tomar conhecimento desta obra grandiosa, dos custos de todos os tipos nela envolvidos, dos resultados que com empreendimentos desta natureza se podem obter para a nossa civilização e para a vida nas grandes cidades; tudo isto não deixou de me causar admiração por todos aqueles que têm a visão dos projectos que constroem o futuro. No qual, muitas vezes, já não estarão presentes. É vital ter ideias para longos prazos, desenvolvê-las e implementá-las. É destas mentes cujo horizonte é longínquo algures no tempo, é dessa matéria construtiva e empreendedora que todo o progresso se faz... As grandes obras de engenharia são importantes, pois é delas que resultam (quando bem pensadas e concretizadas) as infra-estruturas necessárias para que a nossa vida decorra no bem-estar a que todos temos direito.
É todo este tipo de trabalho de bastidores da vida social, aquele que acontece e está por trás dos actos mais elementares do quotidiano; é ele que me poderá permitir estar tranquilamente sentada num sofá a ler "O Grande Fedor" ou um belo livro de poesia.
É verdade que nem tudo é perfeito, mas também é certo que há obras admiráveis!















