Há algum tempo atrás adquiri um livro que depois ficou de lado. Pareceu-me traçar um cenário futuro de exagerada catástrofe. Trata-se de «O fim do petróleo - O grande desafio do século XXI» de James Howard Kunstler.
Face ao actual estado da economia e, sobretudo, face ao actual preço dos combustíveis, voltei a pegar no livro. Comecei a pensar que o autor talvez tenha razão quanto a algumas questões. Longe de concordar com muito da sua perspectiva, reconheço existirem motivos para nos preocuparmos com o futuro do planeta e com as condições de vida que deixaremos ficar para as gerações vindouras. De uma forma mais imediata (e também a médio e longo prazo), existem razões para nos preocuparmos com as consequências de uma tão grande e notória dependência do petróleo. Actualmente, quase toda a nossa vida depende, directa ou indirectamente, desta matéria-prima, um dos principais recursos naturais de que dispomos (ainda ?).
Uma tão extrema dependência nunca poderá ser positiva. Está na hora de procurar a todo o vapor energias alternativas e investir nas reconversões que se revelarem necessárias.
Talvez valha a pena ler o livro, afinal... Ao retomar a sua leitura, entre tantos aspectos polémicos e interessantes nele focados, retive na memória uma passagem. Não pude deixar de ficar estupefacta face ao modo como se desenrola a economia... face aos verdadeiros passes de magia que se realizam nesta área... face à íntima relação entre ela e a vivência cultural... Se não, vejamos:
"A orgia de compra e venda de casas, que se verificou em princípios do século XXI, foi desencadeada pela política da Reserva Federal, no quinquénio de 1998-2003, de redução constante da taxa de juro que cobrava aos bancos para emprestarem dinheiro, o que se repercutiu por todo o sistema de empréstimos ao ponto de as hipotecas atingirem valores sobrenaturalmente baixos. As taxas de juro baixas foram acompanhadas por uma acentuada decadência das práticas de empréstimo, pelo que praticamente qualquer pessoa (...) conseguia uma hipoteca com uma entrada mínima ou mesmo sem ela. Outros factores favoreceram a transferência do capital de outros investimentos para a habitação. (...) só palermas recorreriam a cadernetas de poupança com uma taxa de juro de 1,75%. A derrocada das dot-com tinha feito com que muita gente abastada da classe média se sentisse enganada e desconfiada. É até possível que o profundo horror dos ataques de 11 de Setembro tenha inspirado uma espécie de mentalidade de bunker, que se traduziu numa mania de as pessoas construirem o seu ninho. (...) Uma grande parte da riqueza excedentária que ainda existia nos Estados Unidos em finais do século XX acabou no sector imobiliário, ao abrigo da teoria de que, ao menos, era real.
Na verdade, a população dos Estados Unidos estava a crescer, mas não a uma taxa que justificasse a construção de tantas «McHouses» novas, como se chamava às «unidades» nos bairros que iam surgindo. (...) E, subjacente a tudo isto, estava a máquina de criação de crédito da Reserva Federal de Alan Greenspan, fabricando electronicamente dinheiro que não existia realmente, que não se estava a acumular pelos meios tradicionais, na verdade os únicos meios autênticos de poupar com base em rendimentos obtidos por um trabalho real a produzir coisas reais. Tratava-se de um acto de magia.
As taxas de juro sobrenaturalmente baixas provocaram uma orgia de compra, a orgia de compra aumentou o preço das casas e, quando os preços das casas levitaram, os proprietários entraram noutra zona nova e estranha de acumulação alucinada de riqueza, recorrendo ao dispositivo mais recente: a «hipoteca refinanciada». Os refinanciamentos permitiram aos proprietários utilizar as suas casas como se fossem um caixa automático. Digamos, por exemplo, que uma pessoa comprou uma casa em 1999 por 250.000 dólares e que, em 2003, a casa foi reavaliada em 400.000 dólares; essa pessoa pode refinanciar-se com um substancial lucro em dinheiro, convertendo o aumento de valor imaginário em rendimento disponível, que pode ser usado para comprar barcos a motor, televisores plasma para ver cinema em casa ou viagens a Las Vegas. Num acto de prestidigitação, o refinanciamento terá proporcionado à economia americana cerca de 1,6 biliões de dólares em cinco anos, e grande parte desse «dinheiro» foi usado na aquisição de bens de «consumo», a maioria produzida fora dos Estados Unidos. (...)
Quando este livro for lido, é muito provável que a especulação imobiliária já tenha começado a causar aflições. (...)"
Face ao actual estado da economia e, sobretudo, face ao actual preço dos combustíveis, voltei a pegar no livro. Comecei a pensar que o autor talvez tenha razão quanto a algumas questões. Longe de concordar com muito da sua perspectiva, reconheço existirem motivos para nos preocuparmos com o futuro do planeta e com as condições de vida que deixaremos ficar para as gerações vindouras. De uma forma mais imediata (e também a médio e longo prazo), existem razões para nos preocuparmos com as consequências de uma tão grande e notória dependência do petróleo. Actualmente, quase toda a nossa vida depende, directa ou indirectamente, desta matéria-prima, um dos principais recursos naturais de que dispomos (ainda ?).
Uma tão extrema dependência nunca poderá ser positiva. Está na hora de procurar a todo o vapor energias alternativas e investir nas reconversões que se revelarem necessárias.
Talvez valha a pena ler o livro, afinal... Ao retomar a sua leitura, entre tantos aspectos polémicos e interessantes nele focados, retive na memória uma passagem. Não pude deixar de ficar estupefacta face ao modo como se desenrola a economia... face aos verdadeiros passes de magia que se realizam nesta área... face à íntima relação entre ela e a vivência cultural... Se não, vejamos:
"A orgia de compra e venda de casas, que se verificou em princípios do século XXI, foi desencadeada pela política da Reserva Federal, no quinquénio de 1998-2003, de redução constante da taxa de juro que cobrava aos bancos para emprestarem dinheiro, o que se repercutiu por todo o sistema de empréstimos ao ponto de as hipotecas atingirem valores sobrenaturalmente baixos. As taxas de juro baixas foram acompanhadas por uma acentuada decadência das práticas de empréstimo, pelo que praticamente qualquer pessoa (...) conseguia uma hipoteca com uma entrada mínima ou mesmo sem ela. Outros factores favoreceram a transferência do capital de outros investimentos para a habitação. (...) só palermas recorreriam a cadernetas de poupança com uma taxa de juro de 1,75%. A derrocada das dot-com tinha feito com que muita gente abastada da classe média se sentisse enganada e desconfiada. É até possível que o profundo horror dos ataques de 11 de Setembro tenha inspirado uma espécie de mentalidade de bunker, que se traduziu numa mania de as pessoas construirem o seu ninho. (...) Uma grande parte da riqueza excedentária que ainda existia nos Estados Unidos em finais do século XX acabou no sector imobiliário, ao abrigo da teoria de que, ao menos, era real.
Na verdade, a população dos Estados Unidos estava a crescer, mas não a uma taxa que justificasse a construção de tantas «McHouses» novas, como se chamava às «unidades» nos bairros que iam surgindo. (...) E, subjacente a tudo isto, estava a máquina de criação de crédito da Reserva Federal de Alan Greenspan, fabricando electronicamente dinheiro que não existia realmente, que não se estava a acumular pelos meios tradicionais, na verdade os únicos meios autênticos de poupar com base em rendimentos obtidos por um trabalho real a produzir coisas reais. Tratava-se de um acto de magia.
As taxas de juro sobrenaturalmente baixas provocaram uma orgia de compra, a orgia de compra aumentou o preço das casas e, quando os preços das casas levitaram, os proprietários entraram noutra zona nova e estranha de acumulação alucinada de riqueza, recorrendo ao dispositivo mais recente: a «hipoteca refinanciada». Os refinanciamentos permitiram aos proprietários utilizar as suas casas como se fossem um caixa automático. Digamos, por exemplo, que uma pessoa comprou uma casa em 1999 por 250.000 dólares e que, em 2003, a casa foi reavaliada em 400.000 dólares; essa pessoa pode refinanciar-se com um substancial lucro em dinheiro, convertendo o aumento de valor imaginário em rendimento disponível, que pode ser usado para comprar barcos a motor, televisores plasma para ver cinema em casa ou viagens a Las Vegas. Num acto de prestidigitação, o refinanciamento terá proporcionado à economia americana cerca de 1,6 biliões de dólares em cinco anos, e grande parte desse «dinheiro» foi usado na aquisição de bens de «consumo», a maioria produzida fora dos Estados Unidos. (...)
Quando este livro for lido, é muito provável que a especulação imobiliária já tenha começado a causar aflições. (...)"

