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domingo, 1 de fevereiro de 2009

O último reduto


Muita da atracção (e do encanto) de fenómenos que normalmente englobamos no domínio da percepção extra-sensorial, resulta da sua natureza resistente. Resistentes ao conhecimento, resistentes, portanto, à clarificação. Em última análise, resistentes à sua possível e fértil utilização. Porque, na medida em que radicam na mente de cada um, pertencem somente ao próprio.

Refiro-me a todos os conteúdos mentais, conscientes e inconscientes. No limite, refiro-me a toda a actividade da mente, a qual pode ser estudada no contexto das neurociências cognitivas. E refiro-me também a tudo o que parece resistir e escapar a este conhecimento científico.

A questão é: no futuro próximo, algum conteúdo da nossa vida mental conseguirá permanecer oculto?
Vi recentemente um pequeno documentário, no qual essa possibilidade de manter a privacidade do que pensamos tem os dias contados. Talvez coisa de uns cinco anos, de acordo com os investigadores norte-americanos (não são os únicos a estudar o caso, os japoneses, por exemplo, também têm investido muito nesta área). O que foi afirmado peremptoriamente é qualquer coisa desta magnitude: "Você pode estar sentado numa sala de espera do aeroporto; um invisível raio laser é-lhe apontado à testa - área do córtex pré-frontal - e os seus pensamentos serão "lidos"/conhecidos" por outros que neles estão interessados". Ora, uma situação destas, em vias de se tornar científica e tecnologicamente possível, terá certamente consequências no futuro da nossa vida humana: éticas, políticas, militares, etc, para lá das científicas e filosóficas, propriamente ditas.

A visão do ser humano como um imenso agrupamento celular, que atinge a sua mais alta complexidade ao nível do córtex cerebral, parece-nos redutora. Não seremos nós tanto mais do que isso? Consciência individual e liberdade, por exemplo? Por outro lado, talvez sejamos tão-só um animal complexo, o qual, numa perspectiva algo darwinista, evolui no sentido do auto e hetero-conhecimento. Num ou noutro caso (em especial - parece-me - no segundo), o futuro exigirá protecção. Para que o termo "humano", aplicado a nós, continue a fazer sentido.

Foi também por isto que veio à minha memória um livro interessantíssimo, lido há uns anos atrás. Retiro dele o seguinte:

"Aparentemente, a consciência é o tipo de coisa que os cientistas cognitivos estudam - de facto, neste momento é a grande moda entre os cientistas de toda a espécie. Decidiram que a consciência é um «problema» e que tem de ser «resolvido».
Para mim isto foi uma novidade, mas não particularmente bem-vinda. Acho que sempre considerei que a consciência era do domínio das letras, especialmente da literatura, e ainda mais especialmente do romance. A consciência, afinal, é aquilo sobre que versa a maioria dos romances, certamente aquilo sobre que versam os meus. A consciência é o meu ganha-pão. Talvez precisamente por isso nunca tenha visto nela nada de problemático enquanto fenómeno. A consciência é simplesmente o meio onde se vive e se tem uma noção da identidade pessoal. O problema é representá-la, especialmente nos diferentes eus de uma só pessoa. (...) Quase me sinto ofendida com a ideia de a ciência meter o nariz neste mundo, no meu mundo. Será que a ciência ainda não se apropriou o suficiente da realidade? Agora também tem de reivindicar a essência intangível e invisível do eu?"
in David Lodge, Pensamentos secretos


Nota: o documentário referido foi visto no programa "60 minutos" - SIC Notícias

Mais informação sobre o tema AQUI

Video do documentário AQUI

Imagem: pesquisa do Google


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