É um dos livros mais tristes que li. Mas também é um dos mais belos. De uma tristeza e melancolia resignadas. De um pessimismo sem revoltas violentas, antes com uma rebelião pacífica (se é que tal pode existir - mas parece que sim, quando se trata de uma sensibilidade tão original, como é o caso). Refiro-me a Até ao Fim, de Vergílio Ferreira. A minha leitura mais recente.
Trata-se, sobretudo, de conseguir dizer o quase-indizível. E de como a literatura pode alcançar um ponto absolutamente metafísico. Por exemplo, Dizer uma dolorosa separação; Dizer a absoluta ausência do pai; Falar do momento em que já não é possível dar a mão...
Aqui fica um excerto que se fez palavra inesquecível, para mim. Não conseguiria explicar porquê.
«(...) E eu pergunto-me, não me pergunto, como é que? é uma pergunta anterior a eu olhar para ele com surpresa e compaixão. Que é que me liga a ti? mas há um mundo de coisas entre o perguntá-lo e o sermos ali. (...) Há um mundo de coisas de permeio entre a infância e agora e tu não estás lá. Porque a certa altura, deves sabê-lo, um pai deixa de entrar no jogo das coisas reais e passa para a mitologia. É quando ele é adorável na sua ficção, gostava que entendesses. Tenho uma imensa piedade de ti, enquanto ele abranda a passada, sustento-o sob o braço, sentar-se um pouco? e ele não me responde, olha em frente a sua abstracção, retoma o andamento. (...) E algum tempo depois o meu pai estava no grupo, sentado num banco, (...). Olha-me quase indiferente, eu devo ter na cara um espanto raiado de piedade e terror. Está do lado do destino, o meu pai, deve sentir-se muito acima de mim, com pena e desprezo pela minha inferioridade. Venho agora visitá-lo sempre que posso, cada vez mais irmanado à sua fatalidade, até senti-la quase normal. (...) Fechado sobre a sua condenação como sobre um bem privativo. (...) E o orgulho avultava no seu corpo franzino. Era dele como a sua fatalidade, ele fazia-mo sentir. Ser proprietário mesmo da desgraça, pensei. (...) Era Inverno, devia ser Inverno. Tenho frio na alma e na memória. Devia ser.»
[Em memória do meu pai, com muitas saudades de conversar com ele, neste Verão de 2009]
Imagem: eu e o meu pai, na ilha de Luanda
Trata-se, sobretudo, de conseguir dizer o quase-indizível. E de como a literatura pode alcançar um ponto absolutamente metafísico. Por exemplo, Dizer uma dolorosa separação; Dizer a absoluta ausência do pai; Falar do momento em que já não é possível dar a mão...
Aqui fica um excerto que se fez palavra inesquecível, para mim. Não conseguiria explicar porquê.
«(...) E eu pergunto-me, não me pergunto, como é que? é uma pergunta anterior a eu olhar para ele com surpresa e compaixão. Que é que me liga a ti? mas há um mundo de coisas entre o perguntá-lo e o sermos ali. (...) Há um mundo de coisas de permeio entre a infância e agora e tu não estás lá. Porque a certa altura, deves sabê-lo, um pai deixa de entrar no jogo das coisas reais e passa para a mitologia. É quando ele é adorável na sua ficção, gostava que entendesses. Tenho uma imensa piedade de ti, enquanto ele abranda a passada, sustento-o sob o braço, sentar-se um pouco? e ele não me responde, olha em frente a sua abstracção, retoma o andamento. (...) E algum tempo depois o meu pai estava no grupo, sentado num banco, (...). Olha-me quase indiferente, eu devo ter na cara um espanto raiado de piedade e terror. Está do lado do destino, o meu pai, deve sentir-se muito acima de mim, com pena e desprezo pela minha inferioridade. Venho agora visitá-lo sempre que posso, cada vez mais irmanado à sua fatalidade, até senti-la quase normal. (...) Fechado sobre a sua condenação como sobre um bem privativo. (...) E o orgulho avultava no seu corpo franzino. Era dele como a sua fatalidade, ele fazia-mo sentir. Ser proprietário mesmo da desgraça, pensei. (...) Era Inverno, devia ser Inverno. Tenho frio na alma e na memória. Devia ser.»
in Até ao Fim, Vergílio Ferreira
[Em memória do meu pai, com muitas saudades de conversar com ele, neste Verão de 2009]
Imagem: eu e o meu pai, na ilha de Luanda
