

-Auto-Retrato com Símbolos de Vanitas de David Bailly-
Deparei-me com este enigmático auto-retrato, quando lia o capítulo final de um livro sobre a memória. Fez-me pensar, mas também me transmitiu uma certa serenidade. Na verdade, acho-o interessantíssimo. E explico o motivo (o meu):
A necessidade de cumprir prazos... nunca deixa de me provocar ansiedade. Na verdade, tudo depende de prazos, ou seja, de limitações temporais. Se a vida decorre (e assim segue...) marcada pelo ritmo de prazos, tudo acontece de forma bem mais organizada. Sem prazos, cumprir-se-iam as tarefas, os trabalhos, as obrigações, até as devoções?!
O que realmente me ocorre, pela contemplação do auto-retrato de Bailly, é que a própria vida é um prazo. Disso se segue que deverá existir algo para cumprir dentro dele. Em última análise, esse algo que suponho pode ser um absoluto nada. Mas há um prazo. E é inevitável olhar para trás e recordar o que dele já decorreu, ou se gastou. Também parece difícil evitar fazer a projecção do que ainda se dispõe do prazo, para melhor o aproveitar.
Parece dizer-nos Bailly (em silêncio): "O prazo (a vida) decorre repleto(a) de vanitas. No entanto, não podemos prescindir disso." Cada detalhe da pintura parece mostrar o carácter absolutamente efémero da vida, incluindo o confronto entre o retrato do Bailly jovem e o do Bailly já grisalho.
E o quadro? Porque o pintou? É ele uma superação deste modo de ser transitório da vida? Afinal de contas, o pintor já cá não está. Eu estou. E, por enquanto (tal como eu), o quadro também está.
Se a reflexão com base na consciência da vacuidade da vida me parece importante, e até produtiva, não sou totalmente pessimista. Talvez seja a arte a "alimentar" o meu relativo optimismo. Pois, é verdade: este ano, os Dias da Música no CCB vão homenagear Bach. Não sei se por isso, certo é ter-me parecido que o David Bailly ficava muitíssimo bem na companhia deste violino.
Imagem e mais sobre vanitas AQUI