Daqui, desta terra longínqua que se chama Portugal, lhe envio estas minhas palavras. Escrevo-lhe, portanto, aqui deste país da Europa que se situa ao sul. Sob a influência do vasto mar Atlântico, este meu lugar parece ser porta sempre aberta para o mundo. É por isso mesmo que o faço, de acordo com a minha situação. Escrever é como abrir uma porta, e também uma janela. Deixar entrar alguém no nosso mundo por que nos dirigimos a um outro. Acho que podemos chamar a esta circunstância, própria do modo de ser português, uma relação (ainda que não seja um modo de estar no mundo exclusivo dos que habitam este extremo da Península conhecida por Ibérica, trata-se de algo que muito bem caracteriza os seus habitantes).
Julgo ser esta abertura aos outros, esta incessante procura de um contacto, uma espécie de recusa inconsciente das limitações resultantes de um certo isolamento. Claro que tudo isto sofre a influência deste mar que nos rodeia, e que também nos domina. Sabe... mesmo no interior, conseguimos sentir no ar vestígios de maresia. E, às vezes, na calada da noite, se nos concentrarmos na sonoridade do universo inteiro, nesse silêncio quase sepulcral da madrugada, é-nos possível ouvir ainda, na perfeição, o derramar constante e cadenciado das ondas, quebradas nas areias que nos circundam. Mas este mesmo mar não resolve todos os nossos problemas. Pelo contrário, parece impregná-los de um eterno vaivém de dúvidas e inquietações. Sim, nós temos problemas. Suponho que isso nos iguala ao resto do mundo, ainda que os nossos possuam as suas especificidades.
Por outro lado (desculpe a maçada, caro interlocutor), o que eu gostava mesmo de saber é apenas a resposta a uma pequena questão: "Como crer mais em nós mesmos?". Suponho que por aí, nesse algures que me deito a imaginar, não estejam afectados pelo mesmo pessimismo... Apesar do estado do mundo. É verdade que se encontra péssimo, face aos mais elevados ideais de progresso. Sinceramente, nem sei como lhe justificar tudo isto. Sinto que o seu mundo é o meu mundo. Sinto que hoje já pouco nos separa. Mas, repare, estas palavras podiam chegar-lhe aí quase instantaneamente. E, no entanto, aqui estou, neste cantinho à beira-mar plantado, preferindo deitá-las ao vento. Não podemos ignorar que há aqui uma história e um percurso. Algo que nos faz ser como somos. Se me responder, como espero, diga-me o que lhe parece. Quer dizer, acha que esta nossa posição altera alguma coisa? Enfim... em relação ao lugar no qual, em contrapartida, por aí se situam? Em que diferimos? Se é que diferimos...
Há lugares onde as gentes acreditam nelas próprias. Noutros, apesar do sol que é capaz de tornar o aguilhão do frio mais ameno (ou por isso mesmo!), a indiferença parece singrar. Mas, não duvide, somos adoradores do sol. Estou em crer que por aí também são, ao ponto de nos fazerem uma simpática visita. Talvez lá para o verão... O sol e o mar. Já vê o que nos define. Será isto pouco? Bem, posso confessar-lho: ultimamente, tenho tido esperança no vento...
Imagem: Wind from the Sea, de Andrew Wyeth (1917-2009)
Julgo ser esta abertura aos outros, esta incessante procura de um contacto, uma espécie de recusa inconsciente das limitações resultantes de um certo isolamento. Claro que tudo isto sofre a influência deste mar que nos rodeia, e que também nos domina. Sabe... mesmo no interior, conseguimos sentir no ar vestígios de maresia. E, às vezes, na calada da noite, se nos concentrarmos na sonoridade do universo inteiro, nesse silêncio quase sepulcral da madrugada, é-nos possível ouvir ainda, na perfeição, o derramar constante e cadenciado das ondas, quebradas nas areias que nos circundam. Mas este mesmo mar não resolve todos os nossos problemas. Pelo contrário, parece impregná-los de um eterno vaivém de dúvidas e inquietações. Sim, nós temos problemas. Suponho que isso nos iguala ao resto do mundo, ainda que os nossos possuam as suas especificidades.
Por outro lado (desculpe a maçada, caro interlocutor), o que eu gostava mesmo de saber é apenas a resposta a uma pequena questão: "Como crer mais em nós mesmos?". Suponho que por aí, nesse algures que me deito a imaginar, não estejam afectados pelo mesmo pessimismo... Apesar do estado do mundo. É verdade que se encontra péssimo, face aos mais elevados ideais de progresso. Sinceramente, nem sei como lhe justificar tudo isto. Sinto que o seu mundo é o meu mundo. Sinto que hoje já pouco nos separa. Mas, repare, estas palavras podiam chegar-lhe aí quase instantaneamente. E, no entanto, aqui estou, neste cantinho à beira-mar plantado, preferindo deitá-las ao vento. Não podemos ignorar que há aqui uma história e um percurso. Algo que nos faz ser como somos. Se me responder, como espero, diga-me o que lhe parece. Quer dizer, acha que esta nossa posição altera alguma coisa? Enfim... em relação ao lugar no qual, em contrapartida, por aí se situam? Em que diferimos? Se é que diferimos...
Há lugares onde as gentes acreditam nelas próprias. Noutros, apesar do sol que é capaz de tornar o aguilhão do frio mais ameno (ou por isso mesmo!), a indiferença parece singrar. Mas, não duvide, somos adoradores do sol. Estou em crer que por aí também são, ao ponto de nos fazerem uma simpática visita. Talvez lá para o verão... O sol e o mar. Já vê o que nos define. Será isto pouco? Bem, posso confessar-lho: ultimamente, tenho tido esperança no vento...
Imagem: Wind from the Sea, de Andrew Wyeth (1917-2009)
