
Às vezes ainda me interrogo acerca do porquê dos filósofos questionarem o mundo. Quer dizer, suponho que uma pessoa possa chegar ao fim da sua vida, sem se ter debatido com questões ontológicas ou existenciais. Ter sido feliz e conseguir recordar o melhor da sua vida, sem se ter preocupado com coisas tais. Como, por exemplo, se o Ser é? e se o Não-Ser não é?, se o Ser é Uno? ou Múltiplo?, se existe Espírito para além da Matéria?, qual a natureza do Belo?, o que é o Bem,? e tantas, mas tantas, outras questões... Assim, de repente, podem parecer supérfluas, e não adiantar nada à nossa existência quotidiana, como se tudo continuasse a fluir do mesmo modo, com ou sem as questões, com ou sem respostas-soluções.Afinal, porque é que, desde sempre, existiu e existe quem se preocupe com tal?!
Um outro aspecto a considerar neste meu relativo "espanto" (sim, porque ainda me "espanto", como assinalava Aristóteles) é o facto, igualmente inquietante, de existir quem tenha pautado a sua vida por princípios filosóficos, adoptando uma determinada postura ética perante a vida, levando às últimas consequências os seus ditos princípios. Recordo apenas, entre tantos casos possíveis de citar, o modo como Séneca se entregou à morte: de acordo com o seu estoicismo. Mas, afinal, vale a pena ser assim tão consequente? Ou não se trata, neste caso, de valer a pena? O que é valer a pena e o que é que, então, vale a pena? Será de seguir este raciocínio algo linear?: vale a pena o que é produtivo; o que é produtivo é o que nos beneficia; o que nos beneficia é o que nos traz bens; os bens são, geralmente, conotados com poder financeiro e poder de influências - logo, é isto que vale. Bom, na verdade, tudo isto vale. Mas reduz-se a isto o valor a adquirir? Ou existem outros valores, outros benefícios? É claro que isto é complexo de analisar. É claro que por detrás destas questões estão muitas outras...
Poderá rematar-se com a bela frase de Fernando Pessoa: "...tudo vale a pena se a alma não é pequena...". E tanto fica dito! Mas pressupõe-se, então, a alma e a sua existência. O que nos reenvia à questão, filosófica, sem dúvida, ainda que passível de ser tratada também noutros contextos.
Repetindo o mote: porque é que existe quem se preocupe com tudo isto? É certo que não conheço inteiramente a resposta. Mas, em parte, ela impõe-se-me com clareza: não é uma questão de escolha. Quer dizer, não é algo que se escolha, mas sim algo que acontece a uns e não a outros ( conclusão que avanço, mas que coloca a questão do livre-arbítrio/determinismo). Assim como alguém que pinta, ou que vive para a música, ou é que é apto a gerir finanças, não pode deixar de se entregar a tais actividades e respectivas configurações do mundo e da realidade. Do mesmo modo, há quem viva filtrando radicalmente essa realidade e auscultando-a quanto aos seus fundamentos, procurando uma configuração do todo que o torne inteligível, interrogando-se acerca dos princípios que melhor possam orientar a sua conduta...
Portanto, não se escolhe. É-se assim. E, no entanto, embora se imponha a distinção entre filosofar espontâneo e sistemático (inclusive profissional), não há quem não tenha uma postura filosófica. Mesmo aqueles que acerca de tais questões nunca se interrogam, esses mesmos possuem uma filosofia. Ainda que a um nível inconsciente, ela está lá, nas suas vidas, orienta os seus actos e implica sempre uma certa "visão do mundo". Faz parte da vida, faz parte de todos nós. Julgo que é esse, sem dúvida, o seu maior encanto.
Imagem: La morte di Seneca, Jacques-Louis David - 1773