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domingo, 7 de junho de 2009

Política

Quem procura verdades num contexto sobretudo filosófico, encontra-se, pela própria natureza da sua actividade, num plano que se procura exterior ao domínio político. Mas isso não significa que a sua existência decorra afastada e esquecida da sua posição no mundo "humano, demasiado humano" a que todos pertencemos. Pelo contrário, o exercício concreto da cidadania faz parte do seu plano de acção, o qual se procura distinguir de um exercício teórico e ideal - importante, mas que não abarca todas as dimensões da sua situação no mundo.


É por isso que hoje vou votar,

relembrando as palavras de Hannah Arendt que aqui ficam, não só para reflexão, mas sobretudo para o prazer de acompanhar um bem pensar.




«Sem dúvida que todas estas funções de relevância política são exercidas no exterior do domínio político. Elas requerem distanciamento e imparcialidade, libertação dos interesses pessoais, no acto de pensar e de julgar. A procura desinteressada da verdade tem uma longa história; (...).
Em virtude de ter tratado aqui da política, na perspectiva da verdade, e, portanto, de um ponto de vista exterior ao domínio político, omiti a referência, mesmo de passagem, à grandeza e à dignidade do que nela está implicado. Falei como se o domínio político não fosse mais do que um campo de batalha entre interesses parciais e antagónicos, onde nada mais contaria além do prazer e do lucro, do partidarismo e da ambição de poder. Em síntese, falei da política, como se também eu acreditasse que todas as questões públicas são comandadas pelo interesse e pelo poder, e que nem chegaria a haver esfera política, se não nos sentíssemos compelidos a cuidar das necessidades da vida. A razão para esta deformação é que a verdade factual só entra em conflito com a política apenas a este nível mais baixo dos negócios humanos, tal como a verdade filosófica de Platão chocou com a política, ao nível consideravelmente mais elevado da opinião e do consenso. A partir desta perspectiva, continuamos sem saber qual é o conteúdo actual da vida política - da alegria e da gratificação que emergem do facto de estar na companhia dos nossos pares, da acção e aparição conjuntas no espaço público, de nos inserirmos no mundo, pela palavra e pelos actos, e conquistarmos e conservarmos, assim, a nossa identidade pessoal, iniciando algo inteiramente de novo. No entanto, o que pretendia mostrar aqui é que toda esta esfera, apesar da sua grandeza, é limitada - ela não engloba toda a existência dos homens e do mundo. Ela é limitada por aquelas coisas que os homens não podem mudar à sua vontade. E é somente respeitando os seus próprios limites que este domínio, onde somos livres para agir e transformar, pode permanecer intacto, preservando a integridade e mantendo as promessas. Conceptualmente, podemos chamar verdade àquilo que não podemos mudar; metaforicamente, ela é o solo em que nos movemos e o céu que se expande por cima de nós.»
in Hannah Arendt, Verdade e Política


Imagens: pesquisa do Google

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