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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

No limiar de um portal

"(...) nem as circunstâncias da justiça nem os seus canais são os do amor. E menos ainda são os do amor os argumentos da justiça. Para dizer a verdade, o amor não argumenta (...)." - Paul Ricouer, Amor e Justiça

Eric White, Portal (2010)

Dizem que o inverno é reflexivo e que convida a pensar, talvez mais devagar. E eu tendo a concordar - quando saio à rua e o ar frio parece queimar o meu rosto, ou quando a chuva fustiga a minha efémera existência para lá do casaco que sabe a protecção... A lentificação provocada pelo frio é uma espécie de lugar onírico que potencia as sensações. Por força dessa maximização, há  também uma difusa percepção de tudo: há Natal, é verdade, há festa, compras e multidões, há afectos e desafectos, encontros e desencontros, e tanto mais, no movimento apressado da preparação dos rituais. O movimento interior, no entanto, é lento. Em tempos, também os rituais o eram. Imersos agora nesta duração e nos lugares da época, levados na corrente, todos parecem apressar-se em busca de alguma coisa urgente... Talvez de certo mágico lugar onde possa enclausurar-se o afecto que combate a finitude, fugindo à dispersão.
Aos afectos é costume chamar-se amor, qualquer que seja o seu carácter particular. Mas, na procura de tudo, há também uma espécie de corrida para chegar a um certo limiar no qual sempre se afronta o desconhecido. Transpor o portal, uma vez aí, é o derradeiro acto que nos consome no desejo de arder como eterna chama. Essa porta que é preciso abrir para o que nos faz felizes, encerra mistérios e segredos, parece-nos, assim o sentimos. Mas, ao abri-la, é bem possível que nos espere tão somente uma grande exigência: a de viver por inteiro. E isso é o mais difícil. De cada parte, pode ser fácil dar conta. Mas do todo...! Aí, acontece ser bastante mais complicado. Tudo isto para dizer, é claro, imbuída desta atmosfera invernosa, reflexiva e natalícia, que o amor não é fácil. Nem sequer o amor universal, apesar do seu carácter abstracto. Estará o amor, enquanto imperativo maior, acima da própria justiça? Em que ponto poderão encontrar-se? Ou incompatibilizar-se? A verdade é que se o amor não é fácil, a justiça parece sê-lo menos ainda. Viver esta dialéctica e trazê-la para o lugar concreto de cada vida é um dos maiores desafios.
Transpor um limiar para descobrir algo importante, é quase como dar um salto para um precipício. Lá em baixo, o desconhecido... Pensamos antes de dar o salto, ou saltamos, e depois logo se vê...? Argumenta-se pela justiça, ou segue-se o imperativo do amor? Também podemos considerar que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas, será mesmo assim? Por outro lado, amar de forma justa, ou ser justo por amor, parece uma verdadeira utopia. No entanto, sinto que ela está comigo neste Natal...

Um grande abraço a todos os amigos/as do Catharsis. 
Obrigada pela vossa preciosa companhia.
Feliz Natal!
 

Regresso ao futuro

Muitas vezes, diz-se: nunca regresses a um lugar onde já foste feliz. Mas como não procurar todos os lugares que nos parecem compatíveis com...