o tempo que passamos a tentar recuperar o que nos foi tirado, é mais tempo perdido
Cito de memória a passagem de um diálogo do filme "Este País Não É Para Velhos". Esquivei-me durante muito tempo a vê-lo: só o título... sempre me pareceu de uma extrema crueldade. Mas o filme é bom e cruel, e o livro talvez seja melhor e igualmente implacável.
O tempo é ele próprio cruel e é da sua irreversibilidade que esta quase não-história nos fala. Pressupõe que alguma coisa importante e inesquecível nos é tirada à medida que o tempo passa... E depois: ficamos a olhar em frente sempre em busca do que perdemos? ou olhamos o futuro à procura do que ainda não conquistámos? Afinal, há alguma coisa para conquistar a partir de uma certa idade? A aceitação de que estaremos desfasados de tudo um belo dia e de que o preferível será "encostar às boxes", enfim... é como esbarrar logo contra uma parede, mas pode ser ao mesmo tempo quase tudo o que há. E se é o que há, siga... Já não há lugar para aqueles que não encaixam na perfeição num mundo de alucinante desprezo pelos fracos - colocados em confortáveis asilos de higiénica perversidade: só para alguns; ou em asfixiantes e esquecidos redutos: para tantos outros. Enquanto isso, lá fora os fortes tentam esquecer que um dia serão fracos...
Uma visão terrivelmente pessimista, talvez. Uma visão realista, tendencialmente, situados que estamos no coração de países violentos e irremediavelmente para velhos.