As mãos de vidro fino
no ar translúcido indolente e raro
prendem o tempo nas palavras ditas
e nisso movem-se subtis
pois quando dizem escrevem
e é só no papel que são gentis
no ar translúcido indolente e raro
prendem o tempo nas palavras ditas
e nisso movem-se subtis
pois quando dizem escrevem
e é só no papel que são gentis
Havia um imperador no oriente
e um belo livro de gravuras
ali na mesa à esquerda de onde estás
um belo palacete tu herdaste
aqui no teu pequeno ocidente
o espaço tempo do universo inteiro
na curva abrupta e curta do teu reino
e um belo livro de gravuras
ali na mesa à esquerda de onde estás
um belo palacete tu herdaste
aqui no teu pequeno ocidente
o espaço tempo do universo inteiro
na curva abrupta e curta do teu reino
[poderes nas mãos
os homens têm
e só nas horas vagas são mortais]
As mãos que são de veias latejantes
no ar opaco denso e impaciente
que comem tempo indo febris à boca
dançam colhendo gestos insensatos
que tiram da gaveta aqui ao centro
bebem-te a vida e o licor de flores
ali no teu armário da direita
e tu imperador nas mãos a chave
no ar opaco denso e impaciente
que comem tempo indo febris à boca
dançam colhendo gestos insensatos
que tiram da gaveta aqui ao centro
bebem-te a vida e o licor de flores
ali no teu armário da direita
e tu imperador nas mãos a chave
[licores de flores
que travo amargo têm!
mas só nas horas vagas são fatais]
Havia um homem livre num mosteiro
que aí a vida toda contemplava
no topo da montanha o céu brilhava
e o uno fragmentado se avistava
no livro raro as suas mãos escreviam
e todos em uníssono nele bebiam
que aí a vida toda contemplava
no topo da montanha o céu brilhava
e o uno fragmentado se avistava
no livro raro as suas mãos escreviam
e todos em uníssono nele bebiam
[têm os livros raros
a alma posta em sossego
e só nas horas vagas são carnais]
a alma posta em sossego
e só nas horas vagas são carnais]
Ana Paula S.B.
Imagem: Study of a Woman's Hands, Leonardo da Vinci (Drawing - Royal Collection, Windsor)
