
Chamei à minha memória e à minha reflexão autores do passado. O que pode ser um paradoxo temporal (ou não) é o facto de inúmeras vezes os encontrar mais actuais que muitos actuais.Acontece que um dos temas que faz a actualidade é o tema da opinião: ter opinião formada ou não; fazer a opinião de...; dar opinião sobre...; opinar aqui e ali; sondar a opinião... e por aí adiante, ao longo de um sem número de adaptações possíveis do termo.
Pois parece-me legítimo, e até necessário, ter opiniões. Embora muitas vezes seja preciso reconhecer que não se tem opinião. Ou assinalar o facto de que o que defendemos é apenas uma opinião. Por vezes, acontece ser preferível não ter opinião, em vez de ter uma opinião desinformada, ou que não é do próprio(a). Outras vezes não, e as opiniões também podem coincidir. Na verdade, é complicado. Ainda que possa parecer simples.
Também pode acontecer ser desastroso construir toda uma sociedade fundada em opiniões (ou crenças). Não tenho nada contra opiniões. Eu própria tenho as minhas. No entanto, que competências sociais podem de facto desenvolver-se com opiniões apenas? Julgo que são escassas e ineficazes. Ou seja, o mundo da opinião é um terreno importantíssimo, o que não obsta ao facto de em certos domínios ser absolutamente necessário ir mais além. Quando somos convocados a tomar uma posição, por exemplo. Quando dessa posição resultam consequências que afectam não só cada um, mas muitos outros. Sendo que por detrás desta cortina nem sempre transparente de motivações, levados a pronunciar-nos, existem decisões a tomar. E decidir nunca é fácil. Refiro-me a decidir conscientemente.
É neste terreno perene e transbordante de flutuações que me ocorre a importante distinção platónica (ainda que longínqua do ponto de vista temporal) entre opinião e ciência (ou saber). Recordando este ponto, é sabido que Platão considerava a opinião (doxa) um domínio inferior do conhecimento relativamente à ciência (episteme).
Usando de algum rigor na análise desta temática, há que reconhecer ser impossível dominar todas as matérias acerca das quais nos pronunciamos, com os necessários fundamentos científicos (não esquecendo que este termo é aqui usado para lá do seu significado actual, recolhendo dele o seu carácter de verdadeira sabedoria, à luz do sentido que possui na filosofia platónica - e que se distancia largamente de competências exclusivamente técnicas, o que fica para outra altura...). Pressupõe-se, no entanto, que há saberes que conferem autoridade em determinadas matérias. Se a especialização pode ser, por vezes, algo redutora, não deixa de ser necessária. Em especial, conta-se com ela (ou deveria contar-se) para a aquisição de competências de cidadania. Conta-se com quem sabe sobre... Para nos elucidar. O contar-se com alguém para tal efeito implica um voto de confiança. Só há confiança quando se reconhece autoridade. Esta só existe quando se apresentam provas.
Evidentemente, a questão é inesgotável. As especulações (filosóficas e outras) continuarão e é bom que continuem... Quando é preciso agir e andar para a frente... é preciso decidir. Duvido sempre de conhecimentos absolutos. Nem a ciência hoje é considerada absoluta (com as suas constantes rupturas e substituições de paradigmas). As ideias platónicas, esse mundo das formas perfeito e imutável, provavelmente não está ao nosso alcance. Mas se é desaconselhável defender o absoluto, não o é menos a defesa do relativismo. Sabendo que todas as nossas posturas podem conter uma certa margem de incerteza e erro, é preciso avançar. Não é certamente avanço adoptar opiniões na base do critério da mera influência ocasional. Resultado de simpatias ou de interesses. Ou de outros factores altamente subjectivos que ficam por assinalar. Não é certamente avanço oferecer opiniões desinformadas e de compromisso. É que uma opinião fundamentada não é nada fácil. Porque já se afasta do domínio do subjectivo e procura ascender ao patamar do rigor e da seriedade... Uma empreitada! Se calhar, não vale a pena viver sem a experimentar.
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