
Aqui estou, sentada no meio de um ambiente super-electromagnetizado. Porque hoje é esse tipo de ar carregado que respiramos. Eu queria sentir o odor da terra molhada, depois da chuva, e que nos reconduz às origens. Hoje, é tão difícil encontrá-las, descobrir a sua metamorfose algures nos terraços dos altos edifícios, nas antenas, nos radares, nos satélites...Sim, é a partir de um certo tempo de vida que se torna mais aguda a impressão do tempo: quando a vertiginosa queda nesse ciclo temporal, marcada no corpo e na mente, acontece conscientemente. Primeiro, tudo parece novo, diferente e original. Depois, mais tarde, verifica-se que a criação é rara, o mundo parece estar desde sempre dominado pela tarefa de recriar. Até ao ponto de repetir. Claro que nunca nada é exactamente igual. Mas se o mundo possui alguma consistência, ele replica-se a si mesmo. E isso é negativo? Talvez a resposta mais adequada seja bastante vulgar: é bom repetir o bom, e mau repetir o mau. Mas que garante se possui da bondade ou da maldade das coisas, dos actos, do mundo todo ele? Bom... eu podia dar uma resposta, recheada do que acho bem e do que acho mal. Sim, eu tenho ideias definidas. Mas também dúvidas. E é importante falar delas. Mas não hoje.
Porque é quando a atmosfera outonal começa a fazer parte dos dias, sobretudo se dando um ar de graça precoce, a luz já quebrada pelo encurtar dos dias; quando se retoma quase tudo o que já se retomou antes; acontece as ideias e as certezas ficarem mais claras. Não sei se devido ao facto de já "acendermos" mais a luz, a eléctrica, a que substitui a chamada luz natural, a do sol... a que nos reconduz às origens, e a outra, a que nos afastou delas... talvez por isso, fica tudo demasiado claro. Muitas vezes me interroguei como seria, por ex., viver na Idade Média, o mundo dominado pela escuridão, ansiosos pelo nascer do sol... o ar carregado ainda de magias...
Afinal... afinal... que peso ter algum saber (ou alguma idade)! Conseguir predizer o futuro, prever o que vem a seguir; e errar, por vezes, em tudo isso, tal como aconteceu a outros antes, também.
E o que mais pode animar um prenúncio de Outono, do que a certeza do erro?
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