quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Eterno retorno - 1


Aqui estou, sentada no meio de um ambiente super-electromagnetizado. Porque hoje é esse tipo de ar carregado que respiramos. Eu queria sentir o odor da terra molhada, depois da chuva, e que nos reconduz às origens. Hoje, é tão difícil encontrá-las, descobrir a sua metamorfose algures nos terraços dos altos edifícios, nas antenas, nos radares, nos satélites...
Sim, é a partir de um certo tempo de vida que se torna mais aguda a impressão do tempo: quando a vertiginosa queda nesse ciclo temporal, marcada no corpo e na mente, acontece conscientemente. Primeiro, tudo parece novo, diferente e original. Depois, mais tarde, verifica-se que a criação é rara, o mundo parece estar desde sempre dominado pela tarefa de recriar. Até ao ponto de repetir. Claro que nunca nada é exactamente igual. Mas se o mundo possui alguma consistência, ele replica-se a si mesmo. E isso é negativo? Talvez a resposta mais adequada seja bastante vulgar: é bom repetir o bom, e mau repetir o mau. Mas que garante se possui da bondade ou da maldade das coisas, dos actos, do mundo todo ele? Bom... eu podia dar uma resposta, recheada do que acho bem e do que acho mal. Sim, eu tenho ideias definidas. Mas também dúvidas. E é importante falar delas. Mas não hoje.
Porque é quando a atmosfera outonal começa a fazer parte dos dias, sobretudo se dando um ar de graça precoce, a luz já quebrada pelo encurtar dos dias; quando se retoma quase tudo o que já se retomou antes; acontece as ideias e as certezas ficarem mais claras. Não sei se devido ao facto de já "acendermos" mais a luz, a eléctrica, a que substitui a chamada luz natural, a do sol... a que nos reconduz às origens, e a outra, a que nos afastou delas... talvez por isso, fica tudo demasiado claro. Muitas vezes me interroguei como seria, por ex., viver na Idade Média, o mundo dominado pela escuridão, ansiosos pelo nascer do sol... o ar carregado ainda de magias...

Afinal... afinal... que peso ter algum saber (ou alguma idade)! Conseguir predizer o futuro, prever o que vem a seguir; e errar, por vezes, em tudo isso, tal como aconteceu a outros antes, também.
E o que mais pode animar um prenúncio de Outono, do que a certeza do erro?


Imagem daqui


9 comentários:

ângela marques disse...

Vinha comentar o post anterior e afinal já cá esá outro. Curiosamente o que posso dizer, à partida, é o mesmo: aprecio a tua tranquilidade perante a vida.
Mas este post de hoje e a vida que nos rodeia, nos nossos dias, faz-me acrescentar algo. Aprecio a tua tranquilidade, mas a mim não me chega. São demasiados os horrores, os males, os desastres (naturais ou não) para que me quede tranquila a olhar. Há qualquer coisa que penso estar a atingir os limites da dignidade humana e que me faz ansiar por um "agir", um berrar a dizer BASTA! Que não seja só meu, claro.

Boa "rentrée", Ana Paula!

Carlos Marques e Helena Serrão disse...

Apesar de tudo, ou seja dos passos em volta, há para além do Outono um prenúncio de ...vida? Espero que tenhas um bom começo!Bjo

RAA disse...

...a certeza de errar melhor

observatory disse...

estimada ana...
isto é assunto para muito pano.

voce sabe o que penso acerca destas coisas

vamos resistindo a vulgaridade

ha quem diga que sou ordinario mas nao vulgar :)

nada mau nada mau

obgdo pela observaçao oferecida as minhas observaçoes :)

LM,paris disse...

Ana Paula,
venho aqui sentar-me à beira das suas palavras e oiço, e escrevo consigo, aprendo, reconheço.
Como diz a ângela,
apaziguo-me...diz-se?
O post do chà, é tao interessante, é uma das minhas paixoes, o chà,
e o Japao.
Deixo-lhe um parsemé de feuilles chutées de part un simple souffle, un ennui si précieux du jardin qui sommeille à ma porte, à celle de toutes nous.
Baiser de Paris, automnal.
LM

intruso disse...

"Sim, é a partir de um certo tempo de vida que se torna mais aguda a impressão do tempo"


[acredito que sim,
que o tempo seja feito de espelhos e ecos,
que o tempo nos ensine o que é o tempo.]


beijo
:)

casa de passe disse...

Gostámos muito da sua reflexão.

Contudo o eterno retorno traz-nos os clientes e o ganha pão.

(Nini, Loulou, Alice, Lisette - amiga da Nini - Avô e João).

Mar Arável disse...

Pelo sonho é que vamos

Violeta disse...

Imagem espectacular...
"Afinal... afinal... que peso ter algum saber (ou alguma idade)! Conseguir predizer o futuro, prever o que vem a seguir; e errar, por vezes, em tudo isso, tal como aconteceu a outros antes, também.
E o que mais pode animar um prenúncio de Outono, do que a certeza do erro?"
A certeza do erro é importante, é como o ter medo. Enquanto tivermos medo é sinal que algo nos prende À vida...
Um bj e bom domingo.