«(...) uma tolerância limitada é claramente preferível a uma intolerância absoluta. Mas a tolerância continua a ser uma hospitalidade sujeita a um exame rigoroso, sempre sob análise, parcimoniosa e protectora da sua própria soberania. No melhor dos casos, é aquilo a que chamaria uma hospitalidade condicional, (...). Mas a hospitalidade pura ou incondicional não consiste nesse convite ("Convido-o, recebo-o de bom grado em minha casa, desde que se adapte às leis e às normas do meu território, de acordo com a minha língua, tradição, memória, etc."). A hospitalidade pura e incondicional, a própria hospitalidade, abre-se ou está antecipadamente aberta a alguém que não é esperado nem convidado, a quem quer que chegue como visitante completamente estranho, como recém-chegado, não identificável e imprevisível, em resumo, completamente outro. Chamar-lhe-ia uma hospitalidade de visitação em vez de convite. A visita pode ser efectivamente mais perigosa, e não devemos ignorar esse facto, mas será que uma hospitalidade sem riscos, uma hospitalidade apoiada por certas garantias, uma hospitalidade protegida por um sistema imunitário contra aquele que é completamente outro, será a verdadeira hospitalidade? (...)
Uma hospitalidade incondicional é, com certeza, praticamente impossível de viver; não se pode de qualquer maneira, e por definição, organizá-la. O que quer que aconteça, acontece, quem quer que venha, vem (ce qui arrive arrive), e isso, no final, é o único acontecimento digno desse nome. E reconheço que este conceito de hospitalidade pura não pode ter qualquer estatuto legal ou político. Nenhum Estado o pode inscrever nas suas leis. (...)
A hospitalidade incondicional é transcendente ao político, ao jurídico, talvez mesmo ao ético. Mas (...) não posso abrir a porta, não posso expor-me à chegada do outro e oferecer-lhe seja o que for sem tornar esta hospitalidade efectiva, sem, de alguma forma concreta, dar algo determinado. Esta determinação terá, portanto, de reinscrever o incondicional em certas condições. Caso contrário, não dá nada. O que se mantém incondicional ou absoluto (...) arrisca-se a não ser nada se as condições (...) não fizerem disso alguma coisa (...). As responsabilidades políticas, jurídicas e éticas têm lugar, se acontecerem, apenas nesta transacção - que é de cada vez única, como um acontecimento - entre estas duas hospitalidades, a incondicional e a condicional.»
Jacques Derrida in Giovanna Borradori, Filosofia em Tempo de Terror (Diálogos com Jürgen Habermas e Jacques Derrida)
