terça-feira, 13 de julho de 2010

Convidado ou visitante?

«(...) uma tolerância limitada é claramente preferível a uma intolerância absoluta. Mas a tolerância continua a ser uma hospitalidade sujeita a um exame rigoroso, sempre sob análise, parcimoniosa e protectora da sua própria soberania. No melhor dos casos, é aquilo a que chamaria uma hospitalidade condicional, (...). Mas a hospitalidade pura ou incondicional não consiste nesse convite ("Convido-o, recebo-o de bom grado em minha casa, desde que se adapte às leis e às normas do meu território, de acordo com a minha língua, tradição, memória, etc."). A hospitalidade pura e incondicional, a própria hospitalidade, abre-se ou está antecipadamente aberta a alguém que não é esperado nem convidado, a quem quer que chegue como visitante completamente estranho, como recém-chegado, não identificável e imprevisível, em resumo, completamente outro. Chamar-lhe-ia uma hospitalidade de visitação em vez de convite. A visita pode ser efectivamente mais perigosa, e não devemos ignorar esse facto, mas será que uma hospitalidade sem riscos, uma hospitalidade apoiada por certas garantias, uma hospitalidade protegida por um sistema imunitário contra aquele que é completamente outro, será a verdadeira hospitalidade? (...)

Wege VII, Anselm Kiefer  (1978)


Uma hospitalidade incondicional é, com certeza, praticamente impossível de viver; não se pode de qualquer maneira, e por definição, organizá-la. O que quer que aconteça, acontece, quem quer que venha, vem (ce qui arrive arrive), e isso, no final, é o único acontecimento digno desse nome. E reconheço que este conceito de hospitalidade pura não pode ter qualquer estatuto legal ou político. Nenhum Estado o pode inscrever nas suas leis. (...)

A hospitalidade incondicional é transcendente ao político, ao jurídico, talvez mesmo ao ético. Mas (...) não posso abrir a porta, não posso expor-me à chegada do outro e oferecer-lhe seja o que for sem tornar esta hospitalidade efectiva, sem, de alguma forma concreta, dar algo determinado. Esta determinação terá, portanto, de reinscrever o incondicional em certas condições. Caso contrário, não dá nada. O que se mantém incondicional ou absoluto (...) arrisca-se a não ser nada se as condições (...) não fizerem disso alguma coisa (...). As responsabilidades políticas, jurídicas e éticas têm lugar, se acontecerem, apenas nesta transacção - que é de cada vez única, como um acontecimento - entre estas duas hospitalidades, a incondicional e a condicional.»

Jacques Derrida in Giovanna Borradori, Filosofia em Tempo de Terror (Diálogos com Jürgen Habermas e Jacques Derrida)



10 comentários:

Manuela Freitas disse...

Este texto caíu no meu blogue e eu que estou aqui à espera de alguém, vim espreitar!
Visito sem ser convidada e até sou uma hóspede incondicional, que se pode tornar incomodativa. Grave esta situação, não gosto de visitar sem ser convidada e muito menos de me hospedar sem condições!...
Minha querida Ana Paula, voltarei para ler o texto como deve ser, até lá o meu desejo que esteja a passar uma tarde agradável, com certeza entre livros!
Bj,
Manuela

Ana Paula Sena disse...

Manuela, obrigada pelo comentário tão giro e tão simpático :)

Digamos que, neste caso, o resultado (entre a minha abertura incondicional e as condições incontornáveis que há sempre a estabelecer) é dos melhores, sempre que a Manuela me visita, e é, simultaneamente, convidada.

Beijinho grande!

(entre livros, ando sempre, destino meu, que livremente escolhi, mas a tarde tem sido muito mais de trabalho que é preciso pôr em dia)

Austeriana disse...

Olá Ana Paula! :)

Esta questão é bem pertinente nestes tempos de novas tecnologias, adquirindo renovadas «tonalidades» aqui nestes lugares sem lugar que são os blogues, onde visitamos e somos visitados sem conhecermos pessoalmente o anfitrião... É fantástico e todavia, como refere, de resto, Derrida, também aqui reinscrevemos o incondicional em certas condições!

(Ui! Olhei para cima e reparei que este comentário já está demasiado longo - peço desculpa!)

Um abraço e boas leituras!

Mar Arável disse...

Bjs tantos

C. disse...

Querida Ana Paula,

Derrida é um desafio constante e perturbador. Este tema daria "pano para mangas", porque o alcance dos textos de Derrida é sobretudo político e filosófico, mas isso é outra história.
O seu post fez-me lembrar um dos livros dele (e um dos menos difíceis, diga-se) - "De l´hospitalité" - em que ele diz: "Ao estrangeiro é devido respeito, é uma das regras do acolhimento.
Mas, para tal, ele deve saber inscrever-se na cidadania e no código que a governa: inscrever o seu nome (estrangeiro e com sotaque) no código da língua que o acolhe.

Os blogues são interessantes espaços de hospitalidade quando, como aqui, se faz juz a essa regra de acolhimento. Obrigada.

Ana Paula Sena disse...

Austeriana: obrigada pelo comentário, que não é nada longo, tão só porque é sempre com muito prazer que leio o que escreve :)

...e gosto muito que me visite, sendo que desde o início, sempre foi minha convidada.

Um abraço e boas leituras também (porque sei que as há, muitas e muito boas!, no Bicho Carpinteiro)


Mar Arável: obrigada pela visita, é meu convidado :)

Ana Paula Sena disse...

Querida C. :)

Eu sou suspeita, julgo, já que Derrida é o meu filósofo contemporâneo preferido. Vale a pena lê-lo, para lá da dificuldade do vocabulário mais específico da filosofia, que ele, como sempre fazem os "grandes", recriou.

É bem verdade, tal como refere, o exacto contexto deste excerto que aqui coloquei: o das dificuldades que se colocam ao recebermos os outros no nosso país, os que são estrangeiros. Concretamente, refere-se ao pós-11 de Setembro.
Alargando mais a questão, neste nosso mundo cada vez mais multi... e intercultural, como conviver, para lá de um mero suportar (o que, a meu ver, é uma perspectiva horrível e negativíssima), com os outros, tão diferentes e mesmo, por vezes, radicalmente diferentes. E como definir as regras dessa convivência, porque a ausência de regras e de limites (de condições, em suma) é o caminho mais curto para a tornar impossível.

Só para gosto meu, enfim, refiro uma outra leitura de Derrida, sobre o perdão, que é igualmente interessante, e à qual gosto de voltar muitas vezes.

Muito obrigada por esta pequena conversa! Porque eu é que devo agradecer a visita, de que tanto gostei.

C., como sabe, desde há muito que é minha convidada :)

Maria Ribeiro disse...

ANA Paula SENA: há muito que não falamos ,mas não me sinto indesejada...JURO que cumpro todas as regras...
ABRAÇO de
LUSIBERO

Carlos Pires disse...

A hospitalidade incondicional de que Derrida fala implicaria a suspensão do nosso espírito crítico e a anulação da nossa autonomia. Se em nome da diversidade nos anularmos face aos outros deixa de haver diversidade.
A tolerância é de facto uma atitude preferível. Derrida diz 'tolerância limitada' porque se a tolerância for completa é equivalente à tal 'hospitalidade incondicional' e anula-se a si mesma. A tolerância para existir tem que ter limites: não se pode tolerar o intolerável.

Eliete disse...

Ana Paula belos pensamentos para refletir por toda uma vida...
O estrangeiro remete à alteridade. E ainda está muito longe entendermos que Alter:outro não é Alius:estranho.
Entender a alteridade é ser capaz de olhar o outro como outro e não como estranho. O dia que conseguirmos a hospitalidade será outra tb. bjs, Eliete