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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Momentos filosóficos - 5


Apesar de convidado, Michel Onfray não passa férias com Sarkozy.

Ouvi hoje na TSF uma interessante entrevista de Carlos Vaz Marques a Michel Onfray. Politicamente, o filósofo assume uma posição claramente contrária à actual Presidência da República francesa. Ao longo desta conversa, Onfray explica o que o afasta de Sarkozy e justifica algumas das suas opções de vida, nomeadamente a sua recusa em candidatar-se ao mesmo cargo político pela esquerda-radical do seu país. Neste sentido, pode dizer-se que reconfigura o filósofo-rei da «República» de Platão: o poder que deve exercer situa-se preferencialmente no terreno, em contacto directo com as pessoas. Em vez de um Parlamento, o seu lugar de eleição será antes o de uma Universidade Popular, disfrutando aí de novos Jardins de Epicuro. Numa perspectiva polémica mas muito actual, fala-nos da importância dos pequenos poderes. Todos juntos, podem fazer muito, na medida em que cada um faça por intervir no seu pequeno espaço, com o objectivo de contribuir para uma vida boa.


É assim que o verdadeiro sentido do hedonismo ascético, defendido e ensinado por Epicuro, ressuscita - a busca do prazer no seu sentido mais elevado, e não a do mero prazer pelo prazer. Só desse modo é possível encontrar um sentido para a vida e escapar de facto ao niilismo...
Apesar de divergir em relação ao autor, considerando certos pontos de vista, e em relação a alguns aspectos especificamente filosóficos, não posso deixar de salientar o interesse e a actualidade do seu pensamento. Particularmente, a sua preocupação relativa a uma dimensão prática do pensar filosófico.

Um pouco de Michel Onfray escrito-lido:

- "Como é que se pode falar de forma a entendermo-nos, pensar uns nos outros sem interferirmos na vida alheia - pensar na possibilidade de nos tocarmos, talvez - ou tomar um contacto com o outro sem o brutalizarmos? De que forma amar sem renunciar à liberdade, à autonomia e à independência - e tentando preservar os mesmos valores no outro? Pode evitar-se e fugir da luta e da guerra para gozar actividades mais alegres e agradáveis? Como é que se pode impedir que a relação sexuada caia na atracção da violência?"

- "A vida filosófica obriga a que se tente - às vezes sem se conseguir - fazer a adequação entre as afirmações teóricas e os comportamentos práticos. O verbo visa a carne, a palavra tende para a obra activa, a ideia contribui para a atitude. Da mesma forma, a carne visa o verbo, a obra activa tende para a palavra, a atitude contribui para a ideia. Nada de essencial se efectua fora deste movimento perpétuo de ida e volta entre viver e filosofar."

- "Os fins do epicurismo visam o desaparecimento dos desejos que torturam, das ausências que atormentam, das necessidades que fustigam.
Assim, estar diante de uma mesa sumptuosa não obriga o epicurista discípulo do Mestre a fugir espavorido, ninguém o obriga a refugiar-se numa cela monacal para expiar a sua tentação. (...) O sábio deve simplesmente saber usar desta possibilidade como se fosse um bem, e ele fosse um homem livre. A sua força e o seu poder consistem em aproveitar sem se deixar aprisionar, a ter prazer sem cair na escravatura da volúpia alcançada. Ter, mas continuar a ser, sem sucumbir à tirania de um querer que lhe escapa. (...)
Epicuro sabe que a via ascética é mais simples, mais eficaz e mais segura, por ser a menos perigosa e a menos arriscada. Com ela, não se tenta o diabo, não se caminha sobre o fio da navalha, não se põe em risco uma serenidade que se alcançou com esforço, não se expõe um bem tão precioso.
Contudo, ser epicurista não significa ser Epicuro, ser como ele, viver de forma mimética. A fisiologia frágil do criador do Jardim obriga-o a isso, constrange-o a viver de forma ascética, mas os seus discípulos com um corpo mais livre inclinam logo a sua teoria para um declive mais hedonista."
in Michel Onfray, Teoria do Corpo Amoroso


Um pouco de Michel Onfray falado-ouvido - entrevista na TSF



Imagens: pesquisa do Google

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