domingo, 6 de julho de 2008

Passes de magia



Há algum tempo atrás adquiri um livro que depois ficou de lado. Pareceu-me traçar um cenário futuro de exagerada catástrofe. Trata-se de «O fim do petróleo - O grande desafio do século XXI» de James Howard Kunstler.

Face ao actual estado da economia e, sobretudo, face ao actual preço dos combustíveis, voltei a pegar no livro. Comecei a pensar que o autor talvez tenha razão quanto a algumas questões. Longe de concordar com muito da sua perspectiva, reconheço existirem motivos para nos preocuparmos com o futuro do planeta e com as condições de vida que deixaremos ficar para as gerações vindouras. De uma forma mais imediata (e também a médio e longo prazo), existem razões para nos preocuparmos com as consequências de uma tão grande e notória dependência do petróleo. Actualmente, quase toda a nossa vida depende, directa ou indirectamente, desta matéria-prima, um dos principais recursos naturais de que dispomos (ainda ?).

Uma tão extrema dependência nunca poderá ser positiva. Está na hora de procurar a todo o vapor energias alternativas e investir nas reconversões que se revelarem necessárias.

Talvez valha a pena ler o livro, afinal... Ao retomar a sua leitura, entre tantos aspectos polémicos e interessantes nele focados, retive na memória uma passagem. Não pude deixar de ficar estupefacta face ao modo como se desenrola a economia... face aos verdadeiros passes de magia que se realizam nesta área... face à íntima relação entre ela e a vivência cultural... Se não, vejamos:



"A orgia de compra e venda de casas, que se verificou em princípios do século XXI, foi desencadeada pela política da Reserva Federal, no quinquénio de 1998-2003, de redução constante da taxa de juro que cobrava aos bancos para emprestarem dinheiro, o que se repercutiu por todo o sistema de empréstimos ao ponto de as hipotecas atingirem valores sobrenaturalmente baixos. As taxas de juro baixas foram acompanhadas por uma acentuada decadência das práticas de empréstimo, pelo que praticamente qualquer pessoa (...) conseguia uma hipoteca com uma entrada mínima ou mesmo sem ela. Outros factores favoreceram a transferência do capital de outros investimentos para a habitação. (...) só palermas recorreriam a cadernetas de poupança com uma taxa de juro de 1,75%. A derrocada das dot-com tinha feito com que muita gente abastada da classe média se sentisse enganada e desconfiada. É até possível que o profundo horror dos ataques de 11 de Setembro tenha inspirado uma espécie de mentalidade de bunker, que se traduziu numa mania de as pessoas construirem o seu ninho. (...) Uma grande parte da riqueza excedentária que ainda existia nos Estados Unidos em finais do século XX acabou no sector imobiliário, ao abrigo da teoria de que, ao menos, era real.

Na verdade, a população dos Estados Unidos estava a crescer, mas não a uma taxa que justificasse a construção de tantas «McHouses» novas, como se chamava às «unidades» nos bairros que iam surgindo. (...) E, subjacente a tudo isto, estava a máquina de criação de crédito da Reserva Federal de Alan Greenspan, fabricando electronicamente dinheiro que não existia realmente, que não se estava a acumular pelos meios tradicionais, na verdade os únicos meios autênticos de poupar com base em rendimentos obtidos por um trabalho real a produzir coisas reais. Tratava-se de um acto de magia.

As taxas de juro sobrenaturalmente baixas provocaram uma orgia de compra, a orgia de compra aumentou o preço das casas e, quando os preços das casas levitaram, os proprietários entraram noutra zona nova e estranha de acumulação alucinada de riqueza, recorrendo ao dispositivo mais recente: a «hipoteca refinanciada». Os refinanciamentos permitiram aos proprietários utilizar as suas casas como se fossem um caixa automático. Digamos, por exemplo, que uma pessoa comprou uma casa em 1999 por 250.000 dólares e que, em 2003, a casa foi reavaliada em 400.000 dólares; essa pessoa pode refinanciar-se com um substancial lucro em dinheiro, convertendo o aumento de valor imaginário em rendimento disponível, que pode ser usado para comprar barcos a motor, televisores plasma para ver cinema em casa ou viagens a Las Vegas. Num acto de prestidigitação, o refinanciamento terá proporcionado à economia americana cerca de 1,6 biliões de dólares em cinco anos, e grande parte desse «dinheiro» foi usado na aquisição de bens de «consumo», a maioria produzida fora dos Estados Unidos. (...)

Quando este livro for lido, é muito provável que a especulação imobiliária já tenha começado a causar aflições. (...)"
in James Howard Kunstler, "O fim do petróleo"

A ser verdade... pode concluir-se que o virtual também domina o sector económico...

Imagens: daqui e daqui


11 comentários:

jasmimdomeuquintal disse...

A economia mundial e os nossos hábitos vão ter que mudar muitooooooooo. E não é pessimismo nem alarmismo, é mesmo verdade: veremos!

Frioleiras disse...

não acredito

de modo algum

em dias melhores no noso planeta...


o Homem destruiu

já tudo ou quase tudo.........

take.it.isa disse...

verdadeiras orgias hipotecárias!

beijo, Ana Paula

amfm disse...

Bom, só estou admirada pelo facto de, neste campo e , se calhar pela 1ª vez, Portugal ter antecedido em muito Os Estados Unidos. Sem ser especialista, eu dira que vivemos esta "orgia hipotecária", desde os anos 80 do século XX.
Quanto á tua conclusão, é evidente e, para mim, assustadora.

Beijos

e-ko disse...

muito virtual o económico deste mundo que causa muitos benefícios a quem sabe mexer nos cordelinhos e que atira para a rua os "novos" pobres... ver o que aconteceu nestes últimos meses a muitas famílias vítimas das sub-primes e as famílias portuguesas que pouco a pouco se vêem sem carros nem casas leiloados pelos bancos!

alice disse...

obrigada por este excerto visionário da assustadora situação em que nos encontramos, ana paula. a meu ver, não há razões para optimismo, temos tratado muito mal o nosso planeta, a nossa casa mãe e o consumo de recursos deixou-nos dependentes de um estilo de vida que dificilmente poderemos suportar para sempre. um grande beijinho.

Mar Arável disse...

Na verdade o mercado

e a economia domina

a política e o social

Não basta constactar.

bjs

manhã disse...

já começou sim senhor, isto das casas está mesmo mal, o melhor é voltarmos aos primórdios dos nossos antepassados árabes: tendas.Bjo

Presença disse...

O poder não é do petroleo, mas sim da comunicação e como esta é manipulada.
.
.
.
Deixo-te esta sugestão
"Freakonomics" de Steven Levitt e Stephen Dubner da editorial Presença
.
Bjo

Art&Tal disse...

e agora?



despendiosas guerras e operaçoes de cosmetica...

balas e botox :)

que tal um delicioso retorno à malaposta?

aos recatados XIX ?

Mié disse...

...e o sector económico domina o Mundo.

Os políticos eleitos são meros peões do poder económico e os povos são apenas fontes de rendimento do mesmo poder, que age dissimuladamente por trás do poder político. Todos são entretidos com o "ter" e quanto mais mais "têm" mais importantes se tornam, não interessa como o "têm" isso fica a cargo de quem maneja as "virtualidades criativas" da economia.

Hipoteca-se o futuro. Destrói-se o planeta...

Com esta crise do petróleo tudo se torna mais visível...apenas!

E, como tudo o que começa acaba, e antes que acabe mal... a fome já aí está há muitos anos, começou pelas terras da abundância, um contra.censo não é? políticas economicistas liberalistas e estende-se agora às terras do fast.tudo, a nós, povos "civilizados"
...como dizia, antes que morremos todos de fome, o melhor será voltarmos aos campos, à charrua, à enxada e à capoeira, se quisermos ter de comer(isto se entretanto a água não começar a escassear e a virar "ouro branco"), porque os alimentos que hoje consumimos irão ficar pelo preço dos bolsos milionários...

Bolas, hoje estou mesmo pessimista...e desviei-me do texto :))


Um beijo

grande.íssimo, Ana Paula

e, estou bem apesar de...

obrigada