quarta-feira, 4 de junho de 2008

Em tom de escatologia



Ler é uma constante da vida de muitos. Da minha também. Pegar num livro é um momento importante. Um instante de escolha e de decisão. Misturar leituras também gosto. Mas há sempre o livro principal, aquele ao qual determino dar prioridade. As razões são pessoais, é claro.

Em busca de uma leitura com algum poder de distracção, mas que não caísse numa entediante superficialidade, fui conduzida ultimamente a uma publicação da Paralelo 40º, cujo título é algo nauseabundo e que numa primeira abordagem pode repugnar quer como ideia, quer como leitura: "O Grande Fedor" ou "The Great Stink". A autora é Clare Clark, formada em História (Cambridge) e a viver em Londres.

Uma certa estratégia de marketing indica que se trata de um Perfume do avesso. O de Patrick Süskind. Mas não creio que possua a mesma qualidade literária. Nem que seja exactamente uma história invertida da outra. Tem, no entanto, algumas características assinaláveis e de reter.
Por outro lado, se os aromas agradáveis merecem ser tematizados, porque serão de ignorar os desagradáveis?! Eles existem. E se não são desejados, é preciso eliminá-los.

Pois é esse mesmo o aspecto que encontrei de grande interesse neste livro. A partir de uma pesquisa histórica que se apresenta séria e rigorosa, a autora transporta-nos até uma época e um lugar onde as pessoas conviviam de modo escandalosamente íntimo com um ambiente conspurcado pelos piores cheiros imagináveis, provenientes do precário e ineficaz sistema de esgotos da cidade de Londres, centro urbano em acelerado crescimento durante o século XIX. Até que o Tamisa começa a ficar atolado de todo o tipo de porcarias. O ar é irrespirável. As águas de consumo doméstico são contaminadas e é também o próprio ar que propaga a terrível ameaça da cólera. As pessoas morrem umas atrás das outras devido a esta implacável epidemia.... A situação é insustentável e é preciso tomar medidas urgentes e eficazes para salvaguardar a cidade e a saúde pública.



É nesta atmosfera do submundo de uma Londres vitoriana que tudo acontece, nesse ar que se respira ao longo de um labirinto de esgotos decadentes e cheios de armadilhas. Tudo o que é importante nesta narrativa é aí que se passa, incluindo um crime que dá a este romance histórico um toque de policial.
Ocorre-nos Dickens e as suas descrições daqueles tempos e daqueles lugares. Os ambientes evocados transportam-nos para realidades chocantes: sobreviventes da guerra da Crimeia cuja vivência traumática resulta numa destruição do próprio corpo, através de rituais solitários praticados algures nos túneis da cidade, dominados pelas trevas e pelos odores mais repulsivos; espectáculos de lutas de cães com ratos caçados nos esgotos por antigos respigadores reconvertidos então para um novo negócio, realizados à porta fechada em tabernas e lugares infectos, onde os apetites mais sanguinários dão lucro aos seus proprietários e, por vezes, a clientes entorpecidos pelo álcool que arriscam uma aposta.

Mas a maior virtude deste romance é a de trazer até aos leitores a história de um dos mais notáveis empreendimentos de engenharia de todos os tempos: a construção do moderno sistema de esgotos da cidade de Londres. O engenheiro responsável foi Joseph Bazalgette.



Tomar conhecimento desta obra grandiosa, dos custos de todos os tipos nela envolvidos, dos resultados que com empreendimentos desta natureza se podem obter para a nossa civilização e para a vida nas grandes cidades; tudo isto não deixou de me causar admiração por todos aqueles que têm a visão dos projectos que constroem o futuro. No qual, muitas vezes, já não estarão presentes. É vital ter ideias para longos prazos, desenvolvê-las e implementá-las. É destas mentes cujo horizonte é longínquo algures no tempo, é dessa matéria construtiva e empreendedora que todo o progresso se faz... As grandes obras de engenharia são importantes, pois é delas que resultam (quando bem pensadas e concretizadas) as infra-estruturas necessárias para que a nossa vida decorra no bem-estar a que todos temos direito.

É todo este tipo de trabalho de bastidores da vida social, aquele que acontece e está por trás dos actos mais elementares do quotidiano; é ele que me poderá permitir estar tranquilamente sentada num sofá a ler "O Grande Fedor" ou um belo livro de poesia.

É verdade que nem tudo é perfeito, mas também é certo que há obras admiráveis!


11 comentários:

amfm disse...

E há recensões também admiráveis:)
E como de momento me sinto pouco atraída para mergulhar num mundo escatológico, dou-me por muito satisfeita com o que me deste a conhecer. Anotarei. Quem sabe um dia:)))

Beijos

isabel mendes ferreira disse...

Ana de todas as Anas...




vim. de fugida. apenas para te fazer sentir que não me esqueço de Ti.


como poderia?


as circunstâncias de agora é que me não permitem voar.... mas só isso.

e tb para te agradecer não "abandonares" o Piano.


beijo e beijo e beijo.

alice disse...

o perfume foi um dos livros que mais me transtornou pela força das imagens poderosas que o autor tem o condão de transmitir no cheiro intenso das palavras. um grade beijinho, ana paula.

intruso disse...

excelente post, como habitualmente...

"O Grande Fedor",
hei-de ler.

bjs
:)

Art&Tal disse...

bom...

ana

li tudo de fio a pavio

a sugestão é francamente interessante

gosto destas fumaradas industriais

das ilhas

e suas miserias

Frioleiras disse...

Só que eram outros tempos... as obras de hoje nascem do imediatismo, presente na sociedade actual.
Para esta, o passado e o futuro não contam, cada qual preocupado com o seu próprio umbigo.

E, sobretudo o futuro não é pensado.

Eu própria acho que o passado passou e o futuro sabe-se lá...
o presente é a unica realidade.
(mas eu não sou construtora de nada e muito menos política...)

Se tal não fosse não se teria chegado ao descalabro ambiental em que estamos, uma sociedade pendurada no petróleo e em serviços...
há muito que me deixei de saudosismos e não tenho muita fé nos construtores do futuro....

assim sendo...........

e-ko disse...

reais e surreais...

ainda não há muito tempo as casas das cidades e das aldeias não estavam ligadas aos esgotos urbanos... quanto devemos aos higienistas... a redução da mortalidade, etc., etc.... uma história paralela da nossa "modernidade".

até mais

manhã disse...

a leitura dá-nos estas informações sem neutralidade o que nos empolga e daí nos envolver, como se tivessemos sido parte.
bjo e boas leituras.

Bandida disse...

o arq. ribeiro telles falou das cidades... engenheiros e arquitectos nunca se deram lá muito bem... :))) salvo raras e honrosas excepções... :))

depois de tudo o que dizes tenho que ler o livro.

gostei imenso do post. como é hábito teu sempre excelentes!



beijo AP

Daniel disse...

Um artigo que também seria interessante publicar (entre toda a excelente informação que você colocou) é a história do homem que inspirou a criação de Sherlock Holmes: Dr. Joseph Bell - foi professor de medicina de Arthur Conan Doyle; ao mesmo tempo foi um dos percursores da moderna ciência forense.

Se estiver interessada pode consultar:

http://www.siracd.com/work_bell.shtml

en.wikipedia.org/wiki/Joseph_Bell

Ana Paula disse...

Muito obrigada a todos pela atenção dispensada! :)

Daniel: agradeço imenso a sugestão para um novo post. É, sem dúvida, uma personagem interessantíssima, o Dr. Joseph Bell! Esquecida, muitas vezes, tal como Conan Doyle, depois do sucesso de Sherlock Holmes. Fica prometido que terei em conta a sua lembrança. Será uma forma de recuperar o interesse histórico e literário que tenho nestas figuras e que, em tempos, me levaram a fazer o 221-B Baker Street.
Obrigada também pelos links que deixa ficar.