quarta-feira, 14 de maio de 2008

Em série

«Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure»
Vinicius de Moraes



Às vezes, penso nisto:

Existir em série pode ser complicado. No entanto, é próprio do nosso tempo. Por todo o lado, o que se produz surge no mundo com réplicas suas em número elevado. O que implica, desde logo, duas facetas da questão: a réplica e o número elevado.
Claro que a maquinização do mundo é responsável por isso. Estou a pensar, por exemplo, na fábrica de Henry Ford e no célebre Ford-T. Com o seu modelo taylorista de produção. Como não apreciar a ideia de que todos tenham tido, então, a possibilidade de ter um carro idêntico, fabricado nas mesmas condições e usufruindo das mesmas vantagens?! Não um modelo exclusivo, acessível e permitido só a uns poucos, posicionando-se assim esses num lugar especial, para além de qualquer confusão com a maioria. Porque a produção em massa só é possível se houver consumo de massa, Ford dizia: "Quero que os meus trabalhadores sejam os meus primeiros clientes." Claro que estavam por trás interesses financeiros e estratégias de marketing, mas é esse tipo de ideias e de actuação que abre a porta a todos.

De lá para cá, esse processo de abertura a todos tem aumentado a uma velocidade alucinante e é irreversível, parece-me. Além da globalização que actualmente todos conhecemos, estamos também na era da clonagem. Num futuro talvez não muito distante, poderemos ter muitos de nós, iguais a nós, pelo menos com o nosso ADN igualzinho. Ele poderá, assim, ser algo a adquirir, caso prove ser um código genético vantajoso. Acessível a todos num banco de dados. Ou então, seleccionam-se algumas características e disponibilizam-se num mercado. Rumo à competitividade genética. E tudo isto se é surpreendente, não deixa de ser inquietante. Também é certo que são reconhecíveis enormes vantagens, tal como desvantagens. Vale a pena reflectir nas implicações positivas e negativas de todo este presente e do futuro que se avizinha...



Mas, para mim, desde já, a grande questão é: existe algum limite? É possível afirmar que há algum domínio onde o em série não possa aplicar-se? Bom, na verdade, só me ocorre um. E esse domínio não é o da alta costura, onde a exclusividade tem um preço muito elevado, mas sim o do especificamente humano, onde ainda sobrevive o que é gratuito. Para lá da questão da clonagem, com a sua réplica do ADN, há uma área que a transcende no humano: a dos sentimentos ou dos afectos. Não replicáveis?

Ou seja, chegaremos ao ponto de ter sentimentos em série? Afectos clonáveis? A ser assim, a dimensão do ser-se especial que todos desejamos, ainda que algo inconscientemente, desapareceria.
Um amigo(a) não é sempre alguém especial, único? Aquela pessoa que amamos não é especial, única? É possível amar vários seres de diferentes maneiras. Mas existe um limite ou é possível um amor em série, um afecto massificado, algo que também podemos designar por amor universal?



Claro que o amor universal é possível, mas será sempre uma realidade abstracta. Amar em série não é possível. A amizade em série também não existe. Porque não se produz, cria-se. Não se replica, vive-se. Neste aspecto, o domínio da arte aproxima-se do dos afectos. São investimentos diferentes do investimento industrial ou tecnológico, ainda que possam relacionar-se. Tudo é humano, sem dúvida, mas alguns aspectos são mais humanos do que outros. Na verdade, são mais humanistas.

Poderemos amar infinitamente em cada caso, mas a própria natureza (humana) dos afectos impõe um número finito de seres que nos são especiais. Os nossos limites são sentidos como desvantagens e como fraquezas. Mas é possível que eles constituam a nossa mais radical humanidade. Gosto de ser humana.

Imagens daqui

12 comentários:

alice disse...

este tema, querida amiga, é até assustador. se algum dia os nossos afectos e sentimentos forem meros objectos mecanizáveis, deixa de existir espécie humana. subscrevo a tua ultima afirmação com toda a convicção. um grande beijinho.

Mar Arável disse...

radical humanidade

belo o texto

no dizer

e nas perguntas

RAA disse...

Se chegarmos aí, creio que um clone só será igual por fora. Não terão alma os clones?

Lauro António disse...

Deixemo-nos de filosofices, por muito que elas se possam impor, quando a realidade é tão evidente: gosto de ti "humana".
Todas as clonagens possíveis nunca retirarão aos humanos a sua condição. Para o bem e para o mal, pois a humana condição tem muito de criticável. Mas mesmo assim, ainda bem que és "humana". Beijos não clonáveis. Ou clonáveis, desde que beijos.

MiE disse...

...por isso é que a ciência anda à procura da partícula divina.

Eu também gosto de ser humana, muito embora ás vezes me fizesse jeito não ser...quando a alma dói!!


Um beijo enorme

Fica bem

Arion disse...

Concordo tanto contigo... Beijo!

Art&Tal disse...

pois...

algo dificil de copiar

"tanto fogo tanto frio"

"marhiya de abdel hamid"

"planta rubra"

a este conheço-o muito bem

um gajo que nunca teve televisao

nunca a quis.

post inteligente

é pena as pessoas nao quererem comentar coisas dificeis

é mais facil mandar bjinhos

isabel disse...

por mais que me (nos) seja impossível viver sem afectos, é-me impossível pensar em afectos clonados.

afectos em série?

seria uma lamechice pegada :)

beijos Ana Paula

Luís Galego disse...

Mas que seja infinito enquanto dure...

Que sejas humana como o pareces ser...

mas o amor e infinito conjugarão? eu gostaria que sim, but...

Ana Paula disse...

Alice: concordo contigo, é realmente assustador! Tentaremos que não se torne realidade...
Bjs :)

Mar Arável: dizer e perguntar, duas faces da mesma moeda? :)
Obrigada!

RAA: Julgo que os clones terão uma alma, mas não posso estar certa de que seja a alma que lhes será devida... caso sejamos nós, humanos, a dar-lhes essa alma... Um tema realmente complexo e cheio de incógnitas...
E a questão que coloca: excelente!
Obrigada!

Lauro António: Obrigada pela simpatia e amizade manifestas que retribuo.
Concordo que os humanos podem ter tanto de bom como de mau, mas ainda acredito num balanço positivo.
Tem toda a razão, os afectos impõem-se sempre muito mais do que qualquer tipo de divagação. Mas não posso deixar de sentir também muito afecto pela filosofia e suas especulações inerentes... :)
Gostei da interpelação!

Mie: ... a partícula divina... ai, esse tema também me dá que pensar e atrai-me sobremaneira! :)
Tens razão, por vezes, dava imensa tranquilidade não se ser humana!
Bjs!

Arion: Bem (re)vindo! Fico contente com o teu acordo!
Bj!

Art&Tal: concordo, é realmente difícil de copiar, mas... nunca se sabe! :)
Quanto ao tema e seu interesse... bom... acho que há muitos tipos de interesses e de pessoas. Gosto que o mundo encerre em si diversidade. É saudável não nos interessarmos todos pelo mesmo. E compreensível que alguém possa não ter muito interesse pelo que me interessa a mim. Claro que fico feliz quando há alguém que partilha das minhas inquietações e interesses, mas também preciso de saber que outros se inquietam ou se tranquilizam com outras coisas.
Aprecio que me deixem ficar beijinhos desde que tudo me leve a crer que se trata de uma saudação sincera, a qual eu também costumo utilizar, por vezes, com idêntica sinceridade.
É bom que as pessoas se manifestem com liberdade dentro dos limites da boa convivência social. Penso que, em grande medida, é o que devemos exercitar por aqui na blogosfera.

Mas isto é o que eu penso... :)

Obrigada pelas referências que deixa ficar!

Isabel: tens razão! E deu-me vontade de rir, imaginar um mundo assim, de lamechice pegada! Seria insuportável, verdade? :)
Esperemos que nunca se torne real!
Bjs!

Luís Galego: Sou humana, sou! :)
E creio que todos somos, mesmo que aconteça esquecermos isso. Ou mesmo que não se mostre...

Uma excelente questão é também essa: a de saber se amor e infinito conjugarão. Eu também gostaria que assim fosse. Aliás, entendo que sim. Mas também compreendo e partilho do "but...". Ou seja, um óptimo tema para um outro post, um dia destes...
Obrigada pela sugestão!

Lauro António disse...

Minha Cara Ana, claro que a filosofia é importante. Longe de mim pensar que sejas tão injusta que possas pensar que tinha dito isso, ao falar de filosofices. Não me referia a ti, nem aos teus escritos, era uma brincadeira de fim de noite com a intenção de te mandar um beijo (algo que cai mal na nova inquisição, ao que suponho!). Por isso o tempo veio dar-me razão: há realmente, e falando genericamente (como tu própria o dizes, e calculo que bem!) quem não faça mais do que filosofices sem nenhum sentido de humor, tal o grau de sofisticação dos seu saber e do seu sentir.
Como não aguento essa pseudo retórica negativista e acabrunhante, para quem a vida não passa de um monstruoso sacrifício quotidiano, provação que há que carregar às costas, o melhor é mesmo mandar-te daqui um discreto e pomposo aperto de mão.
Deste que se despede respeitosamente, com uma citação de Descartes:
“Com efeito, não depende de nós fazer com que experimentemos esta sensação em vez daquela, depende apenas daquilo que afecta os nossos sentidos.”, in “Princípios de Filosofia”, “As razões que nos levam a conhecer com segurança que há corpos”. Parte Segunda de “Dos princípios das coisas materiais.”

intruso disse...

Post muito interessante Ana!

...A questão da "série"...
sobre a qual podemos reflectir aplicada aos mais diversos contextos
(ocorreu-me pensar que também na arquitectura a questão há muito se coloca... que ambientes, uniformes ou não, queremos para "cenários" das nossas vidas? que casas, que cidades, que espaços?)
Ocorreu-me também esta música que serve de generico a uma série... (sobre a uniformização esquizofrénica das "cidades" e das suas gentes)
Ocorreu-me ainda o filme que Spielberg terminou por Kubrik (A.I.) no qual o protagonista, um miúdo "andróide" protótipo de série a produzir/comercializar(qual pinóquio... ou personagem a caminho de Oz!) quer "apenas" ser um miúdo de verdade, único e singular...

De facto a diversidade e a irrepetibilidade parecem ser o que nos "salva" e dá sentido à existência... talvez...


bjs
boa semana

p.s.
vou daqui com a cabeça a ferver, post pleno de sentidos e caminhos possíveis...................... :)

(a questão da "série" é mesmo uma das que estou a tentar explorar em desenho/colagem, aplicada ao retrato...
vamos o que resulta,,,,,)