sábado, 12 de fevereiro de 2011

Política sofisticada

Quando olhamos para a política portuguesa, há que reconhecer o elevado nível de sofisticação que alcançou. Isto já não é para qualquer um. A complexidade processual assemelha-se à do sistema judicial. Deve ser por isso que o lugar certo para estar é algures num poiso completamente desligado da realidade e do busílis das questões. Há meandros e labirintos a percorrer, sempre houve. E, agora, entretidos com tais tortuosos caminhos, as metas não importam nada. A verdade é que tudo se joga na estratégia e, suspensos nela, o tempo passa e a gente diverte-se. Eu até andava um bocado entediada... Mas, agora: agora não. Depois de confundida, uma pessoa sente-se de novo viva. Só para rir!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Passeante hipermoderna


Certamente por causa de leituras, dei por mim a pensar inquietantemente em moda, imagine-se... É verdade que gosto de acompanhar as tendências e a criatividade dos/das estilistas que às vezes nos apresentam verdadeiras obras de arte. Sou, muito provavelmente, uma passeante hipermoderna. Isto, de acordo com o conceito de Gilles Lipovetsky. Quer dizer, ando por aí qual flâneur, contemplo, interpreto e sigo este fenómeno-moda. Sou, afinal, filha do meu tempo. Não pós-moderna, mas sim hipermoderna, diria Lipovetsky. O pós-modernismo foi apenas um ponto de ruptura transitório, depois é que veio um novo tempo, e é este, o da hipermodernidade em que estamos instalados.
No entanto, quando o filósofo se refere ao luxo, sinto-me quase ofensiva, quando dou conta do meu gosto por estas coisas supérfluas (?). Por exemplo, sinto-me atraída por este modelo de Yuima Nakazato. Difícil de obter, verdade? Até porque ainda nem sequer está a ser comercializado. Mas não causará danos maiores desejá-lo e imaginar possuí-lo, suponho... Sobretudo quando leio estas palavras:

«Por um lado, o luxo tem, inegavelmente, qualquer coisa de chocante. Mas, por outro lado, quem desejaria verdadeiramente uma sociedade unicamente funcional, sem sonho nem desperdício, sem mitologias prestigiosas, sem formas superlativas? Não será legítimo desejar coisas mais belas? Embora se diga que o luxo é "mau", onde é que será necessário colocar a fasquia? A velha questão: onde começa o supérfluo? Quando começa o inaceitável? E o que é uma "verdadeira" necessidade? Será a arte uma forma de luxo? Se o é, o que fazer? Entra-se, aqui, num tipo de reflexão em que os argumentos não conseguem convencer, em que mais racionalizam reacções emocionais do que exprimem um verdadeiro empenho do saber.»
Marcos de um Itinerário Intelectual - Entrevista com Gilles Lipovetsky conduzida por Sébastian Charles  in Gilles Lipovetsky e Sébastian Charles, Os Tempos Hipermodernos

Inquietantes questões. Mas não interessam verdadeiramente a Lipovetsky, segundo diz, já que, segundo pensa, não é possível dar-lhes respostas transparentes e fundamentadas. Resta então, penso eu, a esperança de que esta espécie de luxo possa tornar-se um luxo democrático e, portanto, acessível, se não a todos, pelo menos à esmagadora maioria. Deve ser por aí... algures no cerne desse pensamento, que já não estou meramente a "passear".



Imagem: Yuima Nakazato

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Leio-te, mundo, escrevo-te? mundo

"O infinito, meu caro, é bem pouca coisa; é uma questão de escrita. O universo só existe no papel." 
Paul Valéry, Monsieur Teste

Sim, o tempo foge, mas eu não fugi com ele, embora também vá passando... Ultimamente, tenho andado absorvida com a sensação de que a vida é uma Grande Leitura - o que me suscita uma crise do tipo síndrome de Bartleby, tanto mais aguda, quanto mais há para ler: aquele livro, aquela opinião, aquele comentário, aquele jornal... mas, também  e cativantes, aquele rosto, aquela expressão, aquele movimento dos astros, esse constante ondear do mar, aquele riso e aquelas lágrimas... na verdade um imenso infinito de escritas, em papel ou não (até porque o papel hoje é outro), e que está aí para ser lido. Tudo se escreve, porque tudo se escreverá, mas nem tudo se lê, e não sei se tudo virá a ser lido. Por mim, não, pelo menos. Mas esta predisposição para ler, decifrar e interpretar tem como correlato incontornável uma espécie de recolhimento e de silêncio que procura escrever, sem conseguir, essa crescente densidade do universo que criamos. O universo é uma imensa e contínua criação, um feito de infinitas galáxias e constelações, onde cada um procura orientar-se (quando quer) a partir de uma grande leitura. Acontece termos que deixar de ler, para escrever. E, depois, ler... Uma vezes planeta, outras satélite.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Do you play?


«Quando corremos riscos, podemos perder. Quando não os corremos, perdemos sempre.»

Joueuse - um interessante filme, sobretudo para quem gosta de cinema francês. Segundo o olhar de Caroline Bottaro, neste seu primeiro filme, o xadrez está no centro de uma vida que se quer apaixonada.




Imagem: Elke Rehder

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

L'amour est un oiseau rebelle

...e que BEM o canta a Diva!

L'amour est un oiseau rebelle
Que nul ne peut apprivoiser,
Et c'est bien en vain qu'on l'appelle,
S'il lui convient de refuser.
Rien n'y fait, menace ou prière,
L'un parle bien, l'autre se tait;
Et c'est l'autre que je préfère
Il n'a rien dit; mais il me plaît.
L'amour! L'amour! L'amour! L'amour!

 L'amour est enfant de Bohême,
Il n'a jamais, jamais connu de loi,
Si tu ne m'aime pas, je t'aime,
Si je t'aime, prend garde à toi!
Si tu ne m'aime pas,
Si tu ne m'aime pas, je t'aime!
Mais, si je t'aime,
Si je t'aime, prend garde à toi!
Si tu ne m'aime pas,
Si tu ne m'aime pas, je t'aime!
Mais, si je t'aime,
Si je t'aime, prend garde à toi!

L'oiseau que tu croyais surprendre
Battit de l'aile et s'envola;
L'amour est loin, tu peux l'attendre;
Tu ne l'attend plus, il est là!
Tout autour de toi vite, vite,
Il vient, s'en va, puis il revient!
Tu crois le tenir, il t'évite;
Tu crois l'éviter, il te tient!
L'amour, l'amour, l'amour, l'amour!

L'amour est enfant de Bohême...





Imagem: ilustração de Alastair (1887-1969)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011


Um dia quebrarei todas as pontes/ Que ligam o meu ser, vivo e total/ À agitação do mundo irreal/ E calma subirei até às fontes./ Irei até às fontes onde mora/ A plenitude, o límpido esplendor/ Que me foi prometido em cada hora/ E na face incompleta do amor. Irei beber a luz e o amanhecer/ Irei beber a voz dessa promessa/ Que às vezes como um voo me atravessa/ E nela cumprirei todo o meu ser.

Sophia de Mello Breyner Andresen


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Ano Novo, como fazê-lo?

Ora, então, inicia-se um novo ano. E a preocupação é com as nossas vidas, mas, sobretudo, acontece que ao cair da tarde, nestas noites invernosas, há um olhar cerrado sobre o meu país. Buscam-se as notícias e, então, perante o desconsolo ardente destas tricas BPN (ai, ai, negócio sobejamente incompreendido pela arraia miúda, da qual faço parte), há tanto a dizer e tanto a perguntar... que já só nos vale, como diz  algures o poeta, uma pastilhazinha de mentol, de preferência fabricada em Portugal (bem!, suponho que ainda as há portuguesas, naqueles papelinhos-prata a lembrar tempos de meninice). E porquê? Pois, para aliviar a garganta que tem que repetir bem alto e praticamente ad eterno: "meus senhores, como é que é? como é que vamos sair desta crise, afinal?". Eu sei que podemos dizer muito e muitas vezes: "vamos sair da crise, vamos sair da crise, vamos...". E, assim, com um qualquer assombroso passe de magia, as coisas resolvem-se (?) - se dissermos muitaaas vezes, o universo, e nele, este mundo, podem vir a conjugar-se a favor dos nossos desejos (?). Mas... e o como, meus senhores, o como? Acaso estão esquecidos dele? Pois eu diria que os tempos estão para poucas magias, e que o como chegar a... é a prioridade nacional, quiça mundial. Como, como, como?! (não, não é o do verbo comer, está bem de ver). Gastem-se energias no processo e reduza-se o deficit real, em vez de aumentar sistematicamente o dito, enquanto deficit de acção real, com a agitação superficial das águas - que é mais para português ver, neste caso.
Como vamos levar este país para a frente? Como vamos gerar riqueza? Por favor, comecem por baixo, porque é de bom senso alicerçar as bases. Ou não? Quem pode dizer, afinal, ainda que preso de simbolismos, que neste país nada acontece? Pois... eu! E o poeta, claro, com o seu grande talento e a sua sensível preocupação.
Mas, quando chegar o dia, cumpre-nos votar. E votar é a não demissão de cada um de nós - hélas!




Regresso ao futuro

Muitas vezes, diz-se: nunca regresses a um lugar onde já foste feliz. Mas como não procurar todos os lugares que nos parecem compatíveis com...