quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Passeante hipermoderna


Certamente por causa de leituras, dei por mim a pensar inquietantemente em moda, imagine-se... É verdade que gosto de acompanhar as tendências e a criatividade dos/das estilistas que às vezes nos apresentam verdadeiras obras de arte. Sou, muito provavelmente, uma passeante hipermoderna. Isto, de acordo com o conceito de Gilles Lipovetsky. Quer dizer, ando por aí qual flâneur, contemplo, interpreto e sigo este fenómeno-moda. Sou, afinal, filha do meu tempo. Não pós-moderna, mas sim hipermoderna, diria Lipovetsky. O pós-modernismo foi apenas um ponto de ruptura transitório, depois é que veio um novo tempo, e é este, o da hipermodernidade em que estamos instalados.
No entanto, quando o filósofo se refere ao luxo, sinto-me quase ofensiva, quando dou conta do meu gosto por estas coisas supérfluas (?). Por exemplo, sinto-me atraída por este modelo de Yuima Nakazato. Difícil de obter, verdade? Até porque ainda nem sequer está a ser comercializado. Mas não causará danos maiores desejá-lo e imaginar possuí-lo, suponho... Sobretudo quando leio estas palavras:

«Por um lado, o luxo tem, inegavelmente, qualquer coisa de chocante. Mas, por outro lado, quem desejaria verdadeiramente uma sociedade unicamente funcional, sem sonho nem desperdício, sem mitologias prestigiosas, sem formas superlativas? Não será legítimo desejar coisas mais belas? Embora se diga que o luxo é "mau", onde é que será necessário colocar a fasquia? A velha questão: onde começa o supérfluo? Quando começa o inaceitável? E o que é uma "verdadeira" necessidade? Será a arte uma forma de luxo? Se o é, o que fazer? Entra-se, aqui, num tipo de reflexão em que os argumentos não conseguem convencer, em que mais racionalizam reacções emocionais do que exprimem um verdadeiro empenho do saber.»
Marcos de um Itinerário Intelectual - Entrevista com Gilles Lipovetsky conduzida por Sébastian Charles  in Gilles Lipovetsky e Sébastian Charles, Os Tempos Hipermodernos

Inquietantes questões. Mas não interessam verdadeiramente a Lipovetsky, segundo diz, já que, segundo pensa, não é possível dar-lhes respostas transparentes e fundamentadas. Resta então, penso eu, a esperança de que esta espécie de luxo possa tornar-se um luxo democrático e, portanto, acessível, se não a todos, pelo menos à esmagadora maioria. Deve ser por aí... algures no cerne desse pensamento, que já não estou meramente a "passear".



Imagem: Yuima Nakazato

4 comentários:

José Marinho disse...

Interessante polemização... lembrei-me, apesar de não a ver, directamente, com este assunto do Filme de Robert Altman, Pret-a-Porter, o qual gostaria de rever. O luxo é, fundamentalmente, algo que irradia luz, uma luz fulgurante; ora, o que é luz fulgurante para cada um , é quase um mistério: não ligo muito a moda, mesmo quase nada. Tanto estou de chapéu, clássico, como com um boné, quase campónio. Necessidade e supérfluo, variam conforme os grupos sociais e os anseios de cada um. O que é o inaceitável? Não sei. É como o escândalo, o que é? O das notícias pseudo-extravagantes da TV? Será possível haver escândalo? Depende da aculturação de cada um e da sua formatação mental. O "luxo democrático" de que falas é uma impossibilidade, ou, pelo menos, uma não necessidade. Pensando bem, moda, relaciona-se sempre com o corpo, encenar o corpo no espaço social. Ora, mais importante do que encená-lo, é mantê-lo o mais saudável possível, o que, no tempo actual, é um desafio incrível. Eu, que não ligava nada a ginásios, acabei por ir ter a um; o corpo começou a dar sinais gritantes do risco da sedentarização. Luxo?.. Uma não necessidade? Proveitosa reflexão a tua. Parabéns. Continuação de uma boa semana.:))

José Ricardo Costa disse...

Ainda assim, desejo-lhe um bom passeio!

JR

Ana Paula Sena disse...

Jota, muito obrigada pelo teu comentário :)

A saúde é um valor determinante na nossa vida, concordo contigo. Mas, o que vejo actualmente é algo mais próximo da saúde sob pressão. Ou seja, a saúde passou a espelhar-se necessariamente no culto do corpo perfeito, o que, sinceramente, não sei bem o que seja... Por outro lado, a imagem que reflectimos faz parte da nossa "representação" no conjunto das interacções sociais, e isso não pode ser ignorado.
Sabes... queiramos ou não, a encenação do corpo também conta, sobretudo em certas profissões :)

Claro, a verdade é que também tenho as minhas vaidades. Mas sei que me perdoas :)

Um abraço.

Ana Paula Sena disse...

Muito obrigada, José Ricardo :)

...farto-me de passear - e gosto!