sexta-feira, 30 de novembro de 2012
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
contos de fadas
| Paula Rego, Getting Ready for the Ball (2001-02) |
«E viveram felizes para sempre», diz o conto de fadas. O conto de fadas, que ainda hoje é o primeiro conselheiro das crianças, porque o foi primeiro da humanidade, sobrevive, secretamente, na narrativa. O primeiro narrador verdadeiro é e continua a ser o narrador do conto de fadas. Quando um conselho era necessário, o conto de fadas dava-o; quando a necessidade era urgente, o conto fornecia a ajuda mais rápida. Era a urgência provocada pelo mito. O conto de fadas revela-nos as primeiras medidas tomadas pela humanidade para se libertar do pesadelo mítico. (...)
Há muitos séculos, o conto de fadas ensinou à humanidade, e continua a ensinar hoje às crianças, que o mais aconselhável é enfrentar as forças do mundo mítico com astúcia e atrevimento. (...) O feitiço libertador do conto de fadas não põe em cena a natureza como uma entidade mítica, mas antes indica a sua cumplicidade com o homem livre. O adulto só percebe essa cumplicidade ocasionalmente, isto é, quando está feliz; mas a criança percebe-a pela primeira vez no conto de fadas, o que provoca nela uma sensação de felicidade.
Walter Benjamin, O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
fruticultura
subo
na corrente dos dias
e depois das coisas amargas
ponho de lado contente
um pequeno cacho de uvas
das que prometem mel
um dia
a fruta secreta será consumida
e na curva abrupta dos dias
eu e ela devoradas
mais cedo ou mais tarde
rodopio na vertigem
do hélio incandescente
tudo tem a mesma forma
circulante mergulhante
rumo a ti
a fruta e eu somos tempo
quanto a ti: não sei
AP
na corrente dos dias
e depois das coisas amargas
ponho de lado contente
um pequeno cacho de uvas
das que prometem mel
um dia
a fruta secreta será consumida
e na curva abrupta dos dias
eu e ela devoradas
mais cedo ou mais tarde
rodopio na vertigem
do hélio incandescente
tudo tem a mesma forma
circulante mergulhante
rumo a ti
a fruta e eu somos tempo
quanto a ti: não sei
AP
domingo, 18 de novembro de 2012
sábado, 17 de novembro de 2012
por Amaya Egaña (e tantos outros)
Impressionantes, as imagens que nos são dadas a observar aqui n' Os trabalhos e os dias. Tanto nos devem dar que pensar - enquanto representação do vazio mais cruel - que tomo a liberdade de as assinalar assim. Há fantasmas de betão a pairar em lugares ajardinados...
exercícios
me voy a reflexionar um pouco dizia eu enquanto os meus brinquedos de outrora estavam todos muito bem acondicionados nuns pacotes de vida muito catalogados pois fui sempre apreciadora de ordem. eis senão quando me deu para abrir um deles e logo ali destrambelhar qualquer ilusão de arquivo definitivo. por entre bonequinhos coloridos e fofinhos estava uma fotografia gasta. mas ao olhar para ela o presente iluminou-se pois é certo que alguma coisa de trás costuma vir para a frente e talvez seja esse tão somente o mistério do que somos. eu estou muito sentadinha direitinha ao modo de que já não tinha memória. os outros circundam o lugar que ocupo entretidos enquanto eu mordo o lábio. sei hoje que então esperava alguma coisa. provável fosse o agora algo invisível na imediatez que o traduz.
e as minhas mãos vasculharam mais descobrindo vestidinhos de bonecas e uma velha bóina que nunca quis usar. questões de teimosia diziam.
os brinquedos de 2012 ou 13 são de facto mais frios cinzentos às vezes negros polidos e dizem-se tecnológicos. em termos de atmosfera nada de pernas que se encostam à lareira ou de ais que soam por via de desgostos camilianos. ainda que a ironia aconteça ser a mesma. mas as brincadeiras do depois são como as outras do antes posto que se constrói e destrói sempre qualquer coisa. tome-se como exemplo o brincar na idade da razão que é esse lugar estranho da reflexão apurada. diria ainda mais já que estou a escrever coisas. brincar na idade da razão é esse prazer estranho de fazer das emoções uma espécie de instrumentos de acção. a gente como que se esconde atrás da emoção e zás agarramo-la antes que ela nos agarre a nós. de muito sempre serviu brincar às escondidas e à apanhada na meninice - conclui-se. com a emoção toda presa na mão só falta agora colocá-la no lugar certo. usá-la enfim. torná-la produtiva dirá a nossa civilização ocidental sempre apaixonada pelas finanças da emoção. mas a brincadeira genuína existe? existe pois. e tomam-na sempre por perigosa como potencial não dado ao uso. até porque é um desperdício deixar as emoções à solta...
sempre brinquei eu muito menina de ontem e menina de agora. é por isso que - pondero - brinco com a vírgula eliminando-a e faço das palavras um qualquer coisa que pode ser tudo e nada ao mesmo tempo. os meus melhores brinquedos são as palavras ao ponto de se tornarem coisas sérias. brincadeiras sérias há que dizê-lo pois a vida mostra sempre autenticidade no mais sofisticado artifício.
e brincando era para falar do instante da libertação que envolve toda a desconstrução. o instante em que vi os pássaros riscar o céu sufocante imenso azul no ar frio da manhã sombras negras contrastando velozes com o mundo cá de baixo até fazerem de cada lugar uma cápsula protectora aquela onde podemos respirar.
brincando gostava de te respirar a sério. me voy a reflexionar qualquer coisa de ti enquanto guardo de novo os brinquedos de outrora e componho outra vez aqueles pacotinhos de arquivo morto. até chegar a hora de os reabrir à luz deste tempo amanhã que sempre se avizinha de nós.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Dia Mundial da Filosofia
![]() |
| Louis Daguerre, Boulevard du Temple, Paris (1838) |
Que é que me fascina, que me deixa encantado nas fotografias que amo? Creio que se trata simplesmente do seguinte: a fotografia é para mim, de certo modo, o dia do Juízo Universal, representa o mundo tal como aparece no último dia, no Dia da Cólera. Não é, certamente, uma questão de tema, não quero dizer que as fotografias que amo são aquelas que representam qualquer coisa de grave, de sério ou, até, de trágico. Não, a fotografia pode mostrar um rosto, um objecto, um acontecimento qualquer. (...)
Conhecem certamente o célebre daguerreótipo do Boulevard du Temple que é considerado a primeira fotografia onde aparece uma figura humana. A chapa de prata representa o boulevard du Temple fotografado por Daguerre da janela do seu estúdio, numa hora de ponta. O boulevard devia estar apinhado de gente e de viaturas e, todavia, dado que os aparelhos da época exigiam um tempo de exposição demasiado longo, de toda aquela massa em movimento não se vê absolutamente nada. Nada, para além de uma pequena figura negra no rodapé, em baixo, à esquerda da fotografia. Trata-se de um homem que estava a engraxar os sapatos e que, por isso, permaneceu imóvel durante bastante tempo, com a perna ligeiramente soerguida para apoiar o pé no banquinho do engraxador.
Não conseguiria fantasiar uma imagem mais adequada do Juízo Universal. A multidão dos humanos - a humanidade inteira, aliás - está presente mas não se vê, porque o juízo tem a ver com uma única pessoa, uma única vida: aquela exactamente, e não outra. E de que modo foi aquela vida apanhada, captada, imortalizada pelo anjo do Último Dia - que é também o anjo da fotografia? No gesto mais banal e mais vulgar, no gesto de engraxar os sapatos. No instante supremo, o homem, qualquer homem, fica registado para sempre, no seu gesto mais ínfimo e quotidiano. E, todavia, graças à objectiva fotográfica, aquele gesto fica doravante carregado com o peso de toda uma vida, aquela posição irrelevante, talvez desajeitada, resume e contrai em si o sentido de toda uma existência.
Giorgio Agamben, "O Dia do Juízo Final" in Profanações
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