sábado, 17 de novembro de 2012

exercícios

me voy a reflexionar um pouco dizia eu enquanto os meus brinquedos de outrora estavam todos muito bem acondicionados nuns pacotes de vida muito catalogados pois fui sempre apreciadora de ordem. eis senão quando me deu para abrir um deles e logo ali destrambelhar qualquer ilusão de arquivo definitivo. por entre bonequinhos coloridos e fofinhos estava uma fotografia gasta. mas ao olhar para ela o presente iluminou-se pois é certo que alguma coisa de trás costuma vir para a frente e talvez seja esse tão somente o mistério do que somos. eu estou muito sentadinha direitinha ao modo de que já não tinha memória. os outros circundam o lugar que ocupo entretidos enquanto eu mordo o lábio. sei hoje que então esperava alguma coisa. provável fosse o agora algo invisível na imediatez que o traduz. 
e as minhas mãos vasculharam mais descobrindo vestidinhos de bonecas e uma velha bóina que nunca quis usar. questões de teimosia diziam. 
os brinquedos de 2012 ou 13 são de facto mais frios cinzentos às vezes negros polidos e dizem-se tecnológicos. em termos de atmosfera nada de pernas que se encostam à lareira ou de ais que soam por via de desgostos camilianos. ainda que a ironia aconteça ser a mesma. mas as brincadeiras do depois são como as outras do antes posto que se constrói e destrói sempre qualquer coisa. tome-se como exemplo o brincar na idade da razão que é esse lugar estranho da reflexão apurada. diria ainda mais já que estou a escrever coisas. brincar na idade da razão é esse prazer estranho de fazer das emoções uma espécie de instrumentos de acção. a gente como que se esconde atrás da emoção e zás agarramo-la antes que ela nos agarre a nós. de muito sempre serviu brincar às escondidas e à apanhada na meninice - conclui-se. com a emoção toda presa na mão só falta agora colocá-la no lugar certo. usá-la enfim. torná-la produtiva dirá a nossa civilização ocidental sempre apaixonada pelas finanças da emoção. mas a brincadeira genuína existe? existe pois. e tomam-na sempre por perigosa como potencial não dado ao uso. até porque é um desperdício deixar as emoções à solta...
sempre brinquei eu muito menina de ontem e menina de agora. é por isso que - pondero - brinco com a vírgula eliminando-a e faço das palavras um qualquer coisa que pode ser tudo e nada ao mesmo tempo. os meus melhores brinquedos são as palavras ao ponto de se tornarem coisas sérias. brincadeiras sérias há que dizê-lo pois a vida mostra sempre autenticidade no mais sofisticado artifício.
e brincando era para falar do instante da libertação que envolve toda a desconstrução. o instante em que vi os pássaros riscar o céu sufocante imenso azul no ar frio da manhã sombras negras contrastando velozes com o mundo cá de baixo até fazerem de cada lugar uma cápsula protectora aquela onde podemos respirar.
brincando gostava de te respirar a sério. me voy a reflexionar qualquer coisa de ti enquanto guardo de novo os brinquedos de outrora e componho outra vez aqueles pacotinhos de arquivo morto. até chegar a hora de os reabrir à luz deste tempo amanhã que sempre se avizinha de nós.

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