quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Dia Mundial da Filosofia

Louis Daguerre, Boulevard du Temple, Paris (1838)

Que é que me fascina, que me deixa encantado nas fotografias que amo? Creio que se trata simplesmente do seguinte: a fotografia é para mim, de certo modo, o dia do Juízo Universal, representa o mundo tal como aparece no último dia, no Dia da Cólera. Não é, certamente, uma questão de tema, não quero dizer que as fotografias que amo são aquelas que representam qualquer coisa de grave, de sério ou, até, de trágico. Não, a fotografia pode mostrar um rosto, um objecto, um acontecimento qualquer. (...)
Conhecem certamente o célebre daguerreótipo do Boulevard du Temple que é considerado a primeira fotografia onde aparece uma figura humana. A chapa de prata representa o boulevard du Temple fotografado por Daguerre da janela do seu estúdio, numa hora de ponta. O boulevard devia estar apinhado de gente e de viaturas e, todavia, dado que os aparelhos da época exigiam um tempo de exposição demasiado longo, de toda aquela massa em movimento não se vê absolutamente nada. Nada, para além de uma pequena figura negra no rodapé, em baixo, à esquerda da fotografia. Trata-se de um homem que estava a engraxar os sapatos e que, por isso, permaneceu imóvel durante bastante tempo, com a perna ligeiramente soerguida para apoiar o pé no banquinho do engraxador. 
Não conseguiria fantasiar uma imagem mais adequada do Juízo Universal. A multidão dos humanos - a humanidade inteira, aliás - está presente mas não se vê, porque o juízo tem a ver com uma única pessoa, uma única vida: aquela exactamente, e não outra. E de que modo foi aquela vida apanhada, captada, imortalizada pelo anjo do Último Dia - que é também o anjo da fotografia? No gesto mais banal e mais vulgar, no gesto de engraxar os sapatos. No instante supremo, o homem, qualquer homem, fica registado para sempre, no seu gesto mais ínfimo e quotidiano. E, todavia, graças à objectiva fotográfica, aquele gesto fica doravante carregado com o peso de toda uma vida, aquela posição irrelevante, talvez desajeitada, resume e contrai em si o sentido de toda uma existência.
Giorgio Agamben, "O Dia do Juízo Final" in Profanações
 

1 comentário:

Mar Arável disse...

Conheço pedras

com vida por dentro