segunda-feira, 26 de novembro de 2012

contos de fadas

Paula Rego, Getting Ready for the Ball (2001-02)

«E viveram felizes para sempre», diz o conto de fadas. O conto de fadas, que ainda hoje é o primeiro conselheiro das crianças, porque o foi primeiro da humanidade, sobrevive, secretamente, na narrativa. O primeiro narrador verdadeiro é e continua a ser o narrador do conto de fadas. Quando um conselho era necessário, o conto de fadas dava-o; quando a necessidade era urgente, o conto fornecia a ajuda mais rápida. Era a urgência provocada pelo mito. O conto de fadas revela-nos as primeiras medidas tomadas pela humanidade para se libertar do pesadelo mítico.  (...)
Há muitos séculos, o conto de fadas ensinou à humanidade, e continua a ensinar hoje às crianças, que o mais aconselhável é enfrentar as forças do mundo mítico com astúcia e atrevimento. (...) O feitiço libertador do conto de fadas não põe em cena a natureza como uma entidade mítica, mas antes indica a sua cumplicidade com o homem livre. O adulto só percebe essa cumplicidade ocasionalmente, isto é, quando está feliz; mas a criança percebe-a pela primeira vez no conto de fadas, o que provoca nela uma sensação de felicidade.
Walter Benjamin, O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov

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