«O estilo de Eça de Queirós não mostra somente dispor de todas as cores; parece também usar de todos os ingredientes. Há trechos dele que diríamos feitos com sangue, com lágrimas, com pérolas líquidas, com enxurro, com ouro, com lama e com pó de brilhantes. É o processo humorístico. (...)
A primeira condição do humorismo é a grande qualidade de escritor que tem Eça de Queirós: a despreocupação absoluta do aplauso, o mais completo desprezo da galeria. Quem governa é a arte. A galeria aplaude ou reprova, é o seu direito... Mas não manda nada.»
Surpreende-me sempre um mundo precipitado. Não que todos os acontecimentos beneficiem necessariamente de uma ponderação. A precipitação também intervém na dinâmica do mundo. Por vezes, com bons resultados. Muito mais importante me parece ser a prudência, sobretudo se se trata dos assuntos humanos. A precipitação tem muitas vezes na base uma grande dose de convicção. O problema da convicção no seu estado puro é a sua transmutação em dogma. Este, escusado será negá-lo, exerce grande atracção. Também eu tenho os meus dogmas de estimação. Mas, se há coisa que a filosofia ensina é a perturbá-los.
Dou um exemplo na minha área: Schopenhauer é um filósofo muito interessante. Mas combateu Hegel. Acresce que este também é deveras interessante. Terei que optar entre um e outro? Possivelmente. Desde que a minha opção não me obrigue ao desconhecimento de nenhum deles. Desde que a minha escolha não eclipse os contributos relevantes dos dois. É, no mínimo, uma questão de honestidade intelectual - o que é um princípio moral; no limite, pode ser uma precaução face à perigosidade da sedimentação dogmática - o que também não deixará de ser uma orientação relativa ao que temos por conduta adequada, se assim o entendermos.
Parece-me quase certo que o mundo está empobrecido do ponto de vista moral. Os moralistas, dizem, parecem pessoas aborrecidas. Eu diria que depende da moral. E quanto a essa, somos todos nós que a colocamos no mundo.
Como afirmei, Schopenhauer é um filósofo muito interessante, nomeadamente do ponto de vista moralizante. Digamos que é interessante o suficiente para introduzir perturbação no dogma anti-moral.
Transcrevo:
«Não há nada que abale tanto as profundezas do nosso sentimento moral como a crueldade. Qualquer outra falta, podemos perdoá-la; a crueldade nunca. A razão disso é que a crueldade é precisamente o contrário da piedade. Ao tomarmos conhecimento de qualquer acto de crueldade (...) somos de imediato tomados pelo horror; bradamos: "Como podem suceder semelhantes coisas?" E qual é o sentido desta pergunta? (...) O verdadeiro sentido, ei-lo, sem margem para dúvidas: Como se pode ser tão desapiedado? É pois quando uma acção se afasta em extremo da piedade, que ela carrega como um estigma o carácter de uma coisa moralmente condenável, desprezível. A piedade é por excelência o âmbito da moralidade.»
in Arthur Schopenhauer, O Fundamento da Moral
(mas não, isto não é uma escolha entre Schopenhauer e Hegel; se tivesse que escolher, escolheria Kant, o que complica ainda mais as coisas, mas o caso não é para agora).
Imagem: Madeline von Foerster, Self-portrait - 2005
[Há motivos de sobra para o silêncio. Cansei-me de ouvir os grandes críticos, analistas, comentadores e politólogos. Mas não me canso de escutar a natureza. Ainda que consternada.]
Dou a palavra a Slavoj Zizek. Pode não suscitar o acordo, mas é inegável a "frescura" das ideias.
«Bem desejaria poder dizer a si mesma que estava enganada quanto aos seus escrúpulos relativamente ao passado e aos seus receios relativamente ao futuro. A razão e o seu dever mostravam-lhe, noutros momentos, coisas totalmente opostas, que a levavam rapidamente à resolução de não voltar a casar e de nunca mais ver o Senhor de Nemours. Mas era uma resolução bem violenta de estabelecer num coração tão enternecido como o seu e ainda de novo abandonado aos encantos do amor. Enfim, para recuperar alguma calma, pensou que não era ainda necessário violentar-se tomando resoluções; as conveniências davam-lhe um tempo considerável para se decidir. Mas resolveu continuar firme quanto a manter qualquer relação com o Senhor de Nemours. O Vidama foi visitá-la e defendeu a causa do príncipe com todo o espírito e aplicação imagináveis, mas não pôde fazê-la mudar de conduta, nem em relação à que havia imposto ao Senhor de Nemours. Disse-lhe que a sua intenção era permanecer na situação em que se encontrava; que sabia que esse desígnio era difícil de executar, mas que esperava ter força para tanto. (...)»
in A Princesa de Clèves, Madame de Lafayette
«Acabo de ter esta noite a prova de que a música, quando perfeita, põe o coração exactamente no mesmo estado em que se encontra quando goza a presença de quem ama; isto é, dá aparentemente a mais intensa felicidade que existe neste mundo. Se assim acontecesse com todos os homens, nada no mundo predisporia mais para o amor. (...) O hábito da música e dos sonhos que ela provoca predispõe para o amor. (...)»
A ordem é um aspecto importante da realidade, ainda que saibamos ser o caos igualmente enriquecedor. Uma exigência extrema em relação a aspectos organizativos pode ser contraproducente, e isto nos mais variados contextos. O seu oposto - ou seja, o caos, que aqui interpreto como desorganização - pode resultar numa situação igualmente negativa (digamos, não produtiva). Postas estas considerações preambulares, registo a leitura de um livro magnífico, que até à data me tinha escapado, quase imperdoavelmente para mim-própria: "A Confissão de Lúcio", de Mário de Sá-Carneiro. Ora, isto pode não estar relacionado com..., mas, na verdade, há quem sinta, como eu, que tudo está ligado a tudo. Nesse pequeno-grande livro, o autor refere-se recorrentemente a sentimentos de repugnância - e acrescento eu, de uma quase-náusea. As repugnâncias podem resultar de inúmeros aspectos da existência, podem até ser psicanaliticamente interpretadas e explicadas. Pois podem, mas não pretendo aqui aprofundar o assunto. É apenas algo muito pessoal e simples o que registo: há na vida real motivos para consideráveis sensações de náusea. Assim acontece nesta actual situação do nosso país, a qual não parece nada saudável. No entanto, há uma ressalva importante quanto a isto: eu não sei se o país real é aquele que nos chega aos olhos e aos ouvidos. Mas, se quanto ao país real tenho algumas dúvidas, quanto à vida real tenho algumas certezas. Sei seguramente, por exemplo, que a vida real envolve trabalho e empenhamento. Sei que a vida real está longe de ser fácil, que decorre entre esforços e desgastes. Obviamente refiro-me ao comum dos mortais, grupo ao qual pertenço com bastante orgulho. E o que pensa o comum dos mortais destas notícias estrondosas e escandalosas, preocupantes e inquietantes do nosso país (ir)real? O que pensa de uma vida constantemente contaminada e desinquietada por ambientes de suspeição? Pois o que ele/ela pensa é que após cumprir o seu horário de trabalho, de Trabalho, repito, nesse momento mereceria algo melhor sobre o que se passa cá fora. Algo efectivamente mais digno e mais sério acerca do país onde vive. Algo que reflectisse a verdadeira realidade que conhece. Sobretudo isso. Porque se a verdade é sempre complexa, se se cria e se fabrica, antes dela, antes dessa grande Verdade, estão algumas outras pequenas verdades irredutíveis. O paradoxo da verdade é este mesmo: falar das pequenas verdades pode ser muito mais complicado. A outra face da lua, aquela que liricamente é tão tratada como sedutora porque oculta, essa é também aqui a desorganização mental a que muitos ficam sujeitos se quiserem estar in com o que acontece. Este tipo de desorganização, ou de caos, é algo que não se vê, mas que existe. Nem sei mesmo se as quebras na produtividade e no desenvolvimento não passarão grandemente por este caos ao nível das sinapses a que os nossos cérebros estão expostos. Redes neuronais que fervem para descobrir a solução de mistérios criados para nos entreter; problemáticas virtuais que mais parecem puzzles concebidos com as peças erradas, e que jamais criarão uma imagem coerente, enquanto os reais problemas ficam à espera... Olhando melhor, tais projecções vêem-se em toda a sua plenitude: magnificentes construções formais sem conteúdo. O mundo é um lugar vazio. Efectivamente, o comum cidadão merece mais do que estas histórias de enredos duvidosos. Do que a suspeição a envenenar e a lei ser de brincar. Do que o alimento de apetites vorazes e espectaculares que se não tiverem disto, não têm mais nada, provavelmente. Daquilo que as guerrinhas de bastidores vão congeminando e expurgando cá para fora sem critério. Sem dúvida, é bom que algo eventualmente oculto conheça a luz do dia. Mas o oculto mais profundo continua como tal. Pois aquilo que seria consideravelmente consequente desocultar, a realidade social do nosso país, essa continua por analisar e esmiuçar em larguíssima medida. Sim, mas isto são aspirações algo naïves. Portanto... Portanto, espera-se, no mínimo!, que alguém ponha ordem nisto.
De vez em quando, aparecem umas notícias interessantes, tanto mais na medida em que se referem ao que se faz de inovador no nosso país.
Por trás de tudo isto, está uma tecnologia designada por Realidade Aumentada (RA). Esta, enquanto conceito, envolve toda uma reflexão, parece-me. Para lá dos aspectos práticos da sua utilização, a nossa vivência da realidade tende a transformações profundas. Para já, poderemos sentir os estímulos com muito mais impacto - todo o nosso mundo tende a ser "aumentado". O futuro dirá dos restantes caminhos... A RA mostra, desde já, inúmeras aplicações possíveis e interessantes. Por enquanto, ainda parece algo rudimentar e uma espécie de brincadeira, pelo menos em certos casos. Mas, em breve, as consequências reais serão muito mais sérias. Estamos, sem dúvida, no século XXI.
Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim. Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga. Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto. No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora. Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se. Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histórico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena - cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas. Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no Livro do Desassossego. Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto. As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual. Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes. De que cor será sentir? Milhares de abraços do seu, sempre muito seu
Fernando Pessôa
P.S. - Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características... Você acha-me razão, não é verdade?
«Ele tem dois antagonistas; o primeiro empurra-o por detrás, a partir da sua origem. O segundo bloqueia a estrada à sua frente. Ele trava batalha com ambos. Na realidade, o primeiro apoia-o na sua luta com o segundo, porque quer empurrá-lo para a frente, e do mesmo modo o segundo apoia-o na sua luta contra o primeiro, dado que o empurra para trás. Mas só teoricamente é que é assim. Porque não são só os dois antagonistas que estão lá, mas também ele próprio, e quem sabe realmente quais são as suas intenções? O seu sonho, todavia, é que porventura num momento de distracção - e isto, devemos admiti-lo, exigiria uma noite mais negra do que qualquer noite que já tenha havido - ele saltará para fora da linha de batalha e será promovido, em consequência da sua experiência de luta, à posição de império sobre os seus antagonistas na sua luta de um contra o outro.»
Franz Kafka in Hannah Arendt, A Vida do Espírito I - Pensar
De acordo com a interpretação de Hannah Arendt, esta parábola de Kafka (parte de uma colecção de aforismos intitulada «ELE») descreve a sensação de tempo do eu pensante, e cito: "(...) Ela analisa poeticamente o nosso «estado interior» em relação ao tempo (...)". Simplificando muito a interessante questão colocada, o ELE (o eu pensante) é aquele que escapa ao fluxo contínuo do tempo. Enclausurado entre passado e futuro, cabe-lhe a ele introduzir neste continuum uma espécie de ruptura, um Agora. Enquanto eu pensante, ELE consegue visualizar-se (e consciencializar-se) como presente, confrontado com o passado e com o futuro. Na minha interpretação, Hannah Arendt faz, desta forma tão rica e tão bela, o elogio do pensar. Ainda que, no desenvolvimento das suas ideias, o pensar não deva ser "um escapar" ao espaço-tempo, mas, em última análise, uma inserção no tempo e no espaço pelo agir (e não será pensar uma forma de agir?). Assim se faz o presente, pelo qual temos a possibilidade de participar na construção do mundo. Sabendo que a nossa acção será imediatamente absorvida e incorporada na temporalidade: dando a mão ao passado (atrás de nós, segundo a metáfora espacial), e estendendo a mão ao futuro (o que se aproxima de nós pela frente, de acordo com a mesma metáfora), situados neste presente absolutamente efémero (aqui, no meio dos outros dois pontos de orientação - instantaneamente transformado em passado, e deixando de ser o futuro que permanentemente vem ter connosco).
Sem dúvida, uma cativante forma de perspectivar a nossa responsabilidade.
Os quadros de Francis Bacon são inegavelmente espantosos e geniais. Vejo neles movimento e metamorfose. Mas, é-me sempre difícil olhá-los. Suponho que deva dizer, neste caso, "aindabem". De algum modo (ou modos), torna-se explícito o horror que há no mundo, o horror que há no humano, sem que a sua revelação se torne limitação. Pressinto como que um potencial de horror nos seus traços, para lá do que é imaginável por mim, no instante em que os observo e vejo... Outras imagens há, nas quais o potencial de horror se auto-limita pela sua crua exposição, concretizada nos mais ínfimos detalhes. Ou seja, de certa forma, o que era apenas uma hipótese algo indefinida, imaginada e pressentida, numa pintura de Bacon, torna-se visão gritante da realidade. Com a sensação de que para lá do que se vê então, não pode existir mais nada (?). Perante ela, a dor indescritível de ver, e a consciência de que o choque talvez seja necessário à acção.
As mãos de vidro fino no ar translúcido indolente e raro prendem o tempo nas palavras ditas e nisso movem-se subtis pois quando dizem escrevem e é só no papel que são gentis
Havia um imperador no oriente e um belo livro de gravuras ali na mesa à esquerda de onde estás um belo palacete tu herdaste aqui no teu pequeno ocidente o espaço tempo do universo inteiro na curva abrupta e curta do teu reino
[poderes nas mãos os homens têm e só nas horas vagas são mortais]
As mãos que são de veias latejantes no ar opaco denso e impaciente que comem tempo indo febris à boca dançam colhendo gestos insensatos que tiram da gaveta aqui ao centro bebem-te a vida e o licor de flores ali no teu armário da direita e tu imperador nas mãos a chave
[licores de flores que travo amargo têm! mas só nas horas vagas são fatais]
Havia um homem livre num mosteiro que aí a vida toda contemplava no topo da montanha o céu brilhava e o uno fragmentado se avistava no livro raro as suas mãos escreviam e todos em uníssono nele bebiam
[têm os livros raros a alma posta em sossego e só nas horas vagas são carnais]
Ana Paula S.B.
Imagem: Study of a Woman's Hands, Leonardo da Vinci (Drawing - Royal Collection, Windsor)