terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Uma parábola de Kafka



«Ele tem dois antagonistas; o primeiro empurra-o por detrás, a partir da sua origem. O segundo bloqueia a estrada à sua frente. Ele trava batalha com ambos. Na realidade, o primeiro apoia-o na sua luta com o segundo, porque quer empurrá-lo para a frente, e do mesmo modo o segundo apoia-o na sua luta contra o primeiro, dado que o empurra para trás. Mas só teoricamente é que é assim. Porque não são só os dois antagonistas que estão lá, mas também ele próprio, e quem sabe realmente quais são as suas intenções? O seu sonho, todavia, é que porventura num momento de distracção - e isto, devemos admiti-lo, exigiria uma noite mais negra do que qualquer noite que já tenha havido - ele saltará para fora da linha de batalha e será promovido, em consequência da sua experiência de luta, à posição de império sobre os seus antagonistas na sua luta de um contra o outro.»
Franz Kafka in Hannah Arendt, A Vida do Espírito I - Pensar

De acordo com a interpretação de Hannah Arendt, esta parábola de Kafka (parte de uma colecção de aforismos intitulada «ELE») descreve a sensação de tempo do eu pensante, e cito: "(...) Ela analisa poeticamente o nosso «estado interior» em relação ao tempo (...)".
Simplificando muito a interessante questão colocada, o ELE (o eu pensante) é aquele que escapa ao fluxo contínuo do tempo. Enclausurado entre passado e futuro, cabe-lhe a ele introduzir neste continuum uma espécie de ruptura, um Agora. Enquanto eu pensante, ELE consegue visualizar-se (e consciencializar-se) como presente, confrontado com o passado e com o futuro.
Na minha interpretação, Hannah Arendt faz, desta forma tão rica e tão bela, o elogio do pensar. Ainda que, no desenvolvimento das suas ideias, o pensar não deva ser "um escapar" ao espaço-tempo, mas, em última análise, uma inserção no tempo e no espaço pelo agir (e não será pensar uma forma de agir?). Assim se faz o presente, pelo qual temos a possibilidade de participar na construção do mundo. Sabendo que a nossa acção será imediatamente absorvida e incorporada na temporalidade: dando a mão ao passado (atrás de nós, segundo a metáfora espacial), e estendendo a mão ao futuro (o que se aproxima de nós pela frente, de acordo com a mesma metáfora), situados neste presente absolutamente efémero (aqui, no meio dos outros dois pontos de orientação - instantaneamente transformado em passado, e deixando de ser o futuro que permanentemente vem ter connosco).

Sem dúvida, uma cativante forma de perspectivar a nossa responsabilidade.



Imagem: pesquisa do Google

15 comentários:

T.Mike (Miguel Gomes Coelho) disse...

Ana Paula,
É tão bom vir a este blogue...!
Um abraço.

A.C.Valera disse...

Este seu post, Ana, aborda uma das questões mais interessantes para quem "estuda o passado". E coloco isto entre aspas porque há hoje quem afirme, sem concessões, uma espécie de presentismo que pode ser resumido numa afirmação do género: falar do passado não é mais do que falar de nós próprios. Ou seja, que na nossa extrema contingência, todo o olhar sobre o passado redunda numa absoluta presentificação do acontecido, ao ponto de esse olhar nos representar mais a nós no presente que ao que passou. Declara-se a absoluta inacessibilidade ao passado.
Nessa bela parábola, esse saltar para fora e a consequente promoção a império sobre os restantes, parece coincidir precisamente com essa visão "ditactorial" (hiper relativista)do presente sobre o passado.
Mas, da mesma forma, na parábola, o facto de a condição para a essa realização (a noite mais negra ... )não ter ainda ocorrido, mantendo o salto na condição de sonho, afirma precisamente a impossibilidade de um presentismo absolutizado na sua relação com o passado.
Mantemo-nos na "estrada", empurrados por trás,e agradecemos essa condição, porque é ela que estabelece a relação e viabiliza a nossa veleidade de falar sobre o que passou (e que está para lá do espelho).
Muito obrigado por este belo texto.

Violeta disse...

Ela analisa poeticamente o nosso «estado interior» em relação ao tempo (...)".
e analisa bem, porque me sinto assim muitas vezes...Entre o pensar, decidir, agir...
Pela Parábola!
bjs e muita serenidade pela vida fora, Ana Paula.

vbm disse...

Como diria Peirce, «Uma vaguidade não determinada a permanecer vaga começa de imediato a determinar-se a si mesma.» :)

O Puma disse...

Vagueando mentindo nos próprios espelhos aos próprios espelhos

quem somos nós que tanto falamos
de nós e dos outros
à procura à pergunta

romeiros

Mar Arável disse...

Talvez

intemporais

nas metáforas

no traço solitário

que riscamos no chão

para nos perdermos

Bjs

tagskie disse...

hi.. just dropping by here... have a nice day! http://kantahanan.blogspot.com/

Maria Ribeiro disse...

ANA PAULA SENA: não podia estar mais de acordo com o teu valioso post! Na realidade , de que vale olhar para trás ou esperar pelo futuro, se não se souber entender e viver o presente? É que é no PRESENTE que se pode ir realizando o FUTURO, que acontece a cada momento que SOMOS... BEIJO de
lusibero

eduarda disse...

Olá Ana Paula
Mais um belíssimo post
Fez lembrar-me um poema de que gosto muito, de Ricardo Reis

O Passado é o Presente na Lembrança

"Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada,
e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes. "

Um abraço
Eduarda

Spark disse...

Bem, excelente post. ;)

partilha de silêncios disse...

Mais um belíssimo post !!
Só o eu pansante, pode perceber que o passado já foi, o futuro ainda não aconteceu, de facto só nos resta o presente, é bom saber lidar com ele, observar e viver a vida no momento presente, pois é só aí que ela acontece, tudo o resto são memórias ou projecções. Viver o presente, é viver a vida com grande sabedoria.

beijinhos

anamar disse...

Ana Paula, passei para te reler...
Esta metáfora assenta que nem uma luva aos meus dias...como o tempo, cinzentos e tristes...
Até um destes dias..
Beijinhos e bom fim de semana...

Quem sabe se nos cruzamos em "La musica", no domingo..
:)))

daniel disse...

Kafka, um génio! Ele, mais do que ninguém, soube representar a sociedade moderna...

Era ele quem dizia:"Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós." [ Franz Kafka

Manuela Freitas disse...

Ana Paula,
Grande desafio à reflexão...
Eu penso que só tenho passado, porque o presente velozmente foge...(quando escrevi Ana Paula já passou...)e o futuro não sei se tenho!...Tudo é muito complexo!?...
Recorro a uma poesia do Ricardo Reis

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

A vida real parece ser só um momento...

Ana Paula ajude-me nesta perplexidade!...
Beijinhos,
Manuela

Mónica disse...

yin e yang