quinta-feira, 12 de julho de 2012
A RONDA DOS DIAS
Já há muito tempo visito e leio, sempre com prazer renovado, A Ronda dos Dias. É escrito pela Ivone Costa. Acreditem no que vos digo, pois que podem confirmá-lo: tudo o que é escrito pela Ivone, é-o com autêntico primor - poesia ou prosa, tudo se lê desejando mais... Chamo para aqui um dos seus textos, um escolhido entre muitos da minha especial predilecção:
segunda-feira, 9 de julho de 2012
sábado, 7 de julho de 2012
para abrir o espaço
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| Um estudo das nuvens no "Campo Santo, Venice" de J.M.W. Turner - John Ruskin (1819-1900) |
andava eu à procura de um livro, para ler "pedaços" dele com os amigos - que é uma forma mais do que privilegiada de consolidar a amizade -, quando dou com esta passagem tão ampla. e registo-a, para além de a enfeitar.
Tinha quatro ou cinco anos, cabelo encaracolado, umas sandálias abertas na ponta, em lúnula, e uns calções curtos com suspensórios. A rapariga pousou o cesto no chão, acocorou-se, gritou: Samuele!, e abriu os braços, e o menino mergulhou dentro deles, a rapariga levantou-se e começou a rodopiar abraçada ao menino, rodopiavam os dois como uma girândola, as pernas do menino na horizontal e ela a cantar Yo me enamoré del aire, del aire de una mujer, como la mujer era aire,con el aire me quedé.
Ele deixou-se deslizar até ao chão com as costas apoiadas no muro e olhou para o alto. O azul do céu era tal que escancarava o espaço. Abriu a boca para respirar aquele azul, para o engolir, e depois abraçou-se a ele, apertando-o contra o peito. Dizia: Aire que lleva el aire, aire que el aire lla lleva, como tiene tanto rumbo no he podido hablar con ella, como lleva polisón el aire la bambolea.
* Tradução livre das duas estrofes: «Enamorei-me do ar,/ Do ar de certa mulher,/ Como a mulher era ar,/ Com o ar tive de ficar.// Ar que o ar vai levando,/ Ar que a vai levando a ela,/ Porque tão veloz voava,/ Não pude falar com ela,/ Enfunada leva a saia,/ Embalada o ar a leva.» (Canção sefardita do século XVI.) (N. do A.)
Antonio Tabucchi, O Tempo Envelhece Depressa - nove estórias
velocidade existencial
ao longo do tempo tive oportunidade de conhecer muitas pessoas que não sabiam descansar. pura e simplesmente não conseguiam fazê-lo. sinceramente sempre me fez confusão... e claro está acabei por desenvolver uma espécie de teoria acerca disso. não sei se corresponde efectivamente à realidade mas alguns factos levam-me a crer não estar de todo desajustada. é bastante simples afinal: descansar para muitas pessoas significa um estado próximo da morte. "parar é morrer" diz-se. acontece que eu própria também tenho um certo horror à imobilidade. na verdade eu pendi sempre para a agitação e para o desdobramento praticamente impossível de tarefas e para o desejar estar aqui ali além e acolá. eu própria com medo de parar. mas estas coisas acontecem apenas até um certo dia - uma forma de dizer é claro. acontecem até uma pessoa perceber que se não abrandar morre mesmo. é só então que se descobre a maravilha que é descansar. e o mais interessante de tudo isto (elementares cogitações da existência) é algo paradoxal - uma vez que é ao abrandar que realmente se avança. mas a cada um a velocidade certa. ando sempre a tentar descobrir a minha por entre a necessidade de a aferir pela dos outros. e a deles é certamente importante. pelo menos até certo ponto. maravilha das maravilhas: antecipar a possibilidade de viver uns tempos em velocidade moderada.
dizem estudiosos do cérebro que a vida acelera à medida que se envelhece. se assim é talvez seja por isso que eu quero abrandá-la.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
metalosis maligna emprestada
trago para aqui este vídeo, tomando-o por empréstimo do Machina Speculatrix, o blogue do Porfírio Silva. nele, há sempre muito com interesse para ler e para pensar. neste caso, observe-se bem esta doença/infecção ainda imaginária... um hipotético cenário de futuro que se associa a uma minha inquietação: como evoluirão os seres humanos do ponto de vista anatómico e fisiológico?
quinta-feira, 5 de julho de 2012
modelo-standard
A actual física de partículas assenta no chamado modelo-standard, uma gloriosa trapalhada. A matéria é feita de doze partículas fundamentais, há outras quatro portadoras das forças e que medeiam as interacções entre as coisas e ainda nos é oferecida uma partícula auxiliar de brinde. Ainda assim, deixa de fora a gravidade. Ao electrão e ao neutrino juntaram-se mais duas famílias de partículas semelhantes mas de maior massa, o muão e o tauão, além dos neutrinos correspondentes, denominados colectivamente leptões. O protão e o neutrão deixaram de ser fundamentais; é sabido que são constituídos por dois tipos de quarks (o up e o down). Como se isto não fosse suficiente, foram descobertos mais quatro quarks (o charme, o strange, o top e o bottom). A força fraca de Fermi é transportada pelos bosões W e Z, enquanto a luz e as interacções electromagnéticas são transmitidas pelos fotões. A força forte de Ettore e Heisenberg é mediada pelos gluões. Precisamos do bosão de Higgs para dar massa às partículas, nos casos em que isso se aplica.
Um jardim zoológico de partículas, a servir de peças básicas do universo! Só de pensar que os Gregos se contentavam com a terra, a água, o fogo e o ar... Anderson pode ter recebido o Prémio Nobel por ter descoberto o positrão, mas hoje existe a opinião generalizada de que quem quer que descubra uma partícula fundamental nova devia pagar uma multa de 10 mil dólares. O pior ainda é que, se considerarmos todos os "parâmetros livres" que têm de assumir certos valores para o modelo concordar com os dados, entre massas, forças de interacção, ângulos de mixing e por aí fora, ficamos com quase trinta números independentes. Todos metidos à pata dentro da teoria, como input, sem qualquer justificação.
Patético.
Até hoje, as tentativas de melhorar a situação ultracomplicada da física de partículas têm-se centrado na unificação das forças, procurando uma única força-partícula que unifique as muitas forças-partículas independentes. (...)
João Magueijo, O Grande Inquisidor
é por estas e por outras que falar claramente é preciso
não sei se a Teoria das Cordas resolve ou não os enigmas do universo. mas falar claramente é uma grande coisa. disso tenho a certeza.
segunda-feira, 2 de julho de 2012
as mãos
o que as mãos dizem o que revelam ou expressam... tantas vezes mais que um rosto. acontece encontrarmos umas postas assim... enaltecer-lhes o encanto e a imensidão. apetece até dizer: estavas linda Inês posta em sossego... mas estas vêm do Caravaggio (1986), de Derek Jarman. uma preciosidade.
domingo, 1 de julho de 2012
Mona Prince
Mona Prince, blogger da Primavera Árabe, é também escritora. Em conversa com Nuno Rogeiro, no programa Sociedade das Nações, considerou o caos como não perigoso. Eu acrescentaria: não é perigoso desde que seja transitório e de muito curta duração. Se atendermos à actual situação da Síria, o caos já é mais do que perigoso: é inaceitável. Por outro lado, Mona admitiu ser a religião um factor absolutamente determinante no seu país. No entanto, do seu ponto de vista, ela é hoje vivida sobretudo no que diz respeito aos aspectos formais, existindo, por outro lado, uma notória ausência dos valores correspondentes.
É interessante conhecer esta voz feminina que nos chega do Egipto - ver entrevista. Pelo que pude saber, a sua literatura é tida como caótica. Não deve ser por acaso. Pode ler-se alguma coisa do que escreve, por exemplo, no seu blogue: Mona Prince.
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