sábado, 7 de julho de 2012

para abrir o espaço

Um estudo das nuvens no "Campo Santo, Venice" de J.M.W. Turner - John Ruskin (1819-1900) 



andava eu à procura de um livro, para ler "pedaços" dele com os amigos - que é uma forma mais do que privilegiada de consolidar a amizade -, quando dou com esta passagem tão ampla. e registo-a, para além de a enfeitar.

Tinha quatro ou cinco anos, cabelo encaracolado, umas sandálias abertas na ponta, em lúnula, e uns calções curtos com suspensórios. A rapariga pousou o cesto no chão, acocorou-se, gritou: Samuele!, e abriu os braços, e o menino mergulhou dentro deles, a rapariga levantou-se e começou a rodopiar abraçada ao menino, rodopiavam os dois como uma girândola, as pernas do menino na horizontal e ela a cantar Yo me enamoré del aire, del aire de una mujer, como la mujer era aire,con el aire me quedé.
Ele deixou-se deslizar até ao chão com as costas apoiadas no muro e olhou para o alto. O azul do céu era tal que escancarava o espaço. Abriu a boca para respirar aquele azul, para o engolir, e depois abraçou-se a ele, apertando-o contra o peito. Dizia: Aire que lleva el aire, aire que el aire lla lleva, como tiene tanto rumbo no he podido hablar con ella, como lleva polisón el aire la bambolea.

* Tradução livre das duas estrofes: «Enamorei-me do ar,/ Do ar de certa mulher,/ Como a mulher era ar,/ Com o ar tive de ficar.// Ar que o ar vai levando,/ Ar que a vai levando a ela,/ Porque tão veloz voava,/ Não pude falar com ela,/ Enfunada leva a saia,/ Embalada o ar a leva.» (Canção sefardita do século XVI.) (N. do A.)

Antonio Tabucchi, O Tempo Envelhece Depressa - nove estórias

1 comentário:

anamar disse...

Belissimo. :))
Abracinho e b.f.s.