quinta-feira, 25 de agosto de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Céus, para que vos quero?
«Na minha qualidade de hóspede das termas, de geólogo e passeante, não posso dizer que me agrade particularmente o tempo, que está demasiado instável; mas a sua observação, essa acho-a extremamente divertida e da maior importância. (...)
Aliás, toda a nossa observação do tempo se refere apenas às lutas que a atmosfera tem de travar com vapores e névoas e nuvens de toda a espécie; (...).»
J.W.Goethe, Observações em Karlsbad (Setembro de 1819) in O Jogo das Nuvens
Às vezes, interrogo-me acerca do porquê de o meu olhar tomar a direcção das nuvens, e acerca da razão pela qual o céu tem o enorme poder de me atrair, seja ele, hoje, de um belo azul, e logo depois, amanhã, de um cinzento pardo e triste... Porquê? Porque é que a amplitude do espaço, a imensidão dos céus, e a sua quase despovoada paisagem conseguem renovar-me o olhar?
É claro que as anotações de Goethe, acerca das nuvens e das condições atmosféricas em geral, hoje só possuem algum valor científico à laia de curiosidade. Por outro lado, a fotografia deste céu algo turbulento, a que aqui mostro, tem apenas um valor pessoal, não constituindo nenhum trabalho de fôlego do ponto de vista verdadeiramente artístico e fotográfico. Apesar disto tudo, ela revela-me alguma coisa relativa aos benefícios de uma certa amplitude do olhar. Relembra-me também que "todas as coisas têm o seu tempo debaixo dos céus..." - assim o diz aquele belíssimo poema no «Cântico dos Cânticos».
Sendo que tudo isto me ocorre, não deixa de ocorrer-me ainda que muito melhor mundo este seria, se a terra onde vivemos pudesse ser um prolongamento dos céus sob os quais nos movemos. Em lugar disso, tudo se prepara para que a nossa atmosfera, e até o céu mais além..., venha a tornar-se um prolongamento desta superfície terrestre tristemente poluída e quase agonizante. Perante a desumanidade do planeta, até os céus tendem a "não querer" ser humanos. No entanto, é difícil esquecer: não há nada como o movimento pairante de uma nuvem por cima da nossa cabeça, para nos recordar com extrema evidência que o tempo passa... porque tudo passa... porque nós passamos...
Foto de A. P.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
À deriva em atmosfera de verão
Imagine-se a totalidade e que do todo é preciso escolher. Por exemplo, "escolho as pepitas de ouro desta vida que se escoa à volta". Cuidadosamente e com rigoroso critério. No estado pós-seleccionar duradouramente atinge-se uma atmosfera minimal. E a pergunta é: o que fica? Pouco. E depois? De novo pouco, e muito menos ainda... E depois? O que fica? E depois, continuemos...? O que resta? Suponho que se chegue a um nada. Deve ser quando nem sequer nos escolhemos a nós próprios.
Escolher é eleger mas também fazer desaparecer. Escrever é sempre um excesso. Respirar é um excesso. Estar vivo é transbordar logo de manhã e verter de si sempre mais para o resto do dia. Só há manhãs porque há excesso de luz. Se dissertar sobre... será um excesso da palavra. Sempre que voltar a escrever, serei excessiva. Seguramente. E dizê-lo é um excesso.
Ser moderada, é dizer: Até já. Sem exclamar. Ser excessiva é dizer: Até sempre... (porque se deseja mais tempo). Há a possibilidade de não dizer nada. ...mas depois, é voltar ao excesso do dizer. Estar vivo é não desaparecer, tão só porque nos escolhemos. Aparecer no mundo é dizer alguma coisa - registar, explicitar, pronunciar. Ser excesso. Ser excessiva, eu.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
A transformação das convicções
"Maurice Blanchot, romancista e crítico. A sua vida é inteiramente dedicada à literatura e ao silêncio que lhe é próprio."
... aqui guardo, com pena de só encontrar disponível a primeira parte deste interessante documentário.
sábado, 6 de agosto de 2011
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Voltar
![]() |
| Edouard Manet, Woman Writing (1862-64) |
Quando há um bocadinho mais de tempo para ler, encontram-se coisas assim, digamos, do tipo "um certo beliscão". Por isso, toca a acordar. Digo eu. «"Mr. Barnes, estudámos o seu caso e concluímos que o seu medo da morte está intimamente ligado aos seus hábitos literários que não passam, como para muitos da sua profissão, duma reacção banal à sua condição mortal. Inventa histórias para que o seu nome e uma incalculável percentagem da sua individualidade continue após a morte física, e essa esperança traz-lhe algum consolo. E mesmo que intelectualmente tenha percebido que pode perfeitamente ser esquecido antes de morrer, ou logo a seguir, e que todos os escritores acabarão por ser esquecidos, assim como toda a raça humana, ainda assim parece-lhe que vale a pena. Não podemos ter a certeza se escrever é para si uma reacção visceral ao medo racional ou uma reacção racional ao medo visceral. Mas tem aqui uma coisa para pensar. Aperfeiçoámos uma nova operação ao cérebro, que elimina o medo da morte. É um procedimento simples que não necessita de anestesia geral - pode, aliás, seguir o resultado no seu monitor. Não perca de vista o ponto luminoso cor de laranja e veja-o esbater-se gradualmente. Mas é claro, descobrirá que a operação lhe tira a vontade de escrever; muitos dos seus colegas, porém, optaram por este tratamento e acharam-no muito benéfico. No geral, a sociedade também não se queixou por haver menos escritores."» in Julian Barnes, Nada a Temer |
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Regenerar e voltar
Um pequeno momento sereno para os meus amigos e amigas da blogosfera. Antes de retomar a escrita por aqui... Depois de regenerar o meu ímpeto de comunicar neste lugar, depois de sentir saudades, e de querer voltar à escrita e à reflexão. Por vezes, temos que cortar um pouco de nós, para deixar aparecer algo mais do que somos verdadeiramente.
A todos: BOAS FÉRIAS!
sexta-feira, 22 de julho de 2011
domingo, 17 de julho de 2011
Roda da fortuna
![]() |
| Carousel, James Rosenquist (1978) |
Este carrossel de James Rosenquist parece-me muito interessante, embora diferente daquele que habita a memória da minha infância. Se é que a vida pode ser comparada a um grande carrossel, nesse tempo ela conseguia sê-lo mesmo, e no mais amplo sentido: tudo a girar vertiginosamente e eu no meio, sem que nada me pudesse parar. Só mais e mais... vida, e os acontecimentos vividos comigo dentro, sem tempo nem espaço para os observar de fora...
Havia então, no tempo das grandes feiras, meninos e meninas a correr alegremente para entrar na roda que girava velozmente, e eu sentada no cavalo-marinho do carrossel - o meu preferido. Lá mais para a frente... um pouco depois do tempo da alegre inconsciência, comecei a ter receio. Um absurdo receio. O de que, por alguma oculta razão, a volta nunca viesse a terminar, e eu não pudesse voltar a pisar o chão firme dos meus dias. Uma improvável hipótese que a minha imaginação tornava realidade. Era então que os outros moderavam o meu receio, rindo-se e afirmando peremptoriamente que tal nunca aconteceria. E, assim, conseguiam acalmar-me. Depois, até chegava a rir-me com eles da minha própria fantasia. Quando agora me lembro de tudo isso... ao ver, ainda que raramente, um carrossel de feira, recordo-me logo também de como foi depois... anos mais tarde, já a sair do tempo dessa alegre meninice. O entusiasmo foi desaparecendo, andar de carrossel dizia-me pouco, e quando os amigos queriam saber porquê, lá respondia eu: que uma volta era pouco, que terminava logo. Pior, quando ela tivesse início, eu já sabia que em poucos minutos iria terminar. Portanto, não tinha piada. Que desmancha-prazeres! é como me vejo agora. Mas eles não desistiam, e iam... enquanto eu ficava a ver... e eles sempre a chamar por mim... Assim eram e são os bons amigos.
Parece-me estranho, agora, pressentir de novo o fascínio de uma simples volta de carrossel. O que me faz pensar no encanto do efémero... esse fugaz instante, ao qual a minha razão tende a dar pouco valor. Não há dúvida de que o tempo é um grande mestre!
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Limite
páro-me
e depois reparo-me
mas só vejo parte de mim
(mas remeto-me à flor o dia é solar e assim o tempo foi todo transparência fugaz)
e depois reparo-me
mas só vejo parte de mim
respiro-o
todo um ar lento e vago doce e circulante
a flor - vejo-a aqui de perto
mas
só agora noto
nada nela é simples
como foi um dia. antes
quero-a
vai à minha frente...
e é sorridente
olho-a
quando então a vejo
vida fugitiva
parece suspensa
e extensa
nesta poeira celeste
que insiste em voltar a cada verão
e cobre todos os lugares
porque nos exalta?
na febre na doce inquietação e no torpôr das tardes que se vão...
(mas remeto-me à flor o dia é solar e assim o tempo foi todo transparência fugaz)
eis que se demora...
Foto de A.P.
Foto de A.P.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
E agora, para algo completamente diferente
Ontem, em dia de eclipse total da lua, o meu silêncio eclipsou-se, perante este magnífico momento de silêncio dito e cantado. Algo nesta voz e nesta composição faz de nós um barco de regresso ao cais, depois de se ver à deriva. Fica dito.
Há um silêncio pesado
Que não sei de onde é que vem
Nem sei se lhe chamam fado
Ou que outro nome é que tem
Se canto, não me dói tanto
O coração magoado
Mas há em tudo o que canto
Este silêncio pesado
Não é mágoa nem saudade
Nem é pena de ninguém
O silêncio que me invade
E não sei de onde é que vem
Silêncio que anda comigo
E que mesmo sem eu querer
Diz através do que eu digo
O que eu não posso dizer
Este silêncio pesado
Que me suspende e sustém
Nem sei se lhe chamam fado
Ou que outro nome é que tem
Se com palavras se veste
A alegria e o pranto
Então que silêncio é este
Que há em tudo o que eu canto
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Regresso ao futuro
Muitas vezes, diz-se: nunca regresses a um lugar onde já foste feliz. Mas como não procurar todos os lugares que nos parecem compatíveis com...
-
Fui ver 12 anos escravo . É um filme sério. Muito sério. Regra geral, a escravatura é tema abordado segundo a sequência: de uma tot...
-
Há poesias que nos visitam dos confins do tempo... É o caso da de Rumi , a qual, à medida que se descobre, tem o poder de nos levar a acredi...


