quarta-feira, 17 de agosto de 2011

À deriva em atmosfera de verão

Imagine-se a totalidade e que do todo é preciso escolher. Por exemplo, "escolho as pepitas de ouro desta vida que se escoa à volta". Cuidadosamente e com rigoroso critério. No estado pós-seleccionar duradouramente atinge-se uma atmosfera minimal. E a pergunta é: o que fica? Pouco. E depois? De novo pouco, e muito menos ainda... E depois? O que fica? E depois, continuemos...? O que resta? Suponho que se chegue a um nada. Deve ser quando nem sequer nos escolhemos a nós próprios.
Escolher é eleger mas também fazer desaparecer. Escrever é sempre um excesso. Respirar é um excesso. Estar vivo é transbordar logo de manhã e verter de si sempre mais para o resto do dia. Só há manhãs porque há excesso de luz. Se dissertar sobre... será um excesso da palavra. Sempre que voltar a escrever, serei excessiva. Seguramente. E dizê-lo é um excesso. 
Ser moderada, é dizer: Até já. Sem exclamar. Ser excessiva é dizer: Até sempre... (porque se deseja mais tempo). Há a possibilidade de não dizer nada. ...mas depois, é voltar ao excesso do dizer. Estar vivo é não desaparecer, tão só porque nos escolhemos. Aparecer no mundo é dizer alguma coisa - registar, explicitar, pronunciar. Ser excesso. Ser excessiva, eu.

4 comentários:

vbm disse...

Giro. E, de algum modo, realmente assim. Mas creio que há uma matemática necessária no processo que descreves. Talvez Maurice Blanchot fale nisso... ? :) - Numa revista que comprei, francesa, há um artigo dele, sobre Homero, hei-de lê-lo! - Mas digo, parece sujacente uma progressão necessária; p. exº, na democracia, uma maioria forma-se, decide e governa; dentro da maioria, uma sub-maioria forma-se, decide e governa; continua o processo: chegas a um triunvirato; depois, a um poder dual; por fim, o governo de um homem só. É uma evolução natural; só sobressaltada por quedas de liderança, volte-faces de eleições, quando informadas, lúcidas e livres... :) Mas o processo renasce! Essencial? Respeitar as minorias, compactuar com a pluralidade, cursar os valores próprios que mais se admiram. Assim, se desenrola a história das comunidades e civilizações :))

Eliete disse...

Ana Paula, que bela reflexão. Nunca tinha pensado no que você disse:"Escolher é eleger mas também fazer desaparecer".Obrigada pela dica.bjs

Há.dias.assim disse...

Por vezes os excessos visitam-nos, desafiam-nos para que nos permitamos ser excessivas...
Boas férias!

José Ricardo Costa disse...

Muito bem, mas vá com calma. No meio de tanto excesso não abuse do excesso de velocidade. Há árvores de ambos os lados e elas não se desviam.

JR