domingo, 17 de julho de 2011

Roda da fortuna

Carousel, James Rosenquist (1978)

Este carrossel de James Rosenquist parece-me muito interessante, embora diferente daquele que habita a memória da minha infância. Se é que a vida pode ser comparada a um grande carrossel, nesse tempo ela conseguia sê-lo mesmo, e no mais amplo sentido: tudo a girar vertiginosamente e eu no meio, sem que nada me pudesse parar. Só mais e mais... vida, e os acontecimentos vividos comigo dentro, sem tempo nem espaço para os observar de fora...
Havia então, no tempo das grandes feiras, meninos e meninas a correr alegremente para entrar na roda que girava velozmente, e eu sentada no cavalo-marinho do carrossel - o meu preferido. Lá mais para a frente... um pouco depois do tempo da alegre inconsciência, comecei a ter receio. Um absurdo receio. O de que, por alguma oculta razão, a volta nunca viesse a terminar, e eu não pudesse voltar a pisar o chão firme dos meus dias. Uma improvável hipótese que a minha imaginação tornava realidade. Era então que os outros moderavam o meu receio, rindo-se e afirmando peremptoriamente que tal nunca aconteceria. E, assim, conseguiam acalmar-me. Depois, até chegava a rir-me com eles da minha própria fantasia. Quando agora me lembro de tudo isso... ao ver, ainda que raramente, um carrossel de feira, recordo-me logo também de como foi depois... anos mais tarde, já a sair do tempo dessa alegre meninice. O entusiasmo foi desaparecendo, andar de carrossel dizia-me pouco, e quando os amigos queriam saber porquê, lá respondia eu: que uma volta era pouco, que terminava logo. Pior, quando ela tivesse início, eu já sabia que em poucos minutos iria terminar. Portanto, não tinha piada. Que desmancha-prazeres! é como me vejo agora. Mas eles não desistiam, e iam... enquanto eu ficava a ver... e eles sempre a chamar por mim... Assim eram e são os bons amigos. 
Parece-me estranho, agora, pressentir de novo o fascínio de uma simples volta de carrossel. O que me faz pensar no encanto do efémero... esse fugaz instante, ao qual a minha razão tende a dar pouco valor. Não há dúvida de que o tempo é um grande mestre!


5 comentários:

Há.dias.assim disse...

O tempo é um grande mestre! se é, Ana Paula, se é...
como diz o ditado "os anos ensinam coisas que os dias desconhecem."

observatory disse...

viver é isso mesmo: andar em zig-zag

José Ricardo Costa disse...

Ui, se é. E sempre achei Nietzsche uma óptima leitura de Verão.

Eliete disse...

Ana Paula, recentemente tirando fotos de um matinho que nasce aqui perto de casa(coloquei no meu blog) pensei na fulgacidade da vida.E al ler sua reflexão fiquei emocionada .bjs

Mar Arável disse...

Por vezes é preciso
parar
para ver como se anda