segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Momentos filosóficos - 2


Chamei à minha memória e à minha reflexão autores do passado. O que pode ser um paradoxo temporal (ou não) é o facto de inúmeras vezes os encontrar mais actuais que muitos actuais.
Acontece que um dos temas que faz a actualidade é o tema da opinião: ter opinião formada ou não; fazer a opinião de...; dar opinião sobre...; opinar aqui e ali; sondar a opinião... e por aí adiante, ao longo de um sem número de adaptações possíveis do termo.
Pois parece-me legítimo, e até necessário, ter opiniões. Embora muitas vezes seja preciso reconhecer que não se tem opinião. Ou assinalar o facto de que o que defendemos é apenas uma opinião. Por vezes, acontece ser preferível não ter opinião, em vez de ter uma opinião desinformada, ou que não é do próprio(a). Outras vezes não, e as opiniões também podem coincidir. Na verdade, é complicado. Ainda que possa parecer simples.
Também pode acontecer ser desastroso construir toda uma sociedade fundada em opiniões (ou crenças). Não tenho nada contra opiniões. Eu própria tenho as minhas. No entanto, que competências sociais podem de facto desenvolver-se com opiniões apenas? Julgo que são escassas e ineficazes. Ou seja, o mundo da opinião é um terreno importantíssimo, o que não obsta ao facto de em certos domínios ser absolutamente necessário ir mais além. Quando somos convocados a tomar uma posição, por exemplo. Quando dessa posição resultam consequências que afectam não só cada um, mas muitos outros. Sendo que por detrás desta cortina nem sempre transparente de motivações, levados a pronunciar-nos, existem decisões a tomar. E decidir nunca é fácil. Refiro-me a decidir conscientemente.

É neste terreno perene e transbordante de flutuações que me ocorre a importante distinção platónica (ainda que longínqua do ponto de vista temporal) entre opinião e ciência (ou saber). Recordando este ponto, é sabido que Platão considerava a opinião (doxa) um domínio inferior do conhecimento relativamente à ciência (episteme).
Usando de algum rigor na análise desta temática, há que reconhecer ser impossível dominar todas as matérias acerca das quais nos pronunciamos, com os necessários fundamentos científicos (não esquecendo que este termo é aqui usado para lá do seu significado actual, recolhendo dele o seu carácter de verdadeira sabedoria, à luz do sentido que possui na filosofia platónica - e que se distancia largamente de competências exclusivamente técnicas, o que fica para outra altura...). Pressupõe-se, no entanto, que há saberes que conferem autoridade em determinadas matérias. Se a especialização pode ser, por vezes, algo redutora, não deixa de ser necessária. Em especial, conta-se com ela (ou deveria contar-se) para a aquisição de competências de cidadania. Conta-se com quem sabe sobre... Para nos elucidar. O contar-se com alguém para tal efeito implica um voto de confiança. Só há confiança quando se reconhece autoridade. Esta só existe quando se apresentam provas.
Evidentemente, a questão é inesgotável. As especulações (filosóficas e outras) continuarão e é bom que continuem... Quando é preciso agir e andar para a frente... é preciso decidir. Duvido sempre de conhecimentos absolutos. Nem a ciência hoje é considerada absoluta (com as suas constantes rupturas e substituições de paradigmas). As ideias platónicas, esse mundo das formas perfeito e imutável, provavelmente não está ao nosso alcance. Mas se é desaconselhável defender o absoluto, não o é menos a defesa do relativismo. Sabendo que todas as nossas posturas podem conter uma certa margem de incerteza e erro, é preciso avançar. Não é certamente avanço adoptar opiniões na base do critério da mera influência ocasional. Resultado de simpatias ou de interesses. Ou de outros factores altamente subjectivos que ficam por assinalar. Não é certamente avanço oferecer opiniões desinformadas e de compromisso. É que uma opinião fundamentada não é nada fácil. Porque já se afasta do domínio do subjectivo e procura ascender ao patamar do rigor e da seriedade... Uma empreitada! Se calhar, não vale a pena viver sem a experimentar.


Imagem daqui



quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Yeshayahu Leibowitz





Yeshayahu Leibowitz : Um grande intelectual, um filósofo e um cientista, designado por Isaiah Berlin como "a consciência de Israel". Pelas suas opiniões e convicções, foi persona non grata para muitos dentro do seu próprio país. Condenou a intervenção militar e foi contra a política de Israel nos territórios ocupados. Parece ser hora de recordá-lo. Não só por isso, mas também por todo o seu pensamento em geral.

Afinal... uma mulher não pode ser rabi. Não é tão evidente assim (muito menos o foi no passado) que as mulheres sejam pessoas. Ainda menos evidente é que elas possam e devam tomar parte na vida religiosa, política e cultural do seu país.

A verdade é que valeria bem a pena ler melhor este pensador. Traduções portuguesas, desconheço. Brasileiras? Talvez. A qualidade dos filmes disponíveis, assim como a escassez de tradução nos mesmos... lamentável. Merecia um grande documentário e o ultrapassar da barreira que constitui o hebreu.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Épico psicológico







Tomo a liberdade de considerar o filme "A Troca" um épico psicológico.
Eu gosto muito dos filmes de Clint Eastwood (não obstante ser republicano), do estilo formal contido e forte, ao mesmo tempo. Gosto das cores sóbrias com as quais o poder da realidade nos atinge. Mas o que me impressiona verdadeiramente é a profundidade do mundo humano que nos oferece. São sempre filmes do tipo "um certo murro no estômago". Sem qualquer vulgaridade ou masoquismo. Porque o murro não é gratuito, acontece com fundamento. Através de um olhar sério e incisivo lançado sobre as grandes questões da natureza humana, feitas carne e osso nos seus representantes mais anónimos e vulgares (?).

"A Troca" apresenta uma excelente reconstituição de época e, igualmente, excelentes interpretações. A história que lhe deu origem é tão inacreditável quanto verídica. Mas o ponto forte deste filme é a conseguida intenção do seu realizador (na minha óptica): enaltecer princípios éticos e valores morais que andam algo esquecidos no nosso mundo. Existem os bons e os maus no filme, sim, é verdade. Mas os maus são tão humanos quanto os bons. Acontece que estão do outro lado da luta. Porque nela existem posições tão marcadas como num palco de teatro. E este é o palco da vida.

O enredo que poderia ser abordado segundo um qualquer horror banalizado, como muitas vezes acontece, ganha e conquista aqui uma dimensão épica. Pela construção psicológica de personagens fortes, corajosas e lutadoras. A História faz-se também e, talvez, sobretudo pela intervenção do cidadão mais comum, muitas vezes anónimo. Se os ideais de justiça e de solidariedade humana implicam coragem na sua defesa, são muitos os que lutaram por eles sem serem reconhecidos. É que, geralmente, destes cidadãos comuns não reza a história. Mas ela vai-se escrevendo... assim. Entre o individual e o social.
Depois de ver, fica-se a pensar.


Imagens: pesquisa do Google

sábado, 10 de janeiro de 2009

Dia de Festa

Hoje é um dia de festa em Catharsis. Uma festa pequenina que é como gosto mais, e os tempos não estão para grandes festas. Também não gosto de barulho. Só às vezes. Quando a música é sinónimo de descontraída alegria e exaltação.





Apesar de provavelmente estar mais sensata (?), ainda tenho dúvidas acerca do facto de ter alcançado a idade da razão. Lembrei-me da Simone de Beauvoir, a este propósito. Mas concluo finalmente que todos os dias são um misto de razão e emoção. Durante toda a vida...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Gaza

É impossível não me confrontar com o inferno que este lugar do mundo parece ser. Do que o mundo precisa é de paz. Mas é a guerra que o assola. Não sei (?) se o progresso tem que ser "escrito por linhas tão tortas". Mas estou certa de que escapar ao retrocesso implica obedecer a um imperativo: encontrar (urgentemente!) um caminho mais justo e humano.




A questão é por demais problemática e polémica. Difícil de resolver. Exige reflexão, mas também tomada de posição.
Estaremos todos de acordo quanto ao essencial da situação actual?! Os inocentes são inocentes e têm que ser salvaguardados das atrocidades que resultam de longos e complexos desentendimentos!
As imagens que nos obrigam à consciencialização, ainda que nem sempre totalmente reveladoras da dimensão da tragédia (deveriam sê-lo?, deveremos procurar o confronto com elas? : o que coloca a questão do pudor acerca das imagens, a da sua violência inerente e específica, à qual estamos sujeitos), são uma conquista da nossa civilização. Conseguimos obtê-las facilmente nesta nossa era, temos os meios técnicos e tecnológicos para as criar e divulgar. Mas... e os meios para impedir a guerra?! E os meios para proteger os inocentes nela envolvidos?!
Alguma vez esta questão será verdadeiramente resolvida?! Como é difícil o diálogo e a cooperação entre os povos!

Estas são algumas opiniões e conclusões que me pareceram interessantes (e suficientemente ponderadas) acerca deste conflito recorrente, e da muito dramática situação vivida no território da faixa de Gaza. Só lamento que o cansaço da guerra não tenha sido ainda suficiente, para evitar o actual estado das coisas...







Imagem: pesquisa do Google

domingo, 4 de janeiro de 2009

Branca de Neve


É difícil os contos de fadas e afins perderem o encanto, mesmo com o passar do tempo. Foram muito das fantasias da minha infância e gosto de os partilhar com os mais pequenos. Na verdade, com todos, de qualquer idade. Sobretudo, gosto muito de os reviver, reinventando-os agora com toda a carga simbólica que neles encontro. Quanto ao encanto, esse, permanece intocável.

Fui assim atraída pela recriação do conto "Branca de Neve" - um bailado contemporâneo e romântico de Angelin Preljocaj, o qual pude apreciar recentemente no CCB. Não como entrada no novo ano, mas sim como despedida do anterior.

Acerca deste bailado há a destacar: a música de Gustav Mahler (sempre deslumbrante!), os figurinos de Jean Paul Gaultier (magníficos!), e a coreografia de Angelin Preljocaj (que desconhecia e me cativou!) . Mais aqui
e aqui

É excelente constatar que o passado pode renovar-se com grande qualidade. Sem perder o encanto.

Aqui fica a minha nota e o meu registo: Valeu a pena!




segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Catharsis musical para 2009


À medida que 2008 vai ficando para trás, começo a sentir a nostalgia habitual da "viagem" pelo que foi... O carácter absolutamente convencional destes festejos; a obrigatoriedade de contar os minutos para a meia-noite, como se pós-esta hora tudo se modificasse... confesso que já não me diz muito. Mas compreendo o espírito de festa e a celebração de um novo ano.

Parece-me interessante reflectir sobre o significado desta fugaz mas irreversível transição: como a vivo hoje é mais enquanto projecção comum da humanidade num futuro de incógnitas, de receios, mas também de esperanças e de crenças. No entanto, isto é aquilo que acontece todos os dias, todas as horas. A marca da passagem do tempo é constante. Escolhemos uma meia-noite especial, situada num ponto-limite de um calendário que também adoptámos solenemente. E nela depositámos a fé de que tudo muda ali, naquele instante. Mas o certo é que não muda por magia então. Vai mudando sempre. Pelas nossas mãos.

Mas as datas são importantes para construir a história. E, portanto, eis-nos a deixar para trás 2008. Abrimos os braços a 2009!
Na contagem decrescente destes últimos dias de Dezembro, uma frase veio-me à memória. Não sei porquê. Mas insiste em aparecer-me: "A sorte protege os audazes". É pois com Virgílio, e com este seu verso da Eneida, que 2009 se me apresenta. Desde esse outro tempo longínquo, até aos dias de hoje, construímos um caminho. Tortuoso, sem dúvida, mas que ainda não chegou ao fim.
Não sabemos que sorte nos reserva 2009, mas é preciso ter coragem para receber o Novo Ano e continuar este percurso... Acreditando que a nossa audácia será protegida pela sorte! A mesma audácia que é preciso ter para dar corpo a esta expressiva interpretação musical!

Bom Ano Novo!




domingo, 21 de dezembro de 2008

Era uma vez uma estrela...






Dizem que é Natal
Mas que é da menina de olhos brilhantes?
Olhando a estrela espera...
Coração apertado inquieto
Aguarda

Dizem que é Natal
E é?
É dia é hora de realizar os sonhos
Que sonho que hora?
O eco da paz da amizade de outrora
E nada é vão se agora
Não nos formos embora
Estendermos a mão
À menina com coração

Ou ao menino ao senhor à senhora
Importa aqui ficar
E ver a estrela brilhar
Nas mãos de todos


Boas Festas para todos!


segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Frio: coruja do Ártico


Com o frio que tem feito... eu que o acho lindíssimo de uma forma inexplicável, julgo que em parte por trazer consigo a brancura da neve, e mesmo do gelo, este com a sua transparência... apesar disso, prefiro infinitamente mais as temperaturas amenas. Enfim, posso afirmá-lo, prefiro climas quentes. Vantagens e desvantagens há-as sempre, num caso e noutro.

Mas os ambientes inóspitos das imensidões geladas revelam-se capazes de dar origem a pequenas maravilhas da natureza. É o caso desta Coruja do Ártico ou Coruja das Neves. Parece que é também a coruja do Harry Potter.



Achei-a tão especial no seu traje branquinho salpicado a negro! E apesar do frio, próprio dos lugares onde vive naturalmente, dá a sensação de se sentir muito confortável.

Na verdade, é linda! Fiquei com um pouquinho de inveja... mas, sobretudo, senti admiração!



terça-feira, 9 de dezembro de 2008

António Alçada Baptista


Nem sempre todos os que o merecem são recordados. Mas alguns são-nos particularmente caros. Especiais porque possuem um significado marcante na nossa vida.
Assim me acontece com António Alçada Baptista (1927-2008), cujo desaparecimento não posso deixar de assinalar e registar.

Já lá vai algum tempo... quando eu, jovem adulta, descobri os seus livros pela mão de uma grande amiga de sempre. Em conjunto, chegámos a fazer uma espécie de mini-clube de leitura. Debatíamos passagens e atribuíamos significados a acontecimentos presentes nas narrativas... escolhíamos frases que repetíamos interiormente vezes sem conta com prazer. A delicada profundidade da sua escrita fazia as nossas delícias. Era a sensação de sermos compreendidas. A intuição inexplicável de que alguém, algures, partilhava os nossos sentimentos, os nossos afectos, as nossas reflexões. Preferidos foram, "Catarina ou o Sabor da Maçã", "Os Nós e os Laços" e "O Tecido do Outono", entre outros.

Mas o traço mais forte da sua escrita, aquele que nunca deixou de me admirar e que jamais poderei esquecer, é o de um imenso e poderoso sentido de humanidade. Um olhar tão fraterno e humano!, pelo qual este Outono fica marcado, depois de António Alçada Baptista partir para outro lugar. Fica o desejo de o procurar mais, de o conhecer mais, de o admirar mais, de o recordar mais, mas, sobretudo, a vontade de o ler mais...

Até sempre, caríssimo! Ler-te é um acto sério, e um imenso prazer!

«Não é possível contar esta história sem que, uma vez por outra, coisas como a solidão e a morte aflorem às linhas da escrita, mas vou fazer o possível para escrever tudo isso sem solenidade. É que, a certa altura, a vida é outra e o próprio passado não é bem aquilo que a gente viveu porque, em cada tempo, há uma forma de olhar, e aquilo que vivemos não está no mundo, está na maneira como olhámos para ele.
É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso. São coisas destas que me levam à convicção de que a vida para que somos feitos não é, de modo nenhum, aquela que andámos a viver. Em rigor, o nosso destino poderia parecer trágico: por um lado, caminhamos inexoravelmente para a solidão, por outro, temos como futuro o esquecimento. Tenho muito a convicção de que somos seres em formação, pois o projecto humano não aponta para aqui. Penso é que ele nos vai sendo revelado por pequenas nostalgias de coisas ainda não vividas, que se exprimem por intuições avulsas e, apesar de tudo, pelo halo poético do mundo, que seria mais visível se acertássemos a maneira como olhamos para ele. Depois também há, felizmente, aqueles que já nasceram mais à frente no caminho do futuro. A consciência da complexidade do viver leva-me a pôr de parte as amarguras e as melancolias metafísicas. Por um lado, sinto que o tempo e o universo me olham com indiferença e distância e que, para eles, a minha história pessoal poderá ser considerada como a daqueles pobres que eu vi a dormir, lado a lado, ao longo dos passeios de Bombaim, quando, uma noite, seguia de táxi para o aeroporto da cidade. Por outro, tenho a simultânea convicção de que tudo o que é importante se forma a partir da consciência da nossa história pessoal, por mais pobre e monótona que ela seja.»

«Às vezes estou tentado a pensar que um povo pobre, assente sobre a força de um texto sagrado, nos pode dar mais sossego e serenidade do que as descobertas do progresso. Isto pode ser verdade mas sinto simultaneamente de que não é o que está inscrito no projecto humano. Não vale a pena zangarmo-nos com a nossa própria impotência porque nada se resolve com palavras. Porque a gente chega a um ponto donde pode ver alguma coisa através das ideias, das crenças e dos símbolos. É verdade que são expressões naturais da vida mas, contrariamente ao que pretendem, não compreendem nem explicam a vida.»

«Tenho dificuldade em dizer que perdi a fé mas tenho também que confessar que aquilo que me prendia a Deus era precisamente o medo, o "temor de Deus", porque o Deus que me ensinaram metia muito medo à gente. Não quis encarar de frente essa realidade mas não há dúvida que eu tinha sido feito a poder de interditos, de culpas, de perdões.
Estou certo de que a minha maior tentação foi a da razão, que não parava de pôr em questão tudo aquilo que eu vivia e me provocava a simultânea incapacidade de aderir seja ao que for. É disto que se faz um céptico: o que não se sente capaz de acreditar senão naquilo que vê e pode conhecer com as suas próprias mãos. (...) O meu problema é que eu, no fundo, não acreditava em nada: era só fiar-me na palavra "deles" e "eles" diziam coisas que a minha cabeça começava a recusar. Não há dúvida: eu estava a cair na armadilha do conhecimento racional.
Aqui, em rigor, eu deveria ter deixado a Igreja, mas acontece que o peso dos sentimentos impedia que eu passasse à prática os ditâmes da razão.
(...) A minha inquietação vinha desta luta interior entre a minha razão que me mandava sair, e o medo, que não me deixava abrir a porta para a rua.
Depois, tomei consciência de que o mundo da fé, como tudo o que por aqui se passa, estava profundamente ligado ao mundo dos afectos. É que, a par de todas as dúvidas levantadas pela razão, havia outras coisas: uma ânsia de generosidade e de estar solidário com os outros que implicava a existência de grandes fraternidades.
(...) Como vêem, nada disto era tão simples como "eles" queriam que fosse. Tudo fazia parte do mundo da complexidade de quem suspende a segurança da menoridade e vai descobrindo que a vontade de Deus é que a gente deve principiar por saber quem somos.»

«Porque este processo de sedução é longo e corresponde, muito possivelmente, à passagem de uma certa adolescência - que muitos teimam em viver até à morte - e à desejada serenidade que alcançaremos no dia em que conseguirmos fazer as pazes entre tudo o que está dentro de nós. Eu diria até que é nesse momento que se faz a passagem de um Superego para uma consciência responsável. Porque um Superego tem muito que ver com o tal código de uma tribo, e a consciência, por sua vez, é uma autonomia que nos permite fazer os nossos próprios juízos e as nossas próprias leis. Todo este processo é sobretudo muito longo e gerado à custa de muita dor porque são muito fortes as leis que nos acolheram e que muitos insistem, entre medos e ameaças, em dizer que são imutáveis, como se não existisse o movimento do mundo. E, sobretudo, elas são a base da nossa segurança. Mas a verdade é que, só depois de atravessar tudo isto, é que a gente começa a viver.
Estas coisas, que hoje me enternecem, naqueles tempos empolgavam-me porque eram aquilo a que chamavam "viver numa digna e nobre angústia".»

«Não tenho medo da morte porque a vida eterna não começa depois da morte. Começa aqui na terra, perante a escolha que fazemos de acompanhar com amor as alegrias e as tristezas dos outros. Deus não terá que nos julgar. O julgamento é feito todos os dias perante aquilo que andamos a fazer. Também não me impressiona morrer sem compreender o que é Deus. Se eu O compreendesse é porque não era Deus.»

«Vou escrever-te mais um bocadinho. É que me faltava dizer-te que gostei muito da vida apesar de ter visto tanto sofrimento. É que vi muitas provas de amor. O nosso, o que os outros me tiveram, o que pude ter pelos outros. Isto dá-nos esperança para saber que é possível um mundo de amor. Vivi só para esse mundo e nenhum outro me interessa. Fico espantada quando penso nas pessoas que vivem completamente desligadas dele. Tenho a sensação que ainda não entraram no mundo verdadeiro, que têm andado por aí enganadas e que só aqueles que vivem do amor as poderão salvar com o amor que lhes derem mesmo sem elas quererem. Tu dizias-me uma vez que temos que aprender a amar os ricos e os poderosos. O amor não precisa de ser correspondido. A gente ama-os e pronto.»
in O Tecido do Outono, António Alçada Baptista


Imagens: pesquisa do Google



Regresso ao futuro

Muitas vezes, diz-se: nunca regresses a um lugar onde já foste feliz. Mas como não procurar todos os lugares que nos parecem compatíveis com...