segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Épico psicológico







Tomo a liberdade de considerar o filme "A Troca" um épico psicológico.
Eu gosto muito dos filmes de Clint Eastwood (não obstante ser republicano), do estilo formal contido e forte, ao mesmo tempo. Gosto das cores sóbrias com as quais o poder da realidade nos atinge. Mas o que me impressiona verdadeiramente é a profundidade do mundo humano que nos oferece. São sempre filmes do tipo "um certo murro no estômago". Sem qualquer vulgaridade ou masoquismo. Porque o murro não é gratuito, acontece com fundamento. Através de um olhar sério e incisivo lançado sobre as grandes questões da natureza humana, feitas carne e osso nos seus representantes mais anónimos e vulgares (?).

"A Troca" apresenta uma excelente reconstituição de época e, igualmente, excelentes interpretações. A história que lhe deu origem é tão inacreditável quanto verídica. Mas o ponto forte deste filme é a conseguida intenção do seu realizador (na minha óptica): enaltecer princípios éticos e valores morais que andam algo esquecidos no nosso mundo. Existem os bons e os maus no filme, sim, é verdade. Mas os maus são tão humanos quanto os bons. Acontece que estão do outro lado da luta. Porque nela existem posições tão marcadas como num palco de teatro. E este é o palco da vida.

O enredo que poderia ser abordado segundo um qualquer horror banalizado, como muitas vezes acontece, ganha e conquista aqui uma dimensão épica. Pela construção psicológica de personagens fortes, corajosas e lutadoras. A História faz-se também e, talvez, sobretudo pela intervenção do cidadão mais comum, muitas vezes anónimo. Se os ideais de justiça e de solidariedade humana implicam coragem na sua defesa, são muitos os que lutaram por eles sem serem reconhecidos. É que, geralmente, destes cidadãos comuns não reza a história. Mas ela vai-se escrevendo... assim. Entre o individual e o social.
Depois de ver, fica-se a pensar.


Imagens: pesquisa do Google

18 comentários:

Arion disse...

Gostei daquele parêntesis, "não obstante ser republicano". Ninguém é perfeito... A ver se vejo o filme. Beijinho!

contracena disse...

Passo rapidamente, para lhe pedir que dê uma olhada no "contracenar".

Um beijo.

ângela marques disse...

Gostei muito da comparação com as marcações num palco de teatro. Elas são rigorosas.
Já não sei é se concordo com o resto, "o palco da vida". É que às vezes desavenho-me com Shakespeare.

Beijo

contracena disse...

Sorrio com o palco de teatro e o palco da vida.
A vida não é de todo um palco, pelo menos não deveria ser. Mas acredito que muitos representem na vida como se num palco estivessem. Compreendo perfeitamente, se me permite, de dizer que acho natural que a comentadora acima, Ângela Marques, se desavenha às vezes com Shakespeare.

O Filme. Não vi. Mas gosto de filmes que façam pensar, e pelos vistos é o que acontece com este. É engraçado, porque foi precisamente isso que escrevi no perfil relativamente aos filmes preferidos.

Um abraço com tudo de bom.

Menina_marota disse...

Um filme que logo que posso sair de casa (esta malfadada gripe que me atacou nos primeiros dias de Dezembro não me larga) irei procurar vê-lo.
Num cinema, porque há filmes que merecem a pena serem vistos fora do conforto da "sala de cinema" caseira...

Beijinho e grata pela tua partilha.

Ana Paula disse...

Arion: ninguém é perfeito, mesmo! :):):)

Beijinhos!

Contracena: já lá fui e agradeço-te imensamente a simpatia! :):)

Ângela: obrigada pela tua achega! Fiquei a pensar na questão. De verdade.

Bom, sobre ela... e atendendo à resposta da Contracena... para lá dessa problemática, a que coloca a questão de saber se a vida é um palco ou não; ou se a representação acontece apenas quando há essa intenção, num palco criado para o efeito... Na verdade, tivesse eu tempo, gostava de me debruçar um pouco mais sobre o assunto. É bem interessante.

Ainda não me aconteceu uma verdadeira desavença com Shakespeare :) Mas também, nunca mergulhei a fundo nesse domínio.

De facto, a vida não deveria ser uma representação, no que se refere à autenticidade com a qual deve ser vivida. Por outro lado, e foi nesse sentido que o tema me ocorreu (ligado ao filme), há papéis e há posições na vida também. A questão que se me colocou: no filme não há flutuações entre bons e maus. Há um certo maniqueísmo. Mas actualmente, inquieta-me um pouco essa mensagem que fica no ar, a de saber que se tomam posições e depois, ao estarmos nelas, não nos é permitido andar a saltitar de lugar. No filme não há (não pode haver) qualquer complacência para com os maus (e é de se ter?!). Ao ponto de aceitarmos o castigo como justo (é de reparar na questão da pena de morte, que está lá). Mas o tema inquieta-me sobremaneira.
Na verdade, é o grande mérito de um bom filme: fazer pensar, colocar dúvidas e inquietações. É o caso.

Mas também gosto de abordagens à vida mais ligeiras :) Tento não as confundir. Às vezes, falho.

Obrigada Ângela e Contracena :)

daniel disse...

~ Soneto 23 ~

Como no palco o actor que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloquência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa

Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.

William Shakespeare

mié disse...

Também gosto muito de Clint Eastwood. Acompanho-o desde os filmes de "Cawboys" da minha adolescência, e como actor "anti herói" sempre me enterneceu.

Como cineasta é maravilhoso precisamente por abordar uma realidade crua, coberta de paradoxos. Não vi este filme. Estou a lembrar-me de último que revi, "As Pontes de Madison County" que retrata o amor na maturidade da vida. É o amor marcando de forma indelével a vida do ser humano, envolvido pela paixão, que depois de realizado, deixa as suas lembranças para os que sobreviveram a ele. E neste sobreviver, está a sua renuncia, porque a questão dos princípios e valores são o fundamento da ética de Clint Eastwood..
Como dizes e bem "um olhar sério e incisivo lançado sobre as grandes questões da natureza humana, feitas carne e osso nos seus representantes mais anónimos e vulgares"

Os maus são tão humanos quanto o bons :)

E não é assim?

Um beijo

enorme

Frioleiras disse...

Tenciono ir ver..

bjnh..........

Violeta disse...

Já estreou?
Tenho que ir ver.
Obrigada Paula.
bjs

ângela marques disse...

Para já apetece mergulhar neste fabuloso soneto do meu tão amado dramaturgo. Obrigada, daniel, pela parte que me toca.

Ana,
Contracenarei sim, com todo o gosto, mas deixaste matéria a mais:). Eu sí vi ainda um trailer do filme e agora estou interessadíssima em vê-lo.
Beijo

Mar Arável disse...

Gostei do seu post

e dos seus comentários

Na minha verdade

o incerto anda à tona

sem limites

nos palcos da vida real

e talvez por isso desses actores

anónimos

ninguém fala

aquilária disse...

filme que tenciono ir ver, pois também gosto muito do clint eastwood-realizador.

mas vim aqui deixar um abraço bastante atrasado de parabéns. o atraso deve-se ao facto de só hoje ter lido o post que te foi dedicado, no ossian.

via disse...

Um épico muito bem feito, sem dúvida!Já é raro ver bom cinema americano de modo que nunca é demais enaltecer.

Ana Paula disse...

Obrigada, Daniel, pelo maravilhoso soneto de Shakespeare. Uma mais-valia para esta minha pequena apreciação.

Obrigada a todos pela atenção :)

Aeropro Alcochete de Lisboa disse...

Também gosto.
Vou ver.

Donnola disse...

espero ir ver. não gostei do million dolar baby e gostei do bird, por ex. mas concordo com a opinião.

poemar-te disse...

Sim, Clint é enorme, talvez o último mito cinéfifo dos EUA. Ainda não o vi. A ver se a burocruacia educacional o permitir. Tudo de bom