
"(...) hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. (...) O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. (...) Verbo Divino é palavra divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos. (...) e o que entra pelos ouvidos crê-se, o que entra pelos olhos necessita. Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós, e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros."in Sermão da Sexagésima, Padre António Vieira
Alturas há, nas quais poucas leituras conseguem ter o efeito algo hipnotizante que leva a prosseguir, parágrafo após parágrafo, o confronto com o texto. Acontece-me isso, agora, quando a necessidade de lidar com um número extra-ordinário de papéis, palavras, textos, composições, fichas, sínteses, registos, actas, formulários, índices, estatísticas, etc...; quando esta necessidade rodeia a existência diária... acontece-me um esgotamento face à palavra. Quando ela se torna técnica (ainda que também o seja), e perde a sua dimensão ontológica e estética (ainda que não de modo irreversível)... Quando ela se torna uma hiper-construção do mundo... Perante essa súbita invasão, fundida com ecos fortissimos de crise financeira, apresentada de um modo tão mais virtual que real (ainda que realidade concreta); aí acontece viver-se num universo saturado de informação. E o esforço necessário para a reorganizar conceptualmente é a prova cabal de que nos consumimos.
Nada combateu mais o desgaste vivido nos últimos tempos, do que a leitura (solta e descontraída) que tenho feito dos Sermões do Padre António Vieira. Sem qualquer pretensão de estudiosa do autor, admiro-o e recomendo-o como antídoto para qualquer cansaço mais ou menos cerebral, para qualquer momento de maior ou menor desencanto.
Uma pedrada certeira num charco nada límpido e nada claro, mas com a clarividência dos génios. Que o era!
Nada combateu mais o desgaste vivido nos últimos tempos, do que a leitura (solta e descontraída) que tenho feito dos Sermões do Padre António Vieira. Sem qualquer pretensão de estudiosa do autor, admiro-o e recomendo-o como antídoto para qualquer cansaço mais ou menos cerebral, para qualquer momento de maior ou menor desencanto.
Uma pedrada certeira num charco nada límpido e nada claro, mas com a clarividência dos génios. Que o era!



















