segunda-feira, 3 de março de 2008

Olhares



Um passeio à Quinta da Regaleira, tão perto aqui da capital e arredores, pareceu-me ser uma óptima ideia, tanto mais que um grupo de alunos me desafiava há muito para o fazer com eles.
Mas este foi um passeio nocturno, o que suscitava ainda mais curiosidade. Sem grande informação acerca de como decorreria, no que se refere ao facto da visita ser guiada (para não perder, o mais possível, o factor surpresa), não posso deixar de considerar que foi realmente interessante.

Na verdade, percorremos todo o exterior da Quinta. De noite e com iluminação suspensa nas nossas cabeças (diversão...!). Penetrámos nas profundezas do terreno, descemos até ao coração do mundo estranho, oculto e misterioso deste magnífico espaço.
Esperavamos informação sobre toda a simbologia que ornamenta a Quinta da Regaleira a cada passo, mesmo no escuro... Mas, para isso, outra visita terá que ser feita, ao que julgo, de dia!
Este passeio foi um encontro com o ponto de vista da espeleologia... não foi tudo o que queria, mas é verdade, gostei!

Usei um destes, primeiro um a acetileno (modelo utilizado antigamente e ainda hoje, pois revela-se mais eficaz em muitas situações, conforme nos foi explicado), depois um eléctrico. Achei a experiência nova e divertida.
Também foi necessária uma grande dose de exercício físico para percorrer todas as grutas e corredores que levam de umas às outras; por vezes, foi necessário sair para o exterior e caminhar pelos jardins para aceder a outra entrada "cavernosa". Claro que também se subiram e desceram poços, o Iniciático e o Imperfeito. Pernas em acção e olhos muito curiosos, a noite cheia das névoas da serra de Sintra e de luzes a piscar ou fixas a brilhar, enfeitando a atmosfera e a paisagem magnífica.
A excentricidade, fortuna e conhecimento de um homem, aliados da imaginação de outro, recriaram este labirinto artificial, onde o granito foi coberto por uma mistura de cimento e calcário. O trabalho envolvido nesta recriação não deixou de causar espanto e admiração.

Outros aspectos positivos a assinalar:

- A espeleologia merece que lhe dediquemos mais atenção. Implicando espírito desportivo (pelo menos, algum), oferece o contacto com lugares preservados pela natureza e que encerram em si muita informação sobre o passado, quer da espécie humana, quer do nosso planeta.



- A informação que nos foi dada acerca dos morcegos também foi útil e interessante. Pareceu-me igualmente importante. Pudemos ver imagens de diversas espécies de morcegos (há imensas, só em Portugal existem 24!). São realmente feios...! Mas, por incrível que possa parecer, o mundo precisa deles. Acontece que várias espécies estão em perigo de extinção. O problema é que o seu desaparecimento pode perturbar enormemente o nosso ecossistema, uma vez que muitas espécies se alimentam basicamente de insectos (muitos insectos mesmo!). Além destas espécies insectívoras, as quais são a maioria, existem também morcegos que se alimentam de fruta (frugívoros) e outros que sugam sangue (hematófagos). É por causa destes últimos que os associamos aos temíveis vampiros...

Portanto... é verdade, os morcegos fazem falta. Se desaparecerem, uma imensa quantidade de insectos proliferará para lá do número que significa equilíbrio na cadeia alimentar. Além de outros aspectos a considerar, os quais os especialistas podem muito melhor explicar. E que podem vir a ser objecto do nosso interesse.
Uma das principais ameaças para os morcegos é o uso de pesticidas. A destruição dos seus abrigos é outra.

Ainda acerca dos morcegos, é curioso, e mesmo fascinante, o especial sistema de orientação, ou ecolocalização, de que estão dotados e que funciona como um aparelho de radar. Com uma precisão espantosa, podem caçar um insecto qualquer que se encontre no seu raio de acção, mesmo na maior escuridão.



Não pude deixar de alicerçar a ideia de que existem sempre muitos olhares possíveis e diferentes perspectivas sobre as coisas... A Quinta da Regaleira, símbolo de um universo esotérico e carregada de interesse por isso mesmo, tornou-se igualmente interessante a partir de um ponto de vista muito diferente. O que nos foi apresentado foi de carácter bastante científico. Jamais o consideraria como único legítimo. Mas parece-me cada vez mais que é no cruzamento dos olhares que o mundo se enriquece.

Uma ida à Quinta da Regaleira que me fez lembrar uma saída de escuteiros!

Nota: De assinalar que a visita foi guiada pela AES, sobre a qual vale a pena saber mais.

Imagens obtidas a partir de pesquisa no Google


10 comentários:

A estranha disse...

Ena! Passeio nocturno na Quinta da Regaleira! Onde é que eu me inscrevo! Também quero ir!

Um dos meus sítios favoritos... E anda por aqui uma música que também me agrada por demais...


Muitos Beijos!

alice disse...

não me irei esquecer de visitar a quinta da regaleira assim que possível, mas a missão da minha visita de hoje é mais urgente, ana paula, preciso de saber que instrumento gostas de tocar. fico à espera da resposta. um beijinho.

manhã disse...

Ainda não fui visitar mas já lá fui ver uma peça de teatro, nos jardins. mas aguçaste a curiosidade.bjo

isabel mendes ferreira disse...

bom dia "escuteira das palavras" com begónias e avencas...:)

texto que arrasa qualquer ignorante...( eu, claro.).

.


ler-te é ficar mais perto. seja das quintas seja dos vales.

um verdadeiro piquenique ma ilha dos amores.


.

obrigada.

.

beijoS.

Bandida disse...

deve ter sido fantástico!! há alguns anos fiz umas experiências destas e foi um caos absolutamente espantoso, aparatoso, gostoso, choroso, e afins. mas valeu a pena!


e ali ao lado o Cesariny... que é tão preciso!!


beijo AP

MiE disse...

Nunca lá fui de noite, mas deve ser uma experiência interessante.

Interessante saber, mas os morcegos são mesmo feios e estranhos...fazem-me umas tangentes aqui, quando estou lá fora ao lusco-fusco. Comem insectos estes.

Um beijinho

Fica bem

Klatuu o embuçado disse...

De noite é muito mais fixe. Já lá fiz umas fotos bem porreiras.

Dark kiss.

Presença disse...

Convenceste-me e ainda mais com a excelente conjugação... noite e exploração!

Bjo grande

peregrino disse...

A noite soltara-se da penumbra do crepúsculo e escorria agora infrene e sem ponteiros, como no primeiro caos, despejando a sua atrabile pelo desfiladeiro de arestas aguçadas e imóveis da escuridão. O quarto de Lua, na constelação do Serpentário, há muito se sumira nas janelas fechadas do ocidente, não sem antes ter permitido aos visitantes a visão fantasmagórica de um palácio vestido de negro, com várias torres pontiagudas fendendo o céu como setas de pedra.

Uma estranha poalha cobria as estrelas, pontos desmaiados, quase moribundos, esculpidos na Abóbada.

De repente, ouviu-se a voz de um dos jovens: “A etérea Abóbada vemo-la todos os dias… e se acendêssemos as lanternas de acetileno e penetrássemos nas grutas labirínticas deste "draculiano" sítio? Ouvi dizer que vampiros não faltam” – estas últimas palavras disse-as a medo, acabando por dar um grito estridente, quando um enorme um morcego vindo das profundezas da terra, através de um poço cavado em espiral sobre a rocha, roçou com as suas de veludo o seu rosto…



Gostei do passeio e da sábia mestria com que o descreveste.

Obrigado.

isabel victor disse...

"Uma ida à Quinta da Regaleira que me fez lembrar uma saída de escuteiros!"

Sugestiva, a tua descrição !

Adorei a ideia. Gostava ...


Deixo-te um Beijo

IV