domingo, 24 de fevereiro de 2008

Aletheia


Talvez do tempo cronológico e metereológico. Talvez da necessidade de renovação. Talvez da reflexão, inquietação, reparação e recuperação. Talvez de nada. Talvez de tudo.
Ocupada na visualização dos simulacros que fazem o mundo. E querendo ver para lá deles. Afastar a cortina ou o véu que encobre a realidade. E olhar a verdade.

Para os antigos gregos, a verdade ou aletheia estava sempre oculta. Todo o trabalho humano consistia em desocultá-la ou desvelá-la. A sua perspectiva acompanha-me... Consigo começar a ver... primeiro os contornos vagos e indefinidos... Depois, muito claros. Muito claros e precisos. Obrigada, Grécia Antiga.

Não posso dizer o que vejo. O problema do discurso também se coloca. Mais do que ele, o do pensamento. A formação do conceito, o âmbito da definição, a validade do raciocínio. Tudo converge para abandonar a dificuldade inerente. Restam as ilusões.

Quando se afasta a cortina, o véu da ilusão... o qual até desejamos que nos coloquem à frente... vê-se algo... O que vejo. Teme-se que não seja o mesmo que outros vêem ou poderiam ver.
Para que a visão fosse uma única, seria necessário fazer deste processo uma ciência.
Infelizmente, tenho pouco tempo para a ciência. Mas era esta a ambição dos antigos gregos. E a minha. Dado que a alternativa é o caos, suponho que se trata de uma nobre ambição. Será esta, no fundo, a história do mundo. Abreviada, é claro.

Pode a verdade ser caótica e bem mais ambiciosa. E a história do mundo, um outro mundo.





Imagem: Butterfly de Mark Grotjahn


10 comentários:

Presença disse...

Desconhecia... de todo esta verdade... em locus.

bjo doce
boa semana

@zulebranco disse...

Parece-me mesmo e após a descoberta deste mui bem composto blog vou ser um frequentador assíduo pois este bom gosto. de fazer e saber pensar são algos raros de encontrar....A música também de gosto notável, e muito atraente...(já alguém me dizia que música é JAZZ o resto é sucedáneo que pode ser bem ou mal tratado),
Parabéns e continua pois gosto mesmo....Sorriso grande para ti

Luís Galego disse...

Não posso dizer o que vejo.


mesmo sem querer a mensagem transpirou, de modo delicado!!!

alice disse...

ana paula, tive o privilégio de ouvir esta música na sua playlist que vou acompanhando no imeem :)

gostei muito de a encontrar aqui com este interessante texto. um grande beijinho.

e-ko disse...

afastar os véus que nos impedem de ver ou nos protegem da verdade... dilema! é, como olhar o sol, sem protecção, o risco de perder a visão ? ou um exercício de lucidez que nos isola e condena ao silêncio ?

a minha solução é dançar com os véus, a luz e todas as expressões oblíquas da verdade e das verdades...

bom fim de semana. beijo.

isabel victor disse...

"a verdade ou aletheia estava sempre oculta. Todo o trabalho humano consistia em desocultá-la ou desvelá-la"

_________________________

A "verdade" de cada um ...

:))

Bj* Ana Paula

0.03 disse...

"Provavelmente, a dificuldade em aceder aos labirintos profanos, pessoais e sociais, leva alguns de nós a interessar-se por estas versões mais metafísicas. Leva-nos para esta dimensão intuitiva, um pouco acima e abaixo da realidade quotidiana. Quem sabe na esperança de que quando percebermos estes mapas metafísicos elles nos irão servir para nos guiar na realidade palpável que nos rodeia.

Esta sempre foi a minha intenção ao debruçar-me sobre estas dimensões intuitivas e oníricas; aceder de algum modo a mapas mais profundos do que os mapas da estrada, do que os mapas e as as receitas de boas maneiras e de boa educação, do que os mapas sociais explícitos de sobrevivência e vivência.

Até porque as pessoas e as situações que sempre me fascinaram, e nas quais quero entrar e passear, são sempre tão complexas, tem coisas de tanto valor dentro delas, e existem tantas possibilidades de nos perdermos dentro delas, que se assemelham de facto a labirínticos caminhos. às vezes são labirintos verdejantes ao ar livre, é primavera, e existem pássaros.

outras vezes são criptas labirínticas, debaixo de terra ou dento de mausoléus milenares."

isabel disse...

a evidência. só evidente para o próprio, a maioria das vezes.

e não é isso mesmo que nos alarga os "horizontes"?

beijo Ana Paula

intruso disse...

"Todo o trabalho humano consistia em desocultá-la ou desvelá-la"

árduo e utópico
(mas inevitável também)


bjs

A estranha disse...

Acho que te entendo... Também a mim a dificuldade do discurso se impõe nesta questão. Para ser franca, acho que mais de metade dos posts do meu blog andam à volta desta emergente questão.

Convenço-me que a verdade não sendo caótica só pode ser encontrada no fluir caótico. Só indo nessa corrente incerta é que vemos os véus que caem...

Beijos, adorei este teu texto!