segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Catharsis musical para 2009


À medida que 2008 vai ficando para trás, começo a sentir a nostalgia habitual da "viagem" pelo que foi... O carácter absolutamente convencional destes festejos; a obrigatoriedade de contar os minutos para a meia-noite, como se pós-esta hora tudo se modificasse... confesso que já não me diz muito. Mas compreendo o espírito de festa e a celebração de um novo ano.

Parece-me interessante reflectir sobre o significado desta fugaz mas irreversível transição: como a vivo hoje é mais enquanto projecção comum da humanidade num futuro de incógnitas, de receios, mas também de esperanças e de crenças. No entanto, isto é aquilo que acontece todos os dias, todas as horas. A marca da passagem do tempo é constante. Escolhemos uma meia-noite especial, situada num ponto-limite de um calendário que também adoptámos solenemente. E nela depositámos a fé de que tudo muda ali, naquele instante. Mas o certo é que não muda por magia então. Vai mudando sempre. Pelas nossas mãos.

Mas as datas são importantes para construir a história. E, portanto, eis-nos a deixar para trás 2008. Abrimos os braços a 2009!
Na contagem decrescente destes últimos dias de Dezembro, uma frase veio-me à memória. Não sei porquê. Mas insiste em aparecer-me: "A sorte protege os audazes". É pois com Virgílio, e com este seu verso da Eneida, que 2009 se me apresenta. Desde esse outro tempo longínquo, até aos dias de hoje, construímos um caminho. Tortuoso, sem dúvida, mas que ainda não chegou ao fim.
Não sabemos que sorte nos reserva 2009, mas é preciso ter coragem para receber o Novo Ano e continuar este percurso... Acreditando que a nossa audácia será protegida pela sorte! A mesma audácia que é preciso ter para dar corpo a esta expressiva interpretação musical!

Bom Ano Novo!




domingo, 21 de dezembro de 2008

Era uma vez uma estrela...






Dizem que é Natal
Mas que é da menina de olhos brilhantes?
Olhando a estrela espera...
Coração apertado inquieto
Aguarda

Dizem que é Natal
E é?
É dia é hora de realizar os sonhos
Que sonho que hora?
O eco da paz da amizade de outrora
E nada é vão se agora
Não nos formos embora
Estendermos a mão
À menina com coração

Ou ao menino ao senhor à senhora
Importa aqui ficar
E ver a estrela brilhar
Nas mãos de todos


Boas Festas para todos!


segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Frio: coruja do Ártico


Com o frio que tem feito... eu que o acho lindíssimo de uma forma inexplicável, julgo que em parte por trazer consigo a brancura da neve, e mesmo do gelo, este com a sua transparência... apesar disso, prefiro infinitamente mais as temperaturas amenas. Enfim, posso afirmá-lo, prefiro climas quentes. Vantagens e desvantagens há-as sempre, num caso e noutro.

Mas os ambientes inóspitos das imensidões geladas revelam-se capazes de dar origem a pequenas maravilhas da natureza. É o caso desta Coruja do Ártico ou Coruja das Neves. Parece que é também a coruja do Harry Potter.



Achei-a tão especial no seu traje branquinho salpicado a negro! E apesar do frio, próprio dos lugares onde vive naturalmente, dá a sensação de se sentir muito confortável.

Na verdade, é linda! Fiquei com um pouquinho de inveja... mas, sobretudo, senti admiração!



terça-feira, 9 de dezembro de 2008

António Alçada Baptista


Nem sempre todos os que o merecem são recordados. Mas alguns são-nos particularmente caros. Especiais porque possuem um significado marcante na nossa vida.
Assim me acontece com António Alçada Baptista (1927-2008), cujo desaparecimento não posso deixar de assinalar e registar.

Já lá vai algum tempo... quando eu, jovem adulta, descobri os seus livros pela mão de uma grande amiga de sempre. Em conjunto, chegámos a fazer uma espécie de mini-clube de leitura. Debatíamos passagens e atribuíamos significados a acontecimentos presentes nas narrativas... escolhíamos frases que repetíamos interiormente vezes sem conta com prazer. A delicada profundidade da sua escrita fazia as nossas delícias. Era a sensação de sermos compreendidas. A intuição inexplicável de que alguém, algures, partilhava os nossos sentimentos, os nossos afectos, as nossas reflexões. Preferidos foram, "Catarina ou o Sabor da Maçã", "Os Nós e os Laços" e "O Tecido do Outono", entre outros.

Mas o traço mais forte da sua escrita, aquele que nunca deixou de me admirar e que jamais poderei esquecer, é o de um imenso e poderoso sentido de humanidade. Um olhar tão fraterno e humano!, pelo qual este Outono fica marcado, depois de António Alçada Baptista partir para outro lugar. Fica o desejo de o procurar mais, de o conhecer mais, de o admirar mais, de o recordar mais, mas, sobretudo, a vontade de o ler mais...

Até sempre, caríssimo! Ler-te é um acto sério, e um imenso prazer!

«Não é possível contar esta história sem que, uma vez por outra, coisas como a solidão e a morte aflorem às linhas da escrita, mas vou fazer o possível para escrever tudo isso sem solenidade. É que, a certa altura, a vida é outra e o próprio passado não é bem aquilo que a gente viveu porque, em cada tempo, há uma forma de olhar, e aquilo que vivemos não está no mundo, está na maneira como olhámos para ele.
É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso. São coisas destas que me levam à convicção de que a vida para que somos feitos não é, de modo nenhum, aquela que andámos a viver. Em rigor, o nosso destino poderia parecer trágico: por um lado, caminhamos inexoravelmente para a solidão, por outro, temos como futuro o esquecimento. Tenho muito a convicção de que somos seres em formação, pois o projecto humano não aponta para aqui. Penso é que ele nos vai sendo revelado por pequenas nostalgias de coisas ainda não vividas, que se exprimem por intuições avulsas e, apesar de tudo, pelo halo poético do mundo, que seria mais visível se acertássemos a maneira como olhamos para ele. Depois também há, felizmente, aqueles que já nasceram mais à frente no caminho do futuro. A consciência da complexidade do viver leva-me a pôr de parte as amarguras e as melancolias metafísicas. Por um lado, sinto que o tempo e o universo me olham com indiferença e distância e que, para eles, a minha história pessoal poderá ser considerada como a daqueles pobres que eu vi a dormir, lado a lado, ao longo dos passeios de Bombaim, quando, uma noite, seguia de táxi para o aeroporto da cidade. Por outro, tenho a simultânea convicção de que tudo o que é importante se forma a partir da consciência da nossa história pessoal, por mais pobre e monótona que ela seja.»

«Às vezes estou tentado a pensar que um povo pobre, assente sobre a força de um texto sagrado, nos pode dar mais sossego e serenidade do que as descobertas do progresso. Isto pode ser verdade mas sinto simultaneamente de que não é o que está inscrito no projecto humano. Não vale a pena zangarmo-nos com a nossa própria impotência porque nada se resolve com palavras. Porque a gente chega a um ponto donde pode ver alguma coisa através das ideias, das crenças e dos símbolos. É verdade que são expressões naturais da vida mas, contrariamente ao que pretendem, não compreendem nem explicam a vida.»

«Tenho dificuldade em dizer que perdi a fé mas tenho também que confessar que aquilo que me prendia a Deus era precisamente o medo, o "temor de Deus", porque o Deus que me ensinaram metia muito medo à gente. Não quis encarar de frente essa realidade mas não há dúvida que eu tinha sido feito a poder de interditos, de culpas, de perdões.
Estou certo de que a minha maior tentação foi a da razão, que não parava de pôr em questão tudo aquilo que eu vivia e me provocava a simultânea incapacidade de aderir seja ao que for. É disto que se faz um céptico: o que não se sente capaz de acreditar senão naquilo que vê e pode conhecer com as suas próprias mãos. (...) O meu problema é que eu, no fundo, não acreditava em nada: era só fiar-me na palavra "deles" e "eles" diziam coisas que a minha cabeça começava a recusar. Não há dúvida: eu estava a cair na armadilha do conhecimento racional.
Aqui, em rigor, eu deveria ter deixado a Igreja, mas acontece que o peso dos sentimentos impedia que eu passasse à prática os ditâmes da razão.
(...) A minha inquietação vinha desta luta interior entre a minha razão que me mandava sair, e o medo, que não me deixava abrir a porta para a rua.
Depois, tomei consciência de que o mundo da fé, como tudo o que por aqui se passa, estava profundamente ligado ao mundo dos afectos. É que, a par de todas as dúvidas levantadas pela razão, havia outras coisas: uma ânsia de generosidade e de estar solidário com os outros que implicava a existência de grandes fraternidades.
(...) Como vêem, nada disto era tão simples como "eles" queriam que fosse. Tudo fazia parte do mundo da complexidade de quem suspende a segurança da menoridade e vai descobrindo que a vontade de Deus é que a gente deve principiar por saber quem somos.»

«Porque este processo de sedução é longo e corresponde, muito possivelmente, à passagem de uma certa adolescência - que muitos teimam em viver até à morte - e à desejada serenidade que alcançaremos no dia em que conseguirmos fazer as pazes entre tudo o que está dentro de nós. Eu diria até que é nesse momento que se faz a passagem de um Superego para uma consciência responsável. Porque um Superego tem muito que ver com o tal código de uma tribo, e a consciência, por sua vez, é uma autonomia que nos permite fazer os nossos próprios juízos e as nossas próprias leis. Todo este processo é sobretudo muito longo e gerado à custa de muita dor porque são muito fortes as leis que nos acolheram e que muitos insistem, entre medos e ameaças, em dizer que são imutáveis, como se não existisse o movimento do mundo. E, sobretudo, elas são a base da nossa segurança. Mas a verdade é que, só depois de atravessar tudo isto, é que a gente começa a viver.
Estas coisas, que hoje me enternecem, naqueles tempos empolgavam-me porque eram aquilo a que chamavam "viver numa digna e nobre angústia".»

«Não tenho medo da morte porque a vida eterna não começa depois da morte. Começa aqui na terra, perante a escolha que fazemos de acompanhar com amor as alegrias e as tristezas dos outros. Deus não terá que nos julgar. O julgamento é feito todos os dias perante aquilo que andamos a fazer. Também não me impressiona morrer sem compreender o que é Deus. Se eu O compreendesse é porque não era Deus.»

«Vou escrever-te mais um bocadinho. É que me faltava dizer-te que gostei muito da vida apesar de ter visto tanto sofrimento. É que vi muitas provas de amor. O nosso, o que os outros me tiveram, o que pude ter pelos outros. Isto dá-nos esperança para saber que é possível um mundo de amor. Vivi só para esse mundo e nenhum outro me interessa. Fico espantada quando penso nas pessoas que vivem completamente desligadas dele. Tenho a sensação que ainda não entraram no mundo verdadeiro, que têm andado por aí enganadas e que só aqueles que vivem do amor as poderão salvar com o amor que lhes derem mesmo sem elas quererem. Tu dizias-me uma vez que temos que aprender a amar os ricos e os poderosos. O amor não precisa de ser correspondido. A gente ama-os e pronto.»
in O Tecido do Outono, António Alçada Baptista


Imagens: pesquisa do Google



domingo, 30 de novembro de 2008

Da cegueira ou "ser humano não é fácil"


Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
Livro dos Conselhos



Gostei do filme de Fernando Meirelles, embora a luz branca e azul, metálica, invadisse toda a atmosfera, ofuscando-a. O que gerou o intenso contraste com os raros momentos de humanidade, quando os tons quentes conseguiam penetrar nos contornos das imagens.
Mas nada nestes instantes humanos cede ao facilitismo. Nada fica sem alerta para a beleza ou para a bondade fáceis. Nada fica escondido do olhar do próprio que procura "ver". "Ver-se". Após cada momento de depuração, o que resta de humanidade é pouco, surpreendentemente pouco. Embora inabalável.
Ser humano acontece ser difícil. Somos um processo ainda e sempre em (re)construção...

Um filme duro a partir de um livro obstinadamente duro. Um desafio da consciência para a consciência ( humana?).

Após ver o filme, releia-se o livro. Por exemplo:

«Quando eles se afastaram para irem cobrar o salário da vergonha, como o primeiro cego protestara com retórica indignação, a mulher do médico disse às outras mulheres, Fiquem aqui, eu já volto. Sabia o que queria, não sabia se o encontraria. Queria um balde ou alguma coisa que lhe fizesse as vezes, queria enchê-lo de água, ainda que fétida, ainda que apodrecida, queria lavar a cega das insónias, limpá-la do sangue próprio e do ranho alheio, entregá-la purificada à terra, se ainda tem sentido falar de purezas de corpo neste manicómio em que vivemos, que às da alma, já se sabe, não há quem lhes possa chegar.»

«O senhor é escritor, tem, como disse há pouco, obrigação de conhecer as palavras, portanto sabe que os adjectivos não nos servem de nada, se uma pessoa mata outra, por exemplo, seria melhor enunciá-lo assim, simplesmente, e confiar que o horror do acto, só por si, fosse tão chocante que nos dispensasse de dizer que foi horrível, Quer dizer que temos palavras a mais, Quero dizer que temos sentimentos a menos, Ou temo-los, mas deixámos de usar as palavras que os expressam, E portanto perdemo-los, (...)»

«Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.»
in José Saramago, Ensaio sobre a cegueira

Espero ter visto o filme, olhando e reparando...


Imagem: pesquisa de imagens do filme no Google


quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Um livro: Al-Tayyeb Salih




«Quão belo e bem moldado é o teu volante, assente no aço
Até Sitt Nafour, esta noite, ninguém cede ao cansaço.»

"Caros senhores, peço-vos que não suponham que o Mustafá Saíd se tinha transformado numa obsessão que me acompanhava em todos os meus gestos. Por vezes, passavam meses sem que me ocorresse tão-pouco que ele tinha morrido afogado, ou que se tinha suicidado, só Alá o sabe. Milhares de pessoas morrem todos os dias. Se nos ocupássemos das razões da morte de cada um e do modo como morreram, o que nos aconteceria a nós, os vivos? A vida prossegue, quer queiramos quer não. Eu, tal como milhões de outros homens, prosseguia. Avançava, na maior parte dos casos, mercê do hábito, numa longa caravana de camelos que subia e descia, que se detinha e, de novo, partia. E a vida, nesta caravana, não era inteiramente má. Vós sabê-lo-eis, sem dúvida alguma. A viagem poderá ser árdua, durante o dia. Os desertos estendem-se, à nossa frente, como mares sem costa. O suor cobre-nos o rosto. As gargantas secam-se de sede. Atingimos o limite para lá do qual julgamos não ser possível avançar mais. E, então, o Sol põe-se e o ar arrefece. Milhões de estrelas fulguram no céu. Nesse momento, comemos e bebemos, e o cantor da caravana começa a cantar. Alguns de nós rezam, atrás do shaykh. Outros formam círculos, dançam, cantam e batem palmas. Sobre nós há um céu quente e aprazível. E, por vezes, viajamos durante a noite, durante tanto tempo quanto nos agradar. E quando a linha branca se separa da linha negra, dizemos: «Quando a manhã nasce, os homens congratulam-se por terem caminhado de noite.» Ainda que, por vezes, as miragens nos ludibriem e pensamentos destituídos de verdade e clareza atravessem a mente febril, pelo efeito do calor e da sede - os espectros da noite dissipam-se com a aurora e a febre do dia arrefece com a aragem da noite. Haverá outro modo de ser, diferente deste? Era assim que eu passava dois meses de todos os anos, nessa aldeia pequena, junto à curva do Nilo."

Um livro que nos traz o grande exotismo de uma região atravessada pelo rio Nilo: o Sudão. A magia dos lugares onde África se mistura com o mundo árabe. Contrastes culturais experimentados por um Mustafá e por um narrador, ambos tendo estudado em Inglaterra.
Mas este exótico e rico universo cultural é o de uma região dominada pelos mais graves problemas: instabilidade política, confrontos culturais e religiosos; e a vivência tenebrosa da Fome. Um lugar que é também o Darfur.

Na edição da Cavalo de Ferro pode ler-se:

"Considerado o romance árabe mais importante do século XX, «Época de Migração para norte» é uma obra polémica e ainda proibida em diversos países do Médio Oriente e de África."

"Esta obra faz parte da Série de Obras Representativas da Humanidade escolhidas pela UNESCO."

Imagens: pesquisa do Google (clicar no mapa para aumentar)




segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Paul Auster



Gosto muito dos livros de Paul Auster. Já há muito tempo que gosto. Há um primeiro Paul Auster com livros inesquecíveis, para mim. Há também um segundo, com uma escrita bem mais amadurecida e que assinala a evolução de uma literatura sempre renovada e transformada. Com as marcas inconfundíveis, e cada vez mais enraízadas, do seu universo. No qual apetece "mergulhar" recorrentemente.

Para quem gosta do autor, está aí a tradução portuguesa do seu último livro:
"Homem na Escuridão".

Paul Auster está em Portugal: acompanhar aqui

Em jeito de homenagem, um excerto de "Cidade de Vidro" - sem dúvida, um dos meus predilectos:

«O que apreciava nesses livros era a sua sensação de plenitude e economia. Numa boa história de mistério nada é desperdiçado, todas as frases ou palavras são significativas. E mesmo que não sejam significativas, têm a potencialidade de o serem - o que vai dar ao mesmo. O mundo do livro ganha vida, fervilha de possibilidades, segredos e contradições. Dado que tudo é visto ou dito, mesmo a coisa mais ínfima ou mais trivial pode ter uma ligação com o desfecho da história, e por conseguinte nada deve ser descurado. Tudo se transforma em essência; o centro do livro altera-se com cada acontecimento que o impele para a frente. O centro está portanto em todo o lado, e só se pode desenhar uma circunferência quando o livro chegar ao fim.

O detective é aquele que olha, que escuta, que se move através de um pântano de objectos e acontecimentos em busca do pensamento, da ideia que associará estas coisas e lhes conferirá um significado. Com efeito, o escritor e o detective são intermutáveis. O leitor vê o mundo através dos olhos do detective, experiencia a proliferação dos seus pormenores como se fosse pela primeira vez. Torna-se consciente das coisas que o rodeiam, como se elas pudessem falar-lhe, como se, devido à atenção que agora lhes dedica, elas pudessem começar a veicular um outro significado que não o simples facto da sua existência. Private eye. Detective privado - olho privado. Este termo tinha um significado triplo para Quinn. (...)»
in Paul Auster, A Trilogia de Nova Iorque

Imagem: pesquisa do Google


quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Anti-formigas


Hoje, deu-se um acidente à minha porta. Na estrada, atravessando fora da passadeira, uma mulher ainda jovem foi parcialmente colhida por um carro. O condutor apitou no momento em que lhe batia. E seguiu a sua viagem, dominado pela velocidade vertiginosa que imprimiu à viatura. Não parou, não ofereceu ajuda, seguiu... como se tivesse pisado uma formiga.

O acontecimento, que por mera coincidência pude presenciar, foi muito rápido! Ninguém, eu incluída, fixou a matrícula do automóvel. Os olhares convergiram de imediato na mulher ali caída. Desde logo, chorava e queixava-se de muitas dores. Tive oportunidade de testar a minha humanidade. Cheia de pressa e afazeres, parei e fiquei por ali, dando algum apoio com palavras calmas e (talvez) um pouco reconfortantes. Telefonei a pedir ajuda. Claro que não fiz nada de especial. Era o mínimo. Outras pessoas também ficaram para ajudar e apoiar. No entanto, a ajuda era escassa. Não podíamos fazer rewind neste pequeno filme, e fazer com que aquela mulher pudesse continuar a sua luta diária. Ia a correr para o local de trabalho... Não podíamos viver a sua dor e toda a sua vida transtornada, no lugar dela. Nem quereríamos tal. Não seríamos certamente capazes de tanto.

Fiquei a pensar... e todo o resto do dia ficou a sensação estranha e revoltante de podermos ser apenas umas formigas uns para os outros. Vezes demais!
Eu gostaria de ter perguntado ao condutor daquele carro: «Diga-me... afinal, somos humanos ou somos formigas?!».
Acho que ele ficaria a rir-se de mim. Porque na ordem cósmica do universo, é certamente muito menos do que uma formiga!! Elas não páram, seguindo o seu programa genético pré-definido e fechado. Aquela pessoa, conscientemente, com capacidade de escolha e de decisão, optou por ficar abaixo do comportamento de uma formiga. Porque viu num(a) outro(a) aquilo que de facto é ele que é.

E as formigas até são bem interessantes! Ao contrário de certos seres "humanos".



Este pequeno vídeo é um excerto do filme "Waking Life" de Richard Linklater


Imagem: Moebius Strip II-Ants de M.C. Escher


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Momentos filosóficos - 1


Em tempos onde a sociedade da informação nos presenteia diariamente com sinais negativos, nada melhor, para radicalizar efectivamente o estado do mundo, do que uma reflexão com Schopenhauer (1788-1860, Alemanha).
A propósito do filósofo, há que abordar, no mínimo, e ainda que superficialmente, o seu célebre pessimismo. Sendo que, na sua perspectiva, tudo está ligado ao papel da vontade. Pessimismo e vontade, portanto.
Vontade de quê? - poderemos começar por perguntar. Vontade de viver. Tão simples quanto isso. Dirá Nietzsche (mais tarde) : vontade de poder. Estamos assim numa linha onde se afirma o irracionalismo dos acontecimentos do mundo, do próprio ser humano e da sua vida. Abandona-se a pretensão de que será possível explicar racionalmente o decurso dos acontecimentos, na medida em que eles possuam intrínsecamente tal racionalidade. A nobre tarefa, de acordo com muitos, consistiria em desvelar esse carácter racional da vida e do mundo. Mas, para Schopenhauer, isso seria um objectivo completamente desajustado: o Mundo é apenas Vontade (e Representação - ao que não me refiro directamente aqui e agora).

O pessimismo de Schopenhauer reside na afirmação de que, aconteça o que acontecer, faça-se o que se fizer, seremos sempre dominados pela vontade. Ou seja, pelas nossas visões e desejos "interessados" e pessoais. Individuais. Egoístas. Pela vontade não é possível ir mais além, ultrapassar o domínio dos seus próprios limites, alcançar um outro patamar de realização da humanidade. Também não defendeu a existência de Deus para possível consolo. Mostrou o ser humano abandonado a si mesmo numa antecipação da filosofia existencialista.
Mas existe alguma forma de escapar desta limitadora e fatal vontade, elevando-a? Sim, há vias de libertação. Pelas artes e, em especial entre elas, pela música, cópia da própria vontade.

«Todas as aspirações da vontade, tudo o que a estimula, todas as suas manifestações possíveis, tudo o que agita o nosso coração, tudo o que a razão classifica sob o conceito amplo, e negativo de "sentimento" pode ser exprimido pelas inumeráveis melodias possíveis; (...). Por conseguinte, poderíamos designar o mundo tanto por uma incarnação da música quanto por uma incarnação da vontade, e compreendemos então imediatamente como é que a música empresta a todo o quadro, a toda a cena da vida ou do mundo real um significado mais elevado, e isto, com tanta mais intensidade, quanto mais íntima for a analogia entre a melodia musical e o fenómeno presente.»

in O Mundo como Vontade e Representação, Arthur Schopenhauer



Mas este modo de escapar é ainda demasiado efémero. A verdadeira saída para o sofrimento que a vontade constantemente provoca (pela carência na satisfação de desejos permanentemente renovados); a única saída efectiva consiste na sua própria anulação, na sua ausência. Mas isso implicaria a morte. É possível, no entanto, alcançar um estado alternativo de serenidade, de ausência de desejo e de vontade. O caminho é o da reflexão, o da meditação, o da renúncia ao corpo (experiência do Nirvana), lugar no qual o mais individual se revela, e sede da vida no seu sentido mais íntimo e radical. Esta solução resulta de princípios característicos das filosofias e das religiões orientais, tais como o budismo, das quais Schopenhauer assumiu a influência.

Parece-me que alguma reflexão e meditação são benéficas. Estou certa de que a música é essencial para a felicidade. E a via ascética não deixa de me seduzir algumas vezes. Compreendo o pessimismo do filósofo. Reconheço-lhe o brilhantismo e a genialidade das ideias, que serão retomadas, ainda que com outros contornos e nuances, e com outras orientações, por Nietzsche, por Bergson, e até mesmo por Freud. Não sou, no entanto, asceta e seguidora da filosofia de Schopenhauer. Também não sou voluntarista, no sentido filosófico do termo. As classificações generalistas podem ser muito úteis, mas são sempre redutoras. O que se impõe é reconhecer o mérito deste seu pessimismo. Há que conceder que foi brilhante o modo como escreveu e como pensou em busca da verdade. Um prisma de infinitas faces, talvez seja a verdadeira essência do mundo e da verdade. Neste caso, mostra-se a face da Vontade. Nem sempre bela.

Apesar da força das suas ideias, a filosofia do pessimismo radical encontrou-se num beco sem saída (uma verdadeira contradição nos termos) : a renúncia voluntária só pode ser em si mesma um acto de vontade. Pressupondo que a anulação da vontade seja um processo, e não obra de um mágico instante qualquer, a vontade (de renunciar) teria que estar sempre presente.
Hegel foi o principal alvo da sua crítica, muitas vezes injusta. O trabalho crítico pode ser demolidor. Pode ser também não sistemático e traduzir problemáticas vincadamente pessoais, quer dizer, traduzir o domínio da vontade, individual e subjectiva. Schopenhauer tomou Hegel como inimigo visceral, em grande parte porque todos corriam a ouvir o seu adversário filosófico, enquanto poucos apareciam para o ouvir a ele. Situação largamente provocada pelo facto de ter marcado as suas lições exactamente para a mesma hora, em Berlim. Aspectos biográficos interessantes, relacionados certamente com a sua brilhante tematização do papel da vontade na vida humana...

É por estas (e por outras) que gosto de filosofia!


Imagens: pesquisa do Google


Regresso ao futuro

Muitas vezes, diz-se: nunca regresses a um lugar onde já foste feliz. Mas como não procurar todos os lugares que nos parecem compatíveis com...