quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Um livro: Al-Tayyeb Salih




«Quão belo e bem moldado é o teu volante, assente no aço
Até Sitt Nafour, esta noite, ninguém cede ao cansaço.»

"Caros senhores, peço-vos que não suponham que o Mustafá Saíd se tinha transformado numa obsessão que me acompanhava em todos os meus gestos. Por vezes, passavam meses sem que me ocorresse tão-pouco que ele tinha morrido afogado, ou que se tinha suicidado, só Alá o sabe. Milhares de pessoas morrem todos os dias. Se nos ocupássemos das razões da morte de cada um e do modo como morreram, o que nos aconteceria a nós, os vivos? A vida prossegue, quer queiramos quer não. Eu, tal como milhões de outros homens, prosseguia. Avançava, na maior parte dos casos, mercê do hábito, numa longa caravana de camelos que subia e descia, que se detinha e, de novo, partia. E a vida, nesta caravana, não era inteiramente má. Vós sabê-lo-eis, sem dúvida alguma. A viagem poderá ser árdua, durante o dia. Os desertos estendem-se, à nossa frente, como mares sem costa. O suor cobre-nos o rosto. As gargantas secam-se de sede. Atingimos o limite para lá do qual julgamos não ser possível avançar mais. E, então, o Sol põe-se e o ar arrefece. Milhões de estrelas fulguram no céu. Nesse momento, comemos e bebemos, e o cantor da caravana começa a cantar. Alguns de nós rezam, atrás do shaykh. Outros formam círculos, dançam, cantam e batem palmas. Sobre nós há um céu quente e aprazível. E, por vezes, viajamos durante a noite, durante tanto tempo quanto nos agradar. E quando a linha branca se separa da linha negra, dizemos: «Quando a manhã nasce, os homens congratulam-se por terem caminhado de noite.» Ainda que, por vezes, as miragens nos ludibriem e pensamentos destituídos de verdade e clareza atravessem a mente febril, pelo efeito do calor e da sede - os espectros da noite dissipam-se com a aurora e a febre do dia arrefece com a aragem da noite. Haverá outro modo de ser, diferente deste? Era assim que eu passava dois meses de todos os anos, nessa aldeia pequena, junto à curva do Nilo."

Um livro que nos traz o grande exotismo de uma região atravessada pelo rio Nilo: o Sudão. A magia dos lugares onde África se mistura com o mundo árabe. Contrastes culturais experimentados por um Mustafá e por um narrador, ambos tendo estudado em Inglaterra.
Mas este exótico e rico universo cultural é o de uma região dominada pelos mais graves problemas: instabilidade política, confrontos culturais e religiosos; e a vivência tenebrosa da Fome. Um lugar que é também o Darfur.

Na edição da Cavalo de Ferro pode ler-se:

"Considerado o romance árabe mais importante do século XX, «Época de Migração para norte» é uma obra polémica e ainda proibida em diversos países do Médio Oriente e de África."

"Esta obra faz parte da Série de Obras Representativas da Humanidade escolhidas pela UNESCO."

Imagens: pesquisa do Google (clicar no mapa para aumentar)




5 comentários:

Violeta disse...

«Quando a manhã nasce, os homens congratulam-se por terem caminhado de noite.»
Lindo.
Adorei.
Olha vou comprar o livro!

RAA disse...

Gostei muito do excerto, despertou-me a curiosidade. :|

daniel disse...

Para que conste que o mundo árabe não desaparece entre as cinzas do terrorismo, mas antes, renasce pela força da cultura, este livro é a prova, e, enquanto existir gente, homens e mulheres de letras que saibam como usar as palavras, acredito que o mundo árabe ainda tenha hipóteses de se levantar dos tenebrosos anos da guerra, da fome, da miséria...


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Mar Arável disse...

É urgente resistir

tolilo disse...

obrig. pela info...

Chuac!_