era uma vez uma mulher
e um homem
com palavras
e disseram-se muitas
as dele tinham muitas qualidades
as dela pendiam p'ras virtudes
usaram palavras doces
amargas frias ternas e fraternas
palavras apaixonadas corpóreas pesadas e sonoras
brincaram palavrosamente
por longos tempos em construção
e até fizeram coisas sérias
porque não?
um dia quase gastas as palavras
alheios à escassez de tudo
fez-se um pequeno silêncio
cortado pela experimentação
decidiram então
usar a linguagem técnica
num território por explorar
ele disse
quero-te porque és sustentável
ela volveu
aqui tens o gráfico da tua atenção
no corrente ano
intensidade e duração
há uma quebra aqui meu plafond
bem sei
respondeu-lhe ele
podemos negociar
sugeriu ela
não quero ser-te um imposto
e assim se aproximaram
do amor financeiro
ou das finanças do amor
mas eis que surgiu economicamente
um grande silêncio
andam agora a inventar palavras
e
se bem me lembro
os grandes silêncios são muito palavrosos
AP
sábado, 23 de março de 2013
redução à sensação
Manhã no mar a olhar para a terra, manhã na terra a olhar para o mar, dias de fantásticas miragens, sem lemes na embarcação, sereias só na imaginação, toninhas a dançar, e o escaler começa a afastar-se. (...)
Não importa dias de férias, dias feriados, dias infinitos, tanto faz chegar tarde como não chegar, é preciso é estar. Sensação boa, livre, mesmo para quem não tem um tostão.
Ruben A., Páginas (VI)
segunda-feira, 11 de março de 2013
d'O Ingénuo
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| Sam Francis, Heart Stone (1963) |
Em dois dias a doença tornou-se mortal. O cérebro, que se julga ser a sede do entendimento, foi tão violentamente atacado como o coração, o qual é, dizem, a sede das paixões.
Que mecânica incompreensível submeteu os órgãos ao sentimento e ao pensamento? Como é que uma simples ideia dolorosa é capaz de perturbar a circulação do sangue? E como é que o sangue, por sua vez, conduz todas estas perturbações ao entendimento humano? Que fluido desconhecido é esse, cuja existência é certa, que mais rápido, mais activo do que a luz voa em menos tempo do que um pestanejar de olhos por todos os canais da vida, produz as sensações, a memória, a tristeza ou a alegria, a razão ou a vertigem, lembra com horror o que se quer esquecer e tanto faz de um animal pensante um objecto de admiração como um motivo de piedade e de lágrimas?
Eis o que pensava o excelente Gordon; e esta reflexão tão natural, raramente feita pelos homens, nada furtava à sua compaixão; pois nada tinha de um desses filósofos que fazem tudo para ser insensíveis.
Voltaire, O Ingénuo
domingo, 10 de março de 2013
dancemos a valsa com Bashir
tenho andado a ver o filme... pode ver-se completo ou em vários segmentos para legendas em português (de fraca qualidade, ainda assim úteis).
a nossa memória tem razões que ela própria desconhece.
a nossa memória tem razões que ela própria desconhece.
sexta-feira, 8 de março de 2013
pois
domingo, 3 de março de 2013
Stéphane Hessel [1917-2013]
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| Stéphane Hessel |
93 anos. De certo modo, é a derradeira etapa. O fim já não está muito longe. Tenho a sorte de poder aproveitar para recordar o que serviu de base ao meu envolvimento político: os anos de resistência e o programa elaborado há sessenta e seis anos pelo Conselho Nacional da Resistência!
Stéphane Hessel, Indignai-vos!
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
domingo, 24 de fevereiro de 2013
aceleração
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| aparelho/relógio desenvolvido por Wundt |
Uma diferença essencial entre tempo e espaço é que se pode, normalmente, voltar a lugares de outrora, mas não a outros tempos. Já não podemos percorrer as ruas de antigamente como se tivéssemos 6 anos. A passagem do tempo de que nos lembramos já não pode ser testada face à realidade. Levanta-se a questão se valeria sequer a pena testá-la. Muitas estimativas e avaliações do tempo, como "há muito tempo" ou "velho", opõem-se à correcção, tal como o olhar retrospectivo sobre as ruas de outrora. Talvez porque assentem sobre uma medida especial: o próprio indivíduo. (...)
(...) qualquer pessoa é a sua própria medida oscilante e, tal como com uma antiga régua de cálculo, o resultado depende da posição da parte deslizante.
Não restam, entretanto, dúvidas sobre o sentido do deslocamento ao envelhecer. Um abrandamento objectivo cria uma aceleração subjectiva e aí interfere também o ritmo dos relógios biológicos. Os ponteiros de muitos desses relógios andam mais depressa num corpo jovem do que num corpo mais velho. Se expressássemos a nossa idade nas voltas dos ponteiros de relógios fisiológicos, (...), teríamos de dizer que somos jovens há muito tempo e pouco tempo velhos. Talvez isso explique o porquê de os dias de criança serem tão compridos e o tempo da velhice passar de forma tão inquietantemente rápida: inconscientemente, vemos o tempo do relógio contra o pano de fundo do tempo fisiológico. Segundo Carrel explicou, o tempo objectivo, o do relógio, passa a um ritmo regular, como um rio por planícies. No início da vida, o indivíduo ainda corre, alegremente, pela margem, mais rápido do que o rio. Por volta do meio-dia, o ritmo já abrandou um pouco e corre ao mesmo ritmo. À tarde, quando fica cansado, a corrente acelera e ele fica para trás. Por fim, fica quieto e deita-se, ao lado de um rio que prossegue o seu curso, no mesmo ritmo imperturbável com que correu ao longo de todo o dia.
Douwe Draaisma, Porque é Que a Vida Acelera à Medida Que Se Envelhece - Sobre a Memória Autobiográfica
[vale a pena conhecer um pouco do percurso de Alexis Carrel, e confirmar o facto de que mentes brilhantes, com contributos importantes para a história da humanidade, podem chegar a defender ideias realmente perigosas]
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