sexta-feira, 9 de novembro de 2012

coisas de outros tempos. ou não.

Uma criada dá sempre a direita aos senhores excepto no «passeio», em que lhes compete sempre o lado de fora.
Se sai do automóvel segue a mesma regra e, portanto, abre a porta do lado direito para a senhora entrar e depois dirige-se para a porta do lado esquerdo. Se vão três pessoas o lugar inferior é o do meio.
Ao subir uma escada, se esta tem corrimão, deve deixar esse lado para os senhores.
A criada bem-educada sempre que a sua senhora passe por ela desvia-se respeitosamente dando-lhe a direita, nunca deixando que a senhora passe por detrás dela.
Quando fala com os seus senhores deve ter o cuidado de não empregar termos grosseiros, não falar de costas ou sentada. Lembre-se que está a falar a superiores e que a delicadeza nunca é demais. 
Deve falar sempre em voz baixa e submissa, nunca interrompendo os seus senhores.
«Instrução Profissional: Aprender para saber. As criadas perante os seus senhores.» in Inês Brasão, O Tempo Das Criadas

domingo, 4 de novembro de 2012

hipótese existencial - toda a vida é arte posto que é ilusão

El Bosco (?), O Prestidigitador (cerca de 1502) 


a expressão tola do ilusionado leva a crer que é essa capacidade de nos deixarmos iludir a que permite uma vida com sentido. procure-se o que está por detrás de... e é o mais radical absurdo o que fica à vista. o absurdo é, por hipótese, o meio onde estamos mergulhados, e que nos recusamos a habitar. o mundo pode ser assim nosso, pois não há quem não seja uma ou outra vez tolo. e com tolices-ilusões se tece a lenta mas também longa teia do mundo. quanto mais rendilhados, mais se respira o mágico que há em nós: o que ilude e o que é iludido.

do Inferno de Strindberg

disse Deus:

Faça-se o movimento, pois o descanso corrompeu-nos! Além disso, quero arriscar-me a uma manifestação, enfrentando embora o contratempo grave de me dispersar e perder na massa bruta!
Vede além, entre Marte e Vénus, como permanecem devolutos alguns miriâmetros do meu domínio.Quero criar ali um novo mundo que sairá do Nada e um dia regressará ao Nada.
As criaturas que nele viverem hão-de julgar-se deuses como nós, e prazer experimentaremos a observar-lhes os combates e as vaidades. Que o seu nome seja mundo da loucura! Qual o teu parecer, irmão Lúcifer que partilhas comigo todos os reinos ao sul da Via Láctea? 

respondeu Lúcifer:

Senhor, irmão, o teu desejo malévolo implica sofrimentos e desgraças. Abomino tal ideia!

August Strindberg, Inferno 

[como saber quem é Deus e quem é Lúcifer?!]

Tolstói



de um conto do período de maturidade:

Efectivamente, se Evguéni Irténev era doente mental no momento do crime, então todas as pessoas são doentes mentais, e, entre esses dementes, os mais enfermos são sem dúvida os que vêem os sinais de loucura nos outros e não reparam em si próprios.
Tolstói, O Diabo (e outros contos)

sábado, 3 de novembro de 2012

a gravidade de sempre

interessa-me a gravidade em todos os sentidos. e uma coisa é certa: a cada um a assumpção da sua gravidade. não são os outros que hão-de carregar connosco.





segunda-feira, 29 de outubro de 2012

tudo comme il faut?

ao reler A Morte de Ivan Ilitch - grande escritor, Tolstói! - deparo-me com a questão do tédio. Ivan Ilitch desejava a rotina e tudo comme il faut. mas depressa a sentia insuportável. e tanto tanto que inventou uma dor. uma à qual deu o poder de se tornar real e fatal. é esta insatisfação radical humana assim tão incontornável? a rotina deste Ivan era uma rotina confortável - assim no-la descreve o escritor. era daquelas onde não faltava o conforto e a ilusão de ter alcançado o mais ambicioso projecto. ainda que oco e falso. sim será preciso existir completamente alienado na busca de alguma coisa e não ter tempo de sobra para pensar mais profundamente. pois será preciso tudo isso para escapar à mais cruel consciência. essa mesma que promete estragar todos os nossos devaneios.
o tédio pode ser perigoso. é do spleen que vem toda a espécie de artimanhas. provavelmente virão igualmente dele os grandes feitos humanos. e as grandes reflexões. como a de Ilitch perante a morte e a sua tão humana fragilidade.
mas enquanto o tédio nos domina e nos leva a mergulhar mais ou menos profundamente na voracidade do ser... enquanto isso há outros que instalados na rotina sem queixume dão continuidade ao seu plácido decurso. e assim conquistam os melhores lugares. Ivan Ilitch caiu no erro de querer ir mais além... para viver (e bem!) é preciso ficar à superfície. exactamente aí onde tudo permanece comme il faut.

domingo, 28 de outubro de 2012

colorir...



melancolia

    
Albrecht Dürer, Melancolia I (detalhe) - 1514

Como são as coisas. E aquilo que as guia: um nada. Li um dia esta frase, e agora penso nela. E afinal: somos nós que procuramos ou somos procurados? Também isto carece de reflexão. (...) Ando de um lado para o outro, à toa, demoro-me no bistrot até ele fechar, depois levanto-me e caminho.  
O médico disse-me: você é o exemplo clássico do homo melancholicus. Mas Dürer desenhou a melancolia sentada, objectei, a melancolia não dispensa uma cadeira. A sua melancolia é diferente, sentenciou, é uma melancolia móvel. E receitou-me exercícios motores. 
Antonio Tabucchi, Está a fazer-se cada vez mais tarde

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

ah Camilo!

É meia-noite e um quarto no relógio da Lapa.
(...) Os poetas, que amam em verso, são uns puros desinfectantes da pútrida impureza. Se todos fizéssemos versos, e nos amássemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este globo era um viveiro de anjos. A teoria de Hobbes seria uma calúnia, e a de Malthus um absurdo. Não andaríamos travados em permanente luta, nem a exuberância da propagação assustaria os economistas. Havia só o risco de nos matar a fome; mas cada cisne teria um canto derradeiro com que esforçar a guerra à prosa que inventou os cereais, o boi cozido, as acções do banco, e a troca de um romance por quinhentos réis.
Isto ocorreu naturalmente da castidade da lua. 
Era, pois, meia-noite e um quarto no relógio da Lapa, e fazia luar como de dia.
 
Camilo Castelo Branco, O Que Fazem Mulheres

Regresso ao futuro

Muitas vezes, diz-se: nunca regresses a um lugar onde já foste feliz. Mas como não procurar todos os lugares que nos parecem compatíveis com...