domingo, 30 de novembro de 2008

Da cegueira ou "ser humano não é fácil"


Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
Livro dos Conselhos



Gostei do filme de Fernando Meirelles, embora a luz branca e azul, metálica, invadisse toda a atmosfera, ofuscando-a. O que gerou o intenso contraste com os raros momentos de humanidade, quando os tons quentes conseguiam penetrar nos contornos das imagens.
Mas nada nestes instantes humanos cede ao facilitismo. Nada fica sem alerta para a beleza ou para a bondade fáceis. Nada fica escondido do olhar do próprio que procura "ver". "Ver-se". Após cada momento de depuração, o que resta de humanidade é pouco, surpreendentemente pouco. Embora inabalável.
Ser humano acontece ser difícil. Somos um processo ainda e sempre em (re)construção...

Um filme duro a partir de um livro obstinadamente duro. Um desafio da consciência para a consciência ( humana?).

Após ver o filme, releia-se o livro. Por exemplo:

«Quando eles se afastaram para irem cobrar o salário da vergonha, como o primeiro cego protestara com retórica indignação, a mulher do médico disse às outras mulheres, Fiquem aqui, eu já volto. Sabia o que queria, não sabia se o encontraria. Queria um balde ou alguma coisa que lhe fizesse as vezes, queria enchê-lo de água, ainda que fétida, ainda que apodrecida, queria lavar a cega das insónias, limpá-la do sangue próprio e do ranho alheio, entregá-la purificada à terra, se ainda tem sentido falar de purezas de corpo neste manicómio em que vivemos, que às da alma, já se sabe, não há quem lhes possa chegar.»

«O senhor é escritor, tem, como disse há pouco, obrigação de conhecer as palavras, portanto sabe que os adjectivos não nos servem de nada, se uma pessoa mata outra, por exemplo, seria melhor enunciá-lo assim, simplesmente, e confiar que o horror do acto, só por si, fosse tão chocante que nos dispensasse de dizer que foi horrível, Quer dizer que temos palavras a mais, Quero dizer que temos sentimentos a menos, Ou temo-los, mas deixámos de usar as palavras que os expressam, E portanto perdemo-los, (...)»

«Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.»
in José Saramago, Ensaio sobre a cegueira

Espero ter visto o filme, olhando e reparando...


Imagem: pesquisa de imagens do filme no Google


quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Um livro: Al-Tayyeb Salih




«Quão belo e bem moldado é o teu volante, assente no aço
Até Sitt Nafour, esta noite, ninguém cede ao cansaço.»

"Caros senhores, peço-vos que não suponham que o Mustafá Saíd se tinha transformado numa obsessão que me acompanhava em todos os meus gestos. Por vezes, passavam meses sem que me ocorresse tão-pouco que ele tinha morrido afogado, ou que se tinha suicidado, só Alá o sabe. Milhares de pessoas morrem todos os dias. Se nos ocupássemos das razões da morte de cada um e do modo como morreram, o que nos aconteceria a nós, os vivos? A vida prossegue, quer queiramos quer não. Eu, tal como milhões de outros homens, prosseguia. Avançava, na maior parte dos casos, mercê do hábito, numa longa caravana de camelos que subia e descia, que se detinha e, de novo, partia. E a vida, nesta caravana, não era inteiramente má. Vós sabê-lo-eis, sem dúvida alguma. A viagem poderá ser árdua, durante o dia. Os desertos estendem-se, à nossa frente, como mares sem costa. O suor cobre-nos o rosto. As gargantas secam-se de sede. Atingimos o limite para lá do qual julgamos não ser possível avançar mais. E, então, o Sol põe-se e o ar arrefece. Milhões de estrelas fulguram no céu. Nesse momento, comemos e bebemos, e o cantor da caravana começa a cantar. Alguns de nós rezam, atrás do shaykh. Outros formam círculos, dançam, cantam e batem palmas. Sobre nós há um céu quente e aprazível. E, por vezes, viajamos durante a noite, durante tanto tempo quanto nos agradar. E quando a linha branca se separa da linha negra, dizemos: «Quando a manhã nasce, os homens congratulam-se por terem caminhado de noite.» Ainda que, por vezes, as miragens nos ludibriem e pensamentos destituídos de verdade e clareza atravessem a mente febril, pelo efeito do calor e da sede - os espectros da noite dissipam-se com a aurora e a febre do dia arrefece com a aragem da noite. Haverá outro modo de ser, diferente deste? Era assim que eu passava dois meses de todos os anos, nessa aldeia pequena, junto à curva do Nilo."

Um livro que nos traz o grande exotismo de uma região atravessada pelo rio Nilo: o Sudão. A magia dos lugares onde África se mistura com o mundo árabe. Contrastes culturais experimentados por um Mustafá e por um narrador, ambos tendo estudado em Inglaterra.
Mas este exótico e rico universo cultural é o de uma região dominada pelos mais graves problemas: instabilidade política, confrontos culturais e religiosos; e a vivência tenebrosa da Fome. Um lugar que é também o Darfur.

Na edição da Cavalo de Ferro pode ler-se:

"Considerado o romance árabe mais importante do século XX, «Época de Migração para norte» é uma obra polémica e ainda proibida em diversos países do Médio Oriente e de África."

"Esta obra faz parte da Série de Obras Representativas da Humanidade escolhidas pela UNESCO."

Imagens: pesquisa do Google (clicar no mapa para aumentar)




segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Paul Auster



Gosto muito dos livros de Paul Auster. Já há muito tempo que gosto. Há um primeiro Paul Auster com livros inesquecíveis, para mim. Há também um segundo, com uma escrita bem mais amadurecida e que assinala a evolução de uma literatura sempre renovada e transformada. Com as marcas inconfundíveis, e cada vez mais enraízadas, do seu universo. No qual apetece "mergulhar" recorrentemente.

Para quem gosta do autor, está aí a tradução portuguesa do seu último livro:
"Homem na Escuridão".

Paul Auster está em Portugal: acompanhar aqui

Em jeito de homenagem, um excerto de "Cidade de Vidro" - sem dúvida, um dos meus predilectos:

«O que apreciava nesses livros era a sua sensação de plenitude e economia. Numa boa história de mistério nada é desperdiçado, todas as frases ou palavras são significativas. E mesmo que não sejam significativas, têm a potencialidade de o serem - o que vai dar ao mesmo. O mundo do livro ganha vida, fervilha de possibilidades, segredos e contradições. Dado que tudo é visto ou dito, mesmo a coisa mais ínfima ou mais trivial pode ter uma ligação com o desfecho da história, e por conseguinte nada deve ser descurado. Tudo se transforma em essência; o centro do livro altera-se com cada acontecimento que o impele para a frente. O centro está portanto em todo o lado, e só se pode desenhar uma circunferência quando o livro chegar ao fim.

O detective é aquele que olha, que escuta, que se move através de um pântano de objectos e acontecimentos em busca do pensamento, da ideia que associará estas coisas e lhes conferirá um significado. Com efeito, o escritor e o detective são intermutáveis. O leitor vê o mundo através dos olhos do detective, experiencia a proliferação dos seus pormenores como se fosse pela primeira vez. Torna-se consciente das coisas que o rodeiam, como se elas pudessem falar-lhe, como se, devido à atenção que agora lhes dedica, elas pudessem começar a veicular um outro significado que não o simples facto da sua existência. Private eye. Detective privado - olho privado. Este termo tinha um significado triplo para Quinn. (...)»
in Paul Auster, A Trilogia de Nova Iorque

Imagem: pesquisa do Google


quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Anti-formigas


Hoje, deu-se um acidente à minha porta. Na estrada, atravessando fora da passadeira, uma mulher ainda jovem foi parcialmente colhida por um carro. O condutor apitou no momento em que lhe batia. E seguiu a sua viagem, dominado pela velocidade vertiginosa que imprimiu à viatura. Não parou, não ofereceu ajuda, seguiu... como se tivesse pisado uma formiga.

O acontecimento, que por mera coincidência pude presenciar, foi muito rápido! Ninguém, eu incluída, fixou a matrícula do automóvel. Os olhares convergiram de imediato na mulher ali caída. Desde logo, chorava e queixava-se de muitas dores. Tive oportunidade de testar a minha humanidade. Cheia de pressa e afazeres, parei e fiquei por ali, dando algum apoio com palavras calmas e (talvez) um pouco reconfortantes. Telefonei a pedir ajuda. Claro que não fiz nada de especial. Era o mínimo. Outras pessoas também ficaram para ajudar e apoiar. No entanto, a ajuda era escassa. Não podíamos fazer rewind neste pequeno filme, e fazer com que aquela mulher pudesse continuar a sua luta diária. Ia a correr para o local de trabalho... Não podíamos viver a sua dor e toda a sua vida transtornada, no lugar dela. Nem quereríamos tal. Não seríamos certamente capazes de tanto.

Fiquei a pensar... e todo o resto do dia ficou a sensação estranha e revoltante de podermos ser apenas umas formigas uns para os outros. Vezes demais!
Eu gostaria de ter perguntado ao condutor daquele carro: «Diga-me... afinal, somos humanos ou somos formigas?!».
Acho que ele ficaria a rir-se de mim. Porque na ordem cósmica do universo, é certamente muito menos do que uma formiga!! Elas não páram, seguindo o seu programa genético pré-definido e fechado. Aquela pessoa, conscientemente, com capacidade de escolha e de decisão, optou por ficar abaixo do comportamento de uma formiga. Porque viu num(a) outro(a) aquilo que de facto é ele que é.

E as formigas até são bem interessantes! Ao contrário de certos seres "humanos".



Este pequeno vídeo é um excerto do filme "Waking Life" de Richard Linklater


Imagem: Moebius Strip II-Ants de M.C. Escher


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Momentos filosóficos - 1


Em tempos onde a sociedade da informação nos presenteia diariamente com sinais negativos, nada melhor, para radicalizar efectivamente o estado do mundo, do que uma reflexão com Schopenhauer (1788-1860, Alemanha).
A propósito do filósofo, há que abordar, no mínimo, e ainda que superficialmente, o seu célebre pessimismo. Sendo que, na sua perspectiva, tudo está ligado ao papel da vontade. Pessimismo e vontade, portanto.
Vontade de quê? - poderemos começar por perguntar. Vontade de viver. Tão simples quanto isso. Dirá Nietzsche (mais tarde) : vontade de poder. Estamos assim numa linha onde se afirma o irracionalismo dos acontecimentos do mundo, do próprio ser humano e da sua vida. Abandona-se a pretensão de que será possível explicar racionalmente o decurso dos acontecimentos, na medida em que eles possuam intrínsecamente tal racionalidade. A nobre tarefa, de acordo com muitos, consistiria em desvelar esse carácter racional da vida e do mundo. Mas, para Schopenhauer, isso seria um objectivo completamente desajustado: o Mundo é apenas Vontade (e Representação - ao que não me refiro directamente aqui e agora).

O pessimismo de Schopenhauer reside na afirmação de que, aconteça o que acontecer, faça-se o que se fizer, seremos sempre dominados pela vontade. Ou seja, pelas nossas visões e desejos "interessados" e pessoais. Individuais. Egoístas. Pela vontade não é possível ir mais além, ultrapassar o domínio dos seus próprios limites, alcançar um outro patamar de realização da humanidade. Também não defendeu a existência de Deus para possível consolo. Mostrou o ser humano abandonado a si mesmo numa antecipação da filosofia existencialista.
Mas existe alguma forma de escapar desta limitadora e fatal vontade, elevando-a? Sim, há vias de libertação. Pelas artes e, em especial entre elas, pela música, cópia da própria vontade.

«Todas as aspirações da vontade, tudo o que a estimula, todas as suas manifestações possíveis, tudo o que agita o nosso coração, tudo o que a razão classifica sob o conceito amplo, e negativo de "sentimento" pode ser exprimido pelas inumeráveis melodias possíveis; (...). Por conseguinte, poderíamos designar o mundo tanto por uma incarnação da música quanto por uma incarnação da vontade, e compreendemos então imediatamente como é que a música empresta a todo o quadro, a toda a cena da vida ou do mundo real um significado mais elevado, e isto, com tanta mais intensidade, quanto mais íntima for a analogia entre a melodia musical e o fenómeno presente.»

in O Mundo como Vontade e Representação, Arthur Schopenhauer



Mas este modo de escapar é ainda demasiado efémero. A verdadeira saída para o sofrimento que a vontade constantemente provoca (pela carência na satisfação de desejos permanentemente renovados); a única saída efectiva consiste na sua própria anulação, na sua ausência. Mas isso implicaria a morte. É possível, no entanto, alcançar um estado alternativo de serenidade, de ausência de desejo e de vontade. O caminho é o da reflexão, o da meditação, o da renúncia ao corpo (experiência do Nirvana), lugar no qual o mais individual se revela, e sede da vida no seu sentido mais íntimo e radical. Esta solução resulta de princípios característicos das filosofias e das religiões orientais, tais como o budismo, das quais Schopenhauer assumiu a influência.

Parece-me que alguma reflexão e meditação são benéficas. Estou certa de que a música é essencial para a felicidade. E a via ascética não deixa de me seduzir algumas vezes. Compreendo o pessimismo do filósofo. Reconheço-lhe o brilhantismo e a genialidade das ideias, que serão retomadas, ainda que com outros contornos e nuances, e com outras orientações, por Nietzsche, por Bergson, e até mesmo por Freud. Não sou, no entanto, asceta e seguidora da filosofia de Schopenhauer. Também não sou voluntarista, no sentido filosófico do termo. As classificações generalistas podem ser muito úteis, mas são sempre redutoras. O que se impõe é reconhecer o mérito deste seu pessimismo. Há que conceder que foi brilhante o modo como escreveu e como pensou em busca da verdade. Um prisma de infinitas faces, talvez seja a verdadeira essência do mundo e da verdade. Neste caso, mostra-se a face da Vontade. Nem sempre bela.

Apesar da força das suas ideias, a filosofia do pessimismo radical encontrou-se num beco sem saída (uma verdadeira contradição nos termos) : a renúncia voluntária só pode ser em si mesma um acto de vontade. Pressupondo que a anulação da vontade seja um processo, e não obra de um mágico instante qualquer, a vontade (de renunciar) teria que estar sempre presente.
Hegel foi o principal alvo da sua crítica, muitas vezes injusta. O trabalho crítico pode ser demolidor. Pode ser também não sistemático e traduzir problemáticas vincadamente pessoais, quer dizer, traduzir o domínio da vontade, individual e subjectiva. Schopenhauer tomou Hegel como inimigo visceral, em grande parte porque todos corriam a ouvir o seu adversário filosófico, enquanto poucos apareciam para o ouvir a ele. Situação largamente provocada pelo facto de ter marcado as suas lições exactamente para a mesma hora, em Berlim. Aspectos biográficos interessantes, relacionados certamente com a sua brilhante tematização do papel da vontade na vida humana...

É por estas (e por outras) que gosto de filosofia!


Imagens: pesquisa do Google


domingo, 26 de outubro de 2008

É a vida...


Já lá vai tanto tempo... sim, bem sei. Dei-te a minha mão pequenina, confiante. Devagarinho, levaste-me por entre as brumas que deixavam entrever a terra, ao longo do cais. À nossa frente, erguiam-se rochedos, elevações secas e arenosas. Olhei para cima, para ti. Mais além, a terra mostrava-se acima das nuvens. Em baixo, já dominando a atmosfera, o ruidoso bulício, transbordante de confusão e alegria. As pessoas diferentes, as vozes estranhas de tão cantantes. E as cores... na sua mistura com tudo. As vestes com os seus tecidos estampados, brilhantes e esfusiantes... era todo um mundo de alegre descoberta! Um primeiro passo que dei contigo para a consciência da multiculturalidade. Foi então que iniciei o longo abraço da igualdade na diferença.
O mundo é cinzento e colorido. Mas parece que há tanto para aprender com as névoas cinzentas, como com a mais exaltante coloração.



Quis hoje recordar. Recordar-te. Dizer-te, onde quer que estejas, que não é possível esquecer. Que o tempo passa, mas tudo fica na nossa memória porque connosco se transportou. Porque nos moldou e nos deu uma raíz. Ainda que sempre flutuante e transitória na sua permanente viagem. Disseminada no confronto com o horizonte largo do mundo.

E o mar. Imenso como a saudade feita da mais genuína alegria. Porque se viveu...





Imagens: Navio Amélia de Mello, têxteis africanos e mar - pesquisa do Google


quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Síndroma de Bartleby


Há registos e registos. E registos e registos. E, entre eles, pode encontrar-se também o registo inócuo. E o registo neutro. E o registo que não chega a registar-se.
Pela manhã, durante a tarde, quando a noite cai... não importa a hora ou o lugar, parece existir tanto para dizer... Mas, perante a imensidão do que há para ser dito, do que se teria para dizer, são inúmeros os instantes nos quais uma vaga sensação de inutilidade ganha terreno e começa a dominar.Também a memória se impõe, nesse entretanto, lembrando que, provavelmente, já tudo foi dito.
Mais insustentável é esquecer que, provavelmente, já tudo foi feito. Ainda que a possibilidade de alguma coisa ter ficado por acontecer no mundo vá pontuando os dias, dando-lhes uma certa cor e necessidade.

E perante estas quimeras de teor mais ou menos filosófico, a verdade é que para lá das catadupas de acontecimentos que se atropelam no mundo, muito do que se faz é tarefa de "copista".
Ainda assim, nada querendo dizer, nada querendo fazer, muito se diz, muito se faz. Na minha livre interpretação, o que a figura de Bartleby introduz como problema é a possibilidade e a anterioridade da escolha na acção. Digamos que o ideal parece ser sempre a possibilidade da escolha. Em tudo. Mesmo que não se tenha a hipótese, permanece o desejo de escolher. Ele pode eclipsar-se, pode recuar para uma dimensão e um terreno que é o do nada. Anterior a qualquer escolha, a qualquer decisão, a qualquer iniciativa. Pode não "copiar" mais nada. Pode não (re)escrever mais nada. E, apesar disso, escolheu. Marcou, escreveu nas linhas e nas entrelinhas do mundo.
Bartleby não faz nada. Pelo que a sua acção está assim mesmo, desde logo, definida. Bartleby não pode escapar do mundo. Apesar disso, é certo que ele dirá sempre

- Preferiria de não (« I would prefer not to »)

Há fases em que me sinto um bocadinho (ou muito) Bartleby. Espero que não seja grave.


Imagem: pintura de Egon Schiele


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Questão de evolução


Pode o futuro não nos interessar, perante a urgência do presente? As questões relacionadas com a chamada teoria da evolução das espécies também podem fazer pensar o futuro. Pelo menos, foi nessa linha que Filipe Duarte Santos desenvolveu a sua comunicação intitulada "Sustentabilidade, Cultura e Evolução".

O conceito de sustentabilidade (como preocupação que surge nos finais do século passado) é considerado pelo autor um dos mais debatidos no século XXI, e não pode deixar de suscitar a minha atenção. Foi nesse sentido que me deparei com a referida comunicação, integrada num conjunto de textos reunidos sob o título «A Urgência da Teoria».

A tese apresentada por Filipe Duarte Santos (de quem vale a pena conhecer mais...) é a de que, após um percurso evolutivo dominado por transformações biológicas, o ser humano atingiu um singular patamar de desenvolvimento, no qual a evolução cultural se sobrepôs à biológica. Ou seja, a nossa civilização alcançou a possibilidade de "aliviar" as pressões que determinam a selecção natural. O futuro evolutivo da espécie humana dependerá, portanto, da nossa capacidade para adaptar a evolução cultural aos condicionalismos que nos são impostos. Segundo palavras do autor, estamos prisioneiros da nossa cultura. Trata-se de saber para onde é que ela nos conduz...

Aqui fica o registo de um tema que me parece extremamente interessante. Através de um autor que o tem investigado e debatido.

«(...) nos 250 anos que nos separam do início da revolução industrial, a população humana aumentou por um factor de 8,3 até atingir valores da ordem de 6600 milhões, na actualidade.
A evolução recente deste e de outros indicadores globais indicia riscos significativos de insustentabilidade da nossa civilização num futuro mais ou menos próximo. Será que a nossa cultura saberá mitigar estes riscos e assegurar a continuidade da sua evolução? Ou será que há um elemento degenerativo que nos irá conduzir para crises e rupturas? Há algo de misterioso no nosso sucesso que não desvendámos ainda. O caminho provavelmente não é irreversível, mas não o conhecemos. Essa é a razão que torna tão importante pensar o nosso futuro colectivo.

Será que a nossa espécie irá evoluir biologicamente para se transformar em algo como um super-homem capaz de encontrar novos paradigmas de progresso sustentável? Um dos mecanismos mais importantes de especiação é o isolamento geográfico de populações em condições ambientais diversas. Presentemente, no caso do
Homo sapiens, não é efectivo porque construímos uma sociedade global com fortíssimo contacto e procriação entre todos os grupos populacionais. (...) sobretudo nos países desenvolvidos, os avanços da medicina e da assistência à saúde, aliados a uma cultura de solidariedade e segurança social, asseguram a sobrevivência de quase todos e não apenas dos mais fortes e adaptados. Assistimos, pois, a um relaxamento das pressões que determinam a selecção natural. Tal não significa que a espécie humana não evolua biologicamente, mas apenas que na fase actual essa evolução assume formas subtis por estar fortemente mitigada (Balter, 2005).

Quanto à evolução futura do Homo sapiens, ela irá depender em grande parte das condicionantes externas e internas à sociedade humana.
(...) Quanto mais estável e seguro for o futuro, menor a probabilidade de evolução biológica do Homo sapiens. Face aos actuais cenários socioeconómicos e ambientais futuros, é possível que nos próximos séculos se assista a um esgotamento do modelo de uma evolução cultural mais ou menos contínua. Tudo depende de conseguirmos ou não adaptar a nossa evolução cultural aos condicionalismos que nos são impostos, em última análise, pela natureza e leis que a regem. Estamos manifestamente prisioneiros da nossa cultura e das imensas capacidades que ela tem revelado em tornar admirável o nosso modo e a nossa qualidade de vida, embora estes benefícios estejam muito longe de abranger a totalidade da população humana.»
in "Sustentabilidade, Cultura e Evolução", Filipe Duarte Santos



Imagem: pesquisa do Google (arte dos primatas)


sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Sermões - 1


"(...) hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. (...) O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. (...) Verbo Divino é palavra divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos. (...) e o que entra pelos ouvidos crê-se, o que entra pelos olhos necessita. Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós, e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros."
in Sermão da Sexagésima, Padre António Vieira

Alturas há, nas quais poucas leituras conseguem ter o efeito algo hipnotizante que leva a prosseguir, parágrafo após parágrafo, o confronto com o texto. Acontece-me isso, agora, quando a necessidade de lidar com um número extra-ordinário de papéis, palavras, textos, composições, fichas, sínteses, registos, actas, formulários, índices, estatísticas, etc...; quando esta necessidade rodeia a existência diária... acontece-me um esgotamento face à palavra. Quando ela se torna técnica (ainda que também o seja), e perde a sua dimensão ontológica e estética (ainda que não de modo irreversível)... Quando ela se torna uma hiper-construção do mundo... Perante essa súbita invasão, fundida com ecos fortissimos de crise financeira, apresentada de um modo tão mais virtual que real (ainda que realidade concreta); aí acontece viver-se num universo saturado de informação. E o esforço necessário para a reorganizar conceptualmente é a prova cabal de que nos consumimos.

Nada combateu mais o desgaste vivido nos últimos tempos, do que a leitura (solta e descontraída) que tenho feito dos Sermões do Padre António Vieira. Sem qualquer pretensão de estudiosa do autor, admiro-o e recomendo-o como antídoto para qualquer cansaço mais ou menos cerebral, para qualquer momento de maior ou menor desencanto.
Uma pedrada certeira num charco nada límpido e nada claro, mas com a clarividência dos génios. Que o era!




Imagem: Extracção da pedra da loucura - Bosch


domingo, 5 de outubro de 2008

Futuro energético


As questões energéticas estão em primeiro plano na nossa época. É isso que pode constatar-se neste pequeno filme que apresenta uma sugestão muito curiosa. É uma ideia para o presente, se bem que... nem sempre viável. Mas, para o futuro, pode vir a ser uma opção de "peso". "Ir para baixo" talvez se torne a única hipótese de "subir" e manter uma certa qualidade de vida.

Mais interessante ainda é o conjunto do "pourunmondedurable". Vale a pena visitar e apreciar uma série de ideias inovadoras, assim como o levantamento que faz de muitas das principais preocupações ecológicas actuais.



Regresso ao futuro

Muitas vezes, diz-se: nunca regresses a um lugar onde já foste feliz. Mas como não procurar todos os lugares que nos parecem compatíveis com...