terça-feira, 3 de abril de 2012

vejamos pois

Mark Rothko, Yellow, pink and pale lilac to dark pink (1950)

em tempos, quando olhava uma pintura de Rothko, ficava algo decepcionada. belas cores e pouco mais eu via então. mais tarde, o meu olhar era sempre atraído por quadros assim, subitamente preso de uma espécie de apelo que eu sentia numa certa atmosfera de serenidade. algo quase imperceptível, no entanto. depois, a pouco e pouco, percebi que havia neles uma aura de provocação que tinha eco em mim. o vazio, se é que existe, provoca-me certo horror. parece estranho. afinal, há cenários tão repletos e densos como absolutamente difíceis de observar e apreciar. em vão pensar assim: os quadros de Rothko pareciam-me sempre inquietantemente vazios. talvez por isso, vê-los consistia em atravessar duas fases de olhar: primeiro, a serenidade do minimalismo colorido, o conforto de existir tão pouco para ver, a tranquilidade da redução ao essencial; depois, vinha um activo e inevitável preenchimento do quadro com elementos criados por mim, evidentemente, e quem sabe numa total adulteração da obra. é por isso que, hoje, estas intrigantes pinturas "entram" sempre nos meus olhos plenas de significado e carregadas de histórias. de certo modo, são agora um espaço onde me encontro em pura actividade.
o que me traz a tudo isto, afinal, é a questão do vazio. creio que na verdade ele não existe. se olhar atentamente, aquelas barras de cores num quadro de Rothko mostram-me não sei se tudo, mas, pelo menos, revelam-me muito. o que vejo provavelmente não está lá desde logo, mas, se eu o vejo, existe de algum modo. e o que vejo introduz novos elementos na realidade. objecção a considerar: o que vejo é pura imaginação. mas sem essa caminhada à beira do precipício não há acto criador possível. quanto do mundo mais concreto, mais real, existe porque foi imaginado e o é continuamente? eu diria que muito. o quadro de Rothko, por exemplo, só por si não conta. eu sem o quadro de Rothko seria outra. apesar dessa ausência, continuaria viva, mas não seria a mesma pessoa. o que é relevante, portanto, dá-se no encontro entre mim e o tal quadro. e todo o encontro, se acontece e envolve um ser humano, pressupõe imaginação.
afinal, prosseguindo a meditação que Rothko sempre suscita, é de considerar uma outra objecção: que interesse pode ter (e que utilidade existirá) num ver meramente individual? que sentido pode ter ver aquilo que mais ninguém vê? mas... quanto não há de um olhar comum, construído ao longo do tempo e da história, em cada olhar individual? do mesmo modo, será de perguntar: quanto não há de tantos olhares individuais e únicos nessa longa e complexa teia que chega até nós agora, criada em comum desde os confins dos tempos? apesar disso, é certo que não vemos todos exactamente o mesmo. é esse o terreno fértil em que nos movemos. é esse o lugar onde se constitui a verdadeira antítese do vazio. e é dessa tensão entre o que só um vê e o que todos vemos que se arquitecta o nosso mundo.
ver é sempre um desafio. o vazio só existe quando o olhar não vê. o vazio só existe quando o que se mostra não é visto, ainda que seja olhado. sinceramente, fico bem mais descansada: o mundo é realmente denso.


2 comentários:

vbm disse...

O vazio... uma flutuação no vácuo!? Como no hipotético início temporal do universo, onde anteriormente tudo se neutralizaria na hecatombe das possibilidades de iniciar qualquer existência de matéria...? Por muito que a nossa subjectividade imagine o que quer que seja, o certo é a inexistência antes de nascer e depois de morrer. O vácuo absoluto da inexistência. Há só uma particularidade curiosa que a narrativa histórica de toda e qualquer ocorrência evidencia :): - Se algo ocorre, contingente que seja, prova que, antes de suceder, era possível. Por essa razão, o vácuo da "ausência", no mínimo, tem a plenitude de tudo o que lhe seja co-possível, e como tal, é todo um "universo" não-contraditório potencialmente existente mentalmente congeminável por quem possa inteligi-lo e com ele ser compatível. Este é o respeito mínimo que é devido a George Berkeley! :)

Mar Arável disse...

Que vivam os criativos

a ver com olhos fechados