segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Lágrimas na chuva


Um livro de ficção científica, que recorda em parte Blade Runner (1982). Os problemas são do futuro, mas tão actuais como o presente.

Elescanova (2013-2104) era a líder e fundadora do partido, Regeneração. Defendia que todos os males do mundo eram resultado do abandono das utopias e da rendição aos abusos do capitalismo. Embora garantisse  que tanto o marxismo como o modelo soviético estavam obsoletos, reivindicava a criação de uma frente comum revolucionária para acabar com as desigualdades do mundo. No seu ensaio Minorias Responsáveis e Massas Felizes, pedra angular da sua ideologia, Elescanova propunha uma sociedade governada pelos mais aptos e pelos mais sábios, semelhante à República de Platão mas reforçada pelos avanços científicos: "Poder-se-ão mesmo potenciar as grandes qualidades dos novos dirigentes a partir do próprio zigoto por meio de técnicas eugenésicas(...) A Ciência e a Consciência Social Unidas para Criar os Super-Homens e as Supermulheres do Futuro."
O regeneracionismo ou aristopopulismo, como imediatamente foi denominado, propagou-se rapidamente em todo o mundo, sobretudo quando, a partir de meados dos anos sessenta, diversos países implementaram a cobrança do ar puro e os cidadãos com menos recursos se viram obrigados a emigrar em massa para as zonas mais contaminadas. Mas não foram só os setores economicamente débeis que adotaram as doutrinas de Elescanova. Partidos poderosos de diversos países e de diferentes ideologias, da extrema-esquerda à extrema-direita, juntaram-se à líder russa formando, em 2077, o Movimento Internacional Aristopopular (MIA), antiburguês, antirreligioso e anticapitalista, embora, paradoxalmente, o MIA dispusesse de capital considerável.
Um movimento destes deseja, naturalmente, dominar o mundo, mas talvez a Terra não lhes parecesse um lugar com muito futuro. Fosse por isso, fosse pela notícia de que os labáricos iam construir um reino flutuante, a verdade é que a primeira decisão do MIA foi a de criar a sua própria plataforma extraterrestre.
Rosa Montero, Lágrimas na Chuva


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