terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Do Desassossego - I


Rua Pascoal de Melo, 119, 3º, Dto.
Lisboa, 3 de Maio de 1914

Meu caro João:


Releve-me o ser tão pouco estético o papel em que lhe escrevo. Mas é o que tenho à mão e eu sinto absoluta a necessidade de lhe escrever.
Neste dia de sol, claro e simples, assaltou-me um tédio de tal maneira profundo que não o posso exprimir senão expondo-lhe que sinto uma mão a estrangular-me a alma.
Li hoje, pela não-sei-que-éssima vez, parte do seu livro e fez-me bem, como sempre me faz, por tão bem me falar do seu mal.
Escuso de empregar o vulgar «não imagina» para lhe descrever o abismo de torpor de todo o Eu em que estou caído; sei de sobra que v. imagina isso muito bem, para mal da sua felicidade.
Estou num destes momentos em que tudo perde o sabor a vida que tem e em que adoece dentro de nós o nosso modo de sentir as coisas; repare que eu digo que adoece, não as sensações, mas o modo como elas são sensações.
Estou talvez fatigando-o com isto. Desculpe-me que o faça. Sou impelido a fazê-lo. 
A propósito de tédios, lembra-me perguntar-lhe uma coisa... Viu, num número do ano passado, de A Águia, um trecho meu chamado Na floresta do alheamento? Se não viu, diga-me. Mandar-lho-ei. Tenho imenso interesse em que v. conheça esse trecho. É o único trecho meu publicado em que eu faço do tédio, e do sonho estéril e cansado de si-próprio mesmo ao ir começar a sonhar-se, um motivo e o assunto. Não sei se lhe agradará o estilo em que o trecho está escrito: é um estilo especialmente meu, e a que aqui vários rapazes amigos, brincando, chamam «o estilo alheio», por ser naquele trecho que aparece. E referem-se a «falar em alheio», «escrever em alheio», etc.
Aquele trecho pertence a um livro meu, de que há outros trechos escritos mas inéditos, mas de que falta ainda muito para acabar; esse livro chama-se Livro do Desassossego, por causa da inquietação e incerteza que é a sua nota predominante. No trecho publicado isso nota-se. O que é em aparência um mero sonho, ou entressonho, narrado, é - sente-se logo que se lê, e deve, se realizei bem, sentir-se através de toda a leitura - uma confissão sonhada da inutilidade e dolorosa fúria estéril de sonhar.
Tenho-lhe falado de mim demasiadamente. Queria ter agora, neste momento, ao mesmo tempo em que as estou desejando, extensas novas suas. O que v. tem feito? Tem escrito? E tem escrito versos?

Espero para breve notícias suas. Se me pudesse escrever, não um postal, mas uma carta...!
Como vê pelo en-tête desta carta, mudei de residência. Mudei há três dias apenas.
É para aqui que me deve escrever agora.
Adeus. Um grande e fraterno abraço do

Muito e sempre seu
Fernando Pessoa


14 de Maio.


Escrita a 3 de Maio, esta carta vai para o correio a 14. Como v. vê continua aquela minha característica de atrasar mesmo aquilo que parece impossível que se atrase.
Enfim...


[A João Lebre e Lima]


Imagem: pesquisa do Google

16 comentários:

Ana Paula Sena disse...

[Nota: João Lebre e Lima publicara, em 1913, O Livro do Silêncio.
Esta carta não chegou a ser enviada.]

Com o meu "muito obrigada" à Maria Josefa Paias, pela sua gentileza e sensibilidade ao incluir-me no Clube dos Desassossegados :)

...e um grande abraço

T.Mike (Miguel Gomes Coelho) disse...

Ana Paula,
como dizia a minha avó : "tardaste mas arrecadaste ...!".
As histórias começam pelo princípio e o seu texto tem essa qualidade, o de preencher essa lacuna na nossda resenha de textos - dar a conhecer, de forma simples (?) e pela voz do próprio autor, a existência ou o projecto , do Livro do Desassossego.
Um belo texto.
Quanto ao resto...está perdoada !
Já não vai sofrer as consequências de uma reiterada atitude de esquecimento no que se refere ao Clube. :-))))
Um grande abraço.
Bom feriado.

Violeta disse...

Olá Paula
Todos nos revemos um pouco no livro do desassossego.
Obrigada pelo post...
bjs

Benjamina disse...

Olá Ana Paula
Belo contributo para o clube desassossegado. Nas cartas, Pessoa era mais Pessoas, e como nesta se lê, os seus sentimentos de inquietude transpareciam em cada linha.
Um abraço

Maria Josefa Paias disse...

Ana Paula,
Muito obrigada.
O Miguel já disse e muito bem, através das palavras da sua avó, o que eu poderia dizer.
Aquela carta não chegou ao destino, mas o seu contributo vai já para o nosso Clube.
Um grande abraço.

Ana Paula Sena disse...

Miguel (T.Mike): muito agradeço as suas gentis e estimulantes palavras. Pelo que conheço e tenho lido, o desassossego de Pessoa/Bernardo Soares foi uma constante da sua vida, e constituirá um tema/vivência inesgotável para nós, em homenagem ao poeta-filósofo-pensador inquieto e justamente em desassossego.

Sempre atenta aos seus excelentes contributos... um abraço :)

Violeta: eu é que agradeço a tua atenção :)
Beijos para ti também.

Benjamina: muito obrigada pela atenção e solidário incentivo.
A correspondência de Fernando Pessoa ((que ainda estou longe de ter lido na sua totalidade) constitui uma leitura verdadeiramente estimulante, por onde perpassa a sua dimensão deliciosamente humana.

Sempre atenta aos seus contributos... um abraço :)

Josefa: muito obrigada por tudo! Fico verdadeiramente feliz com a sua aprovação do meu contributo.
É uma honra e um grande prazer pertencer ao nosso Clube.

Sempre atenta aos seus contributos... um grato abraço :)

Mar Arável disse...

Agradeço a bela memória

Ana Paula Sena disse...

...e a todos, admiradores de Fernando Pessoa, convido para uma visita aos blogues dos membros do Clube dos Desassossegados, onde encontrarão excelentes contributos e interessantes apreciações nos comentários aos mesmos.

Muito obrigada pela vossa atenção.

Abraços :)

daniel disse...

Fernando Pessoa, eterno. Ou melhor, como escreveu José Saramago num artigo igualmente interessante: "Fernando Pessoas" (o "s" não é gralha, mas referência à fragmentação do poeta, que, na minha opinião, constitui a mais original criação artística do século XX português, e quem sabe de toda a nossa história literária).

Adorei ler esta carta, um fragmento da história. Agora, uma pergunta, algo ingénua, quem será de facto o grande poeta da língua portuguesa: Camões ou Pessoa?
Pessoalmente considero, à semelhança de Maiakovski (o grande poeta russo), que todos os poetas são geniais!

Mais uma vez Ana Paula, adorei este post... =)
Espero voltar a reler os fragmentos "pessoanos" que de certeza crescerão neste espaço de eterna aprendizagem! =)

Rui Figueiredo Vieira disse...

O que me deixa feliz é saber que Portugal não é tão pequeno quanto parece. Hà que salvar as raízes. Fernando Pessoa é mais do que escrita, é vida. Bj

Manuela Freitas disse...

Olá Ana Paula,
Para já fiquei admirada com a mudança de fotografia, tirando a mão da cara fica diferente!...
Não conhecia esta carta, que me deu a possibilidade de ler, muito obrigada.
Agradeço também a passagem pelo meu blogue e a resposta que deu sobre aqueles livros antigos que possuo do Fernando Pessoa, é claro que também tenho todos os que saíram na colecção Ática-Luis de Montalvor, o Livro do Desassossego, a Fotobiografia...Mas o que me despertou para a obra de Pessoa, foi mesmo um pequeno livro «O Rosto e as Máscaras» do David Mourão-Ferreira, a partir daí é que comecei a comprar tudo o resto.
Desculpe de a estar a maçar. Beijinhos e um bom fim-de-semana,
Manuela

José Marinho disse...

Bem escolhido para esta grande e paranóica época do desassossego inerte, incapaz de agitar a alma de modo a surgir a beleza e o espanto. Fechemos a cortina às divetas dos políticos e haverá algum sosssego de um desassossego inútil. Abraço e bom fim-de-semana.

mdsol disse...

Minha querida Ana Paula

O desassossego tranquilo que o teu espaço provoca. Gosto de aqui vir. Isso é certo. E agradeço toda a delicadeza, harmonia e substância que aqui bebo.
Beijinho

:)))

Ana Paula Sena disse...

Mar Arável: eu é que agradeço a visita :)

Rui Figueiredo Vieira: apesar dos defeitos (que país não os tem?!), concordo. O nosso Portugal também tem muito de bom, e isso é demasiadas vezes esquecido por muitos.
Um abraço :)

Manuela Freitas: :)) Fico diferente, acredito! Desta vez, não estou a sorrir :)
(não posso estar sempre), desta vez estou de acordo com o meu ar mais sério, já que também o tenho. A foto foi tirada pela minha filha, algures no último verão. Ela entretém-se a explorar a pequena máquina que comprei ainda há pouco tempo. Depois, eu dei-lhe o preto e branco, porque gosto do contraste.
Obrigada pelo reparo :)
Quanto aos livros de F. Pessoa, renovo os meus parabéns pela excelente colecção! Eu não tenho tudo dele, não mesmo, infelizmente :( Vou adquirindo um ou outro, de vez em quando.
No meu caso, o despertar para o autor começou ainda garota. Gostava de ver os livros que havia em casa dos meus pais. Entre eles estava a "Mensagem". A atracção, o interesse e a curiosidade imediatamente surgiram. Ficou-me logo gravada na mente aquela esplêndida abertura: "Oh mar salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal!"
Mas... nem pensar!, não maça rigorosamente nada. Pelo contrário!

Beijinho grande e continuação de uma boa semana.

José Marinho: de facto, por estranho que possa parecer, a leitura de Pessoa consegue converter o desassossego inútil, num imenso sossego resultante de um desassossego enriquecedor.

Um abraço :)

mdsol: querida Sol :) muito obrigada pelas tuas palavras amigas.
Na verdade, feliz fiquei eu, quando constatei que o teu espaço, sempre tão acolhedor, interessante e luminoso, pela tua mão, continua a enriquecer a nossa blogosfera.
Beijinho grande :)))

Ana Paula Sena disse...

Obrigada a todos pelos comentários :)

Daniel: obrigada pela questão que deixaste ficar. Entre as melhores questões, estão também as ingénuas.
Eu diria que foram (e são) dois grandes e ilustres poetas, ambos enalteceram e enriqueceram a nossa língua portuguesa (ainda que F. Pessoa também escrevesse de forma excelente em inglês). Gosto muito de Camões pelo seu lado galante e clássico, digamos; gosto de F. Pessoa pela sua complexidade, inquietude e contradição, tudo escrito de forma profunda e inovadora. Mas isso também tem a ver com as diferentes épocas.
Sinceramente, acho que podemos ficar com os dois como poetas imensos, a par de outros tantos que temos, também estes brilhantes: citando alguns, Teixeira de Pascoaes, Eugénio de Andrade, Natália Correia, etc.... a lista seria imensa. Há quem afirme ser o nosso país um país de poetas. Portanto, estou, em grande parte, de acordo com o grande poeta russo que referes.
Mas gostaria de acrescentar: o próprio Pessoa teceu algumas críticas (de certo modo, terríveis para nós) a Camões. Por exemplo, numa carta sua a William Bentley, considera-o pouco inteligente e pouco imaginativo. Não vou transcrever a dita passagem, ainda extensa, desta carta, mas fica a referência. Na verdade, poderei vir a publicá-la aqui um dia destes. Mas talvez não,já que certamente feriria a sensibilidade dos admiradores de Camões, entre os quais me encontro. Enfim... questões literárias, questões de perspectiva...

Um abraço :)

daniel disse...

Ana Paula,
obrigado pelo comentário, uma vez mais despontou a minha curiosidade.
Encontrei na Internet um fragmento dessa carta. De facto, para qualquer admirador de Camões, constituí um escândalo... talvez por isso seja opinião unânime de vários estudiosos pessoanos ao afirmam que, caso Pessoa houvesse ingressado nalguma universidade inglesa, estabelecendo-se definitivamente nas terras da Bretanha,então, o poeta, provavelmente, ter-se-ia tornado no grande símbolo do modernismo Inglês e quem sabe, um rival à altura de Shakespeare.
Como se perdeu nestas terras lusas, logrou alcançar o estatuto de um super-Camões (ou pelo menos, muitos assim o consideram, já que foi Pessoa quem levantou a polémica).

Deixo um grande abraço pessoano... mais uma vez obrigado por este fragmento da história! =)