quinta-feira, 5 de março de 2009

Tentativa 3: Cinzento




Há-de ser um copo partido

e uma dor consertada

Eis um copo poisado

e uma dor deitada

Ciência do oculto

névoa deslizante

o copo percorre

e ele não me diz nada

Uma boca fechada

que fala p'ra dentro

dada a condição

diz asfixiada

...e na loucura telepática

estava assim quem a ouvia

e intimamente escutava...

na dor cedo entendia

que o silêncio era cinzento

da exacta cor do cimento

onde almas são sepultadas

voando desperdiçadas

cinzas espalhadas ao vento

poeiras universais

E eu na terra aqui sentada

pergunto se o copo fala

se tem o dom da palavra

literatura oralidade

goteja um estranho veneno

cordas vocais articulam

língua rola céu da boca

loucas os sons desembrulham

alfabeto caos explosão

Eis o copo: era um vazio

cinzento da cor do chão

e é este mundo que treme

se as palavras têm frio

se os verbos não se conjugam

desenfreadas galopam...

...ataque de coração

silêncio!

um copo caiu no chão.



Imagem Daqui


14 comentários:

Vasco disse...

Tenho acompanhado a evolução da paleta de cores e tenho a dizer-te que gosto e que acho que escreves muito bem. Grande beijo!

ParadoXos disse...

todos os corpos, todos os copos num só licor - versatório!! num poema de mãos dadas com a beleza!
saio inspirado por ti!
gostei muito, a séio!!

Nilson Barcelli disse...

Olá Ana Paula, gostei da poesia que aqui li. Deste e doutros poemas anteriores.
Escreves bem, és poeta. Parabéns pela tua criatividade.
Beijo.

mié disse...

Gostei muito.

Cinzento...mesmo!

um beijo

terno

contracena disse...

Olá Paula, um dia destes tens que retirar a palavra "Tentativa".
Escreves bem, sim. Gosto de ler-te.

(também gosto de olhares enérgicos, e também sou muito como São Tomé - confesso que às vezes preferia não ser tanto)

Beijo, Paula.

Violeta disse...

Mas que poema...
Silêncio que este me tocou mesmo, como tudo o que escreves...
Obrigada!

Silent Raven disse...

Belas as palavras que se encontram neste espaço.

poemar-te disse...

O coração é assim como tu dizes no prórpio poema, num momento e que muito gostei: "este mundo que treme
se as palavras têm frio". Voltei a gravar a Poética.Um beijo.

Artista Maldito disse...

Olá Ana Paula

Um poema (trans)lúcido, com a lucidez que a Ana Paula tem. De um copo pode verter a água pura, mas também pode "destilar" veneno. E achei maravilhosa a identificação de copo/corpo.
A vida tem destes momentos, complexos: o silêncio a preceder a queda.

Beijinhos e com muita amizade,
Isabel

Ana Paula disse...

Muito obrigada a todos(as) pela simpatia e incentivo!

Mas... é "um comboio de corda, chamado coração, que gira, a entreter a razão", segundo as sublimes palavras de Fernando Pessoa.

Obrigada por partilharem comigo esta tentativa pessoal de fundir razão e coração nas "calhas de roda" :):)

Maria do Rosário Eiras Massano disse...

Minha querida amiga de sempre e para sempre... tens o dom de tocar a alma das pessoas, sabias?
Começa a ser altura de partilhares com mais gente esses sentires.
Publicação obrigatória já!
Um beijo do coração.

Maria do Rosário Reiche

mdsol disse...

Saudades de vir por aqui!
É um prazer...
:)))

poemar-te disse...

Obrigado pelas tus palavras. Irás ver e ouvir mais poemas com estas reflexões sobre a palavra, a fala. Cheguei quase a deixr de escrever ppois tinha chegado à conclusão de que tinha escrito tudo e de que outros já o tinham feito melhor. MAs não se pode ser assim e comecei a publicar. Gravar vai ser complicado. Final de período, formação, coordenação de ano. Bom, Ana Paula. Descansa e bom rabalho no fim de-semana, já sei. Tenta divertir-te, também, se for possível.

RAA disse...

Muito interessante, Ana Paula.
Parabéns de novo!