quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quem conta um conto, acrescenta um ponto

Surrounded de Maggie Taylor


Histórias para "acordar"

Pequena Fábula

«"Ai de mim", disse o rato. "O mundo está a ficar cada dia mais pequeno. Ao princípio era tão grande que eu tinha medo, estava sempre a correr, a correr, e fiquei contente quando finalmente vi paredes lá ao longe, à esquerda e à direita, mas estas longas paredes estreitaram-se tão depressa que eu agora estou já no último compartimento e ali no canto está a ratoeira para a qual sou obrigado a correr." "Só precisas de mudar de direcção", disse o gato, que logo o engoliu.»
in Franz Kafka, Contos


sábado, 15 de outubro de 2011

Diz que é uma espécie de estado de excepção


Leituras para tempos difíceis:

«O estado de excepção alcançou mesmo, hoje, a sua máxima extensão planetária. O aspecto normativo do direito pode assim ser impunemente obliterado e contraditado por uma violência governamental que, ignorando, no estrangeiro, o direito internacional, e produzindo, no interior, um estado de excepção permanente, pretende todavia estar ainda a aplicar o direito.
Não se trata, naturalmente, de repôr o estado de excepção dentro dos seus limites temporal e espacialmente definidos, para reafirmar o primado de uma norma e de direitos que, em última instância, têm nele o seu próprio fundamento. Do estado de excepção efectivo em que vivemos não é possível o regresso ao Estado de direito, visto que estão agora em questão os próprios conceitos de "estado" e de "direito". Mas se é possível tentar deter a máquina, expôr a sua ficção central, é porque entre violência e direito, entre a vida e a norma não há qualquer articulação substancial. Ao lado do movimento que procura a todo o custo mantê-los ligados, há um contramovimento que, operando em sentido inverso no direito e na vida, procura sempre separar aquilo que foi artificial e violentamente ligado. Isto é, no campo de tensão da nossa cultura agem duas forças opostas: uma que institui e põe e outra que desactiva e depõe. O estado de excepção é o seu ponto de máxima tensão e, ao mesmo tempo, aquilo que, coincidindo com a regra, ameaça hoje torná-los indestrinçáveis. Viver no estado de excepção significa fazer a experiência de ambas estas possibilidades e, no entanto, separando sempre as duas forças, tentar incessantemente interromper o funcionamento da máquina que está a conduzir o Ocidente para a guerra mundial.»
in Giorgio Agamben, Estado de Excepção

É caso para pensar. E é caso para permanecermos atentos, expectantes e combatentes face ao futuro do mundo e do país. Por todo o lado, observamos uma separação radical e continuada entre vida e direito. Não queremos uma vida nua, queremos uma vida humana.

 

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

domingo, 9 de outubro de 2011

As Serviçais

 


"As Serviçais", ou "The Help" (2011) no original, realizado por Tate Taylor, mostra-nos o ambiente vivido nos anos 60, numa típica cidadezinha do sul dos Estados Unidos, na qual a educação para a hipocrisia faz os seus estragos numa certa geração de jovens esposas. Claro que os estragos não ficam por aí. Estas jovens, completamente desconectadas com a realidade mais dura e cruel, ainda que próxima, criam elas próprias uma realidade ainda mais desumana, sob uma capa de perfeição tão plastificada quanto fútil e inútil. Mas o cerne desta história (ou histórias) é outro. As famílias modelo aqui personificadas só subsistem enquanto tal, na medida em que existe um determinado e excelente pessoal (the help) nas traseiras das casas. A preciosa ajuda é dada, portanto, por estas mulheres fortes, mas destituídas da sua dignidade e humilhadas perante as suas mais elementares necessidades. É com as suas histórias que este filme bem feito se desenvolve. Histórias tristes, mas também divertidas, que nos levam a repensar a questão dos direitos civis e das diferenças raciais. Tudo do ponto de vista de um universo feminino. Quer do lado opressor, quer do oprimido, é também a emancipação da mulher o que está em causa. Vale a pena ver, até porque tem um variado e competente conjunto de interpretações, das quais destaco a de Viola Davis.




"The Help" resulta da adaptação do romance de Kathryn Stockett, "The Help" (2009).


Daddy...

Momento musical (lento e moderado...) 




He's a dog
But he's dressed up like a sheep
Got bones all through the backyard
But he likes to drink tea
We play scrabble on the weekend
And he talks about the weather most of the time
I thought my sacred body
With him it would be fine
And I walked into the doorway
He slid across the room
My heart, it started racing
I just didn't know what to do
And he laid me on the floor
And my screams they go unheard
The lady living next door
Well she's six feet under the dit
  
Daddy, why don't you protect me
Someone's gonna hurt me
There's nothing I can do
Daddy, why don't you protect me
Someone's gonna hurt me
There's nothing I can do
He's a dog
But he's dressed up like a sheep
He's got bones all through the backyard
But he likes to fool me
And I travel through the doorway
I thought I'd be fine
But it's not the way it's gonna go this time

Daddy, why don't you protect me
Someone's gonna hurt me
There's nothing I can do
Daddy, why don't you protect me
Somebody is going to hurt me
There's nothing I can do
And all this time I needed you
And all this time I wanted you
You can't hear me now
Can't hear me now
Like you do

Daddy, why don't you protect me
Someone's gonna hurt me
There's nothing I can do
Daddy, why don't you protect me
Somebody is going to hurt me
There's nothing I, I can do

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Sociedade Lunar

Encontro da Sociedade Lunar de Birmingham (século XVIII) - autor anónimo

Sem dúvida, considero muito interessante esta sociedade - Lunar Society - cujo nobre objectivo consistiu em contribuir para o desenvolvimento económico e técnico do Ocidente no século XVIII, realizando, entre outras actividades, reuniões periódicas para discutir e debater as últimas novidades da época. E porquê Sociedade Lunar? Acontece que os seus membros aproveitavam as noites de lua cheia para se deslocarem até ao ponto de encontro - na gravura, ele é a casa de James Watt (1736-1819). Era perigoso viajar à noite naquele tempo, indo a cavalo, sobretudo porque as estradas não possuíam qualquer iluminação. Mas o luar oferecia uma excelente protecção. Pelo mesmo motivo, os seus membros passaram a ser designados por os lunáticos. Aqui está a origem de se considerarem os cientistas, filósofos, e pensadores em geral, como tal.
Considerando o preço actual da energia eléctrica, não sei se não será uma sugestão a ter em conta agora, em pleno século XXI. Aproveitar as noites de lua cheia para realizar uma série de tarefas ao luar, por exemplo, algumas daquelas que já não possam realizar-se com a luz do dia: conversar, debater ideias, descobrir soluções para problemas (tantos!) ... Bom, mas isso já não se faz muito nos tempos que correm. Agora é mais cortar a eito e já está. De qualquer forma, fica a sugestão, e também a interrogação: que poderemos fazer para aproveitar a luz do luar?


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Jogar com rede

Somerset Maugham na sua casa em Cap Ferrat, França (1963)

Julian Barnes refere no seu último livro (de 2008), «Nada a Temer», uma curiosa história que terá tido como ilustres protagonistas, o escritor Somerset Maugham e o filósofo A. J. Ayer. O que está em causa é o seguinte: enquanto agnóstico, S. Maugham queria, contudo, assegurar-se de que a sua posição perante a hipótese divina era a mais acertada. Assim sendo, convida para sua casa Ayer, pensador influente à época, para confirmar com ele que nada poderia estar errado na sua opção quanto a esta questão; que nada, mas mesmo rigorosamente nada, se seguiria à morte. Evidentemente, Maugham pensava já na velhice e na proximidade do seu próprio fim. E é assim que Ayer e a sua mulher, a romancista Dee Wells, vêm a fazer uma visita ao escritor, corria o ano de 1961. Barnes procura reconstituir este encontro sui generis, imaginando o diálogo entre os dois, já que, como assinala, não existem registos concretos e conhecidos dessas presumíveis conversas. Seguramente, Ayer terá apresentado as provas mais up to date e lógicas da não existência de Deus, assim como da finitude da vida. O que terá, certamente, tranquilizado Maugham.
O mais interessante de tudo isto... é a necessidade de certezas (sempre incertas) que todos sentem. Crentes e não crentes, provavelmente todos se interrogam, todos duvidam. Talvez alguns escapem a essa inquietação. É possível, talvez até seja desejável. Mas, mais interessante ainda, é aquilo que Julian Barnes não deixa escapar na análise radical que faz da psicologia humana - este caso, o de posições religiosas, não será diferente de outra matéria qualquer: aqueles que têm um certo poder e influência, como era o caso de Maugham, tendem a comportar-se exactamente sempre da mesma maneira, ou seja, como quem domina a situação. Tal como em tempos, príncipes e burgueses chamavam quem os tranquilizasse acerca do Paraíso, S. Maugham fez o mesmo, ao contrário. Parece, pois, que o labirinto da mente humana tem poucas saídas alternativas... se é que existem algumas. A única saída que parece oferecer tranquilidade é jogar a vida com redes de protecção. Infelizmente, ou não, elas estão cheias de buracos.



quinta-feira, 22 de setembro de 2011

domingo, 18 de setembro de 2011

Semear

Sunflower Seeds, Ai Weiwei

Como é bom poder trazer esta imagem para aqui, sem perigo de toxicidade, e imaginar que tantas sementes de girassol vão crescer e girar, não em torno de um qualquer ditador, mas sim à volta do sol-imenso desejo de saber como tornar o mundo melhor...


Às vezes, dá-me para ler umas coisas de Confúcio, o que também consegue ser uma catharsis:

«O Mestre diz: Os mais altos postos ocupados por homens pouco inteligentes, os ritos executados sem recolhimento, os mortos honrados sem verdadeiro desgosto: como suportar um tal espectáculo!» 
Conversações de Confúcio



domingo, 11 de setembro de 2011

9/11




Não te afastes

Mantém o olhar na ferida coberta

É por ela que a luz entra em ti


Rumi 




Imagem: September de Gerhard Richter (2005)


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

texto corrido

no banco de jardim encontrava-se assim. eu passei por ele. como quem passa por qualquer um. mas voltei atrás. a sua imagem entrou-me pelo canto do olho. acho que foi pelo esquerdo. normalmente o meu olho esquerdo sofre atracções irresistíveis. de modo que lá fui eu sentar-me ao lado de assim. ele queria falar e eu nem por isso. o silêncio pesava-lhe já havia dois meses. a mim pesava-me a falta dele. avisou-me logo que diria pouco. essa era a sua medida. fiz-lhe perguntas. para escutar esse pouco dele. e ele lá respondeu. como te sentes? estou bem. que achas disto? está bem. que achas daquilo? está bem. antecipando que me irritasse achou por bem avisar-me. eu digo sempre o mesmo. mas eu fingi não me ralar com a previsível monotonia. ousei dizer. dizer o mesmo e pouco é melhor que nada dizer. está bem. disse-me assim. não me perguntem porquê mas achei esta conversa interessante. se fosse assim a falar diria que está bem. eu ainda introduzo uma variante. a de que talvez esteja bem. enquanto pensava nisto fiquei em silêncio. pelo canto do olho dei por assim a olhar para mim. também achei interessante. um olhar que é de outro e logo com os dois olhos é dizer imenso. sei que estás aí. disse-me o olhar dele. e eu deixei o canto do olho alargar-se até o abarcar todo. como gente. telepaticamente assim disse-me muito. não me pergunto porquê mas achei esta parte dolorosa. o que também achei interessante mas menos. se fosse assim diria está bem. eu ainda acrescento um duplo sentimento. sinto que está bem senti-lo assim. na verdade está bem assim assim. mas adiante. perguntei então se podia dar-lhe a mão. está bem. disse-me. já de mãos dadas dissemos tudo. foi um silêncio dialogante. nem eu nem assim ficámos perturbados. o que me parece estar bem. foi um momento-contacto. tenho-o visto em filmes. por isso fiquei a saber. que estava triste mas bem. perguntei-lhe porquê. o que está bem é estar triste. disse-me no fundo das pupilas trémulas. ia eu responder-lhe quando tocou um telemóvel. assim atendeu. o que o fez mecânico. não fosse estar tudo bem espantar-me-ia. ele falou imenso. o que fui ouvindo. com o ouvido direito. ele sentado a meu lado. descobri então uma mão vazia. até me deu jeito. agarrei a mala. disse-lhe com os olhos. está bem. mas ele não viu. passei por assim. como quem passa por qualquer outro. está bem. pensei baixinho.

passaste por mim. como por qualquer outra. até perguntaste. como estás? estou bem. respondi.


Foto A.P. (Marvão - Julho 2011)

Regresso ao futuro

Muitas vezes, diz-se: nunca regresses a um lugar onde já foste feliz. Mas como não procurar todos os lugares que nos parecem compatíveis com...