segunda-feira, 16 de julho de 2012

liberdade

  ...para parar, ler e pensar

Uma sociedade autónoma, verdadeiramente democrática, é uma sociedade que questiona qualquer sentido pré-determinado e na qual, por isso mesmo, se liberta a criação de novos significados. Cada indivíduo é livre de nela criar, para a sua vida, o sentido que puder e desejar, mas é absurdo pensar que o poderá fazer fora de todo o contexto e de todo o condicionamento social e histórico. (...) O indivíduo individualizado cria um sentido para a sua vida ao participar nos significados que a sua sociedade cria, ao participar, seja enquanto «autor», seja enquanto «receptor» (público) da criação desses significados e insisti sempre no facto de que a verdadeira «recepção» de uma nova obra é tão criativa quanto a sua própria criação. (...)
Pergunta-me se a experiência da liberdade não se torna insuportável. Existem duas respostas a essa pergunta que são solidárias. Ela torna-se insustentável na medida em que não se consegue fazer nada com essa liberdade. Para que a queremos? Antes de mais, por si mesma, claro, mas também para poder fazer coisas. Se não se pode, se não se quer fazer nada, transforma-se na figura pura do vazio. Horrorizado perante esse vazio, o homem contemporâneo refugia-se no sobre preenchimento laborioso dos seus «lazeres», num hábito enfadonho cada vez mais repetitivo e acelerado. A experiência da liberdade é, ao mesmo tempo, indissociável da experiência da mortalidade. (...) Um ser, indivíduo ou sociedade, não pode ser autónomo se não aceitar a sua mortalidade. Uma verdadeira democracia, e não uma «democracia» simplesmente processual, uma sociedade auto-reflexiva e que se auto-institui, que pode questionar sempre as suas instituições e os seus significados, vive precisamente na experiência da mortalidade virtual de qualquer significação instituída. Só a partir daí é que pode criar e, consequentemente, instaurar «monumentos perenes», imortais, enquanto demonstração, para todos os que se seguirão, da possibilidade de criar o significado, enquanto se mora à beira do Abismo. Ora é evidente que a derradeira verdade da sociedade ocidental contemporânea é a fuga perdida perante a morte, a tentativa de encobrir a nossa mortalidade, que se negoceia de mil e uma maneiras, pela supressão do luto, pelos «agentes da morte», pelas intermináveis tubagens e ramificações da teimosia terapêutica, pela formação de psicólogos especializados na «assistência» àqueles que estão a morrer, pelo afastamento dos idosos, etc.

Cornelius Castoriadis, A Ascensão da Insignificância - Entrevista publicada em Esprit, Dezembro de 1991

2 comentários:

AMCD disse...

"O que fazer com a liberdade?" é, a meu ver, uma das grandes questões deste trecho. Não basta tê-la, mas há que saber o que fazer com ela. Caso contrário é o vazio que nos aguarda.

Já a questão da relação entre a mortalidade e a liberdade tem o seu interesse. Agostinho da Silva tinha sugerido em tempos, se é que não o disse, que nem Deus era livre, dado estar prisioneiro da sua condição de imortal, ou seja, mesmo que quisesse ser mortal, jamais o poderia ser, logo não tinha essa liberdade. Isto para concluir que não existe liberdade absoluta. Toda a liberdade é relativa.

A mortalidade impõe um limite e só se é livre se aceitarmos esse limite. Só se é livre dentro de determinados limites. Caso contrário a liberdade esbarra nesse limite e iremos sentir-nos prisioneiros. (Tudo isto é discutível, pois com base nesta ideia, os pássaros engaiolados poderiam ser livres, dentro dos limites da sua gaiola e desde que conhecessem os seus limites).

Curiosamente, nem no Paraíso - esse lugar utópico onde reinava a imortalidade - havia liberdade. Que o digam Adão e Eva.

Ana Paula Sena disse...

AMCD:

...de facto, o último argumento coloca-me diversos problemas, embora a relação entre autonomia/liberdade e consciência da mortalidade me pareça profícua. Desde logo, poderá levar-nos a uma dimensão de efémero que nem sempre será de admitir. "...a mortalidade virtual de qualquer significação instituída." - pode ser realmente muito discutível. O exemplo do pássaro na gaiola, livre mas aprisionado, também levaria longe... :) Por exemplo, se a limitação/prisão é voluntária, existe liberdade ou não?

Quanto à liberdade ser a de fazer efectivamente alguma coisa, é, sem dúvida, uma grande questão. Muito actual neste tempo de mergulhar cada vez mais num "vazio". A meu ver, as consequências podem ser graves, pois o "vazio" é sempre alguma coisa, nem que seja uma porta aberta para instituir a destruição.