terça-feira, 6 de março de 2012

Sociedades Artificiais


Podemos contribuir para clarificar essas questões se compreendermos qual é o núcleo duro das Ciências do Artificial, o que passa por compreender como elas participam do projecto moderno de nos tornarmos senhores e donos da natureza, consistente em "fazer o verdadeiro" em dois sentidos: "fazermos o que já é verdadeiro" (sermos capazes de construir algo, um programa de computador, um robô, que funcione segundo os mesmos princípios ou que tenha as mesmas capacidades de certas criaturas vivas, humanos ou outros animais, que queremos compreender) e "criarmos o novo verdadeiro, fazendo-o" (criar natureza, sermos capazes de fabricar novas criaturas que desafiem a sofisticação das que encontramos na natureza).

Eu, curiosa, após a leitura que fiz há tempos do livro - cuja leitura aconselho a todos os que gostem de filosofia e de pensar o futuro - fiquei a cogitar nestas novas criaturas que desafiem a sofisticação das que encontramos na natureza. Com alguma inquietação, confesso. É por isso que deixo ficar aqui um pouco do que me ocorre (de modo mais interrogativo do que assertivo) sobre o assunto - deveras interessante, parece-me.
É sobretudo o segundo sentido do "verdadeiro" (o que sublinhei) que gostava de focar. Que criaturas serão estas? Suponho que humanas, mas novas. Uma nova espécie humana que resulte de uma evolução associada ao desenvolvimento do artificial que, digamos, se lhe "cola à pele". Uso esta expressão porque é aí que incide grande parte das minhas preocupações e interrogações. E isto a partir do que o Porfírio Silva diz também, apresentando-nos uma visão de futuro a realizar (p.199):

Essa declaração de possibilidade de fusão dos reinos é o núcleo duro do programa de investigação das Ciências do Artificial, a sua conjectura orientadora fundamental. Por ela se tenta mostrar que não há nenhuma fronteira relevante entre natural e artificial, entre o que encontramos já feito e o que podemos nós humanos fazer; que está ao nosso alcance deslocar incessantemente essas fronteiras, seja na carne, na mente ou na sociedade; que por essa via aumentaremos, no limite até ao infinito, o nosso poder como donos e senhores da nossa própria natureza, que assim poderá tornar-se completamente artificial.

No que diz respeito ao deslocar fronteiras na mente e na sociedade, nada me choca, digamos (ainda que a esse propósito também me interrogue); mas no caso da carne/corpo (o que acima sublinhei), confesso que a deslocação dessas fronteiras "mexe" comigo. Ou seja, do lado de "fazer o verdadeiro" no primeiro sentido, encontro inúmeros projectos capazes de nos realizar como humanos. E isto sem pôr em causa a nossa especificidade, preservando o que nos caracteriza. Podem, inclusivamente, tornar-nos mais felizes. Refiro-me, por ex., ao futuro papel dos robôs, às redes sociais, etc. Agora, "fazer o verdadeiro" no segundo sentido... não é algo que rejeite, mas fico a pensar no tipo de humanos que viremos a ser e numa série de problemas que daí me parece decorrerem. Na verdade, imagino uma paisagem humana de tal modo diferenciada que a sinto como um risco e perigo para a nossa integridade. Claro que todos os humanos são já diferenciados à partida, mas, apesar disso, temos características comuns bastante estáveis. No caso dessa hipotética futura anatomia/futura natureza, que tipo de definição filogenética seria, então, a adequada? Tal como em tudo, chegaríamos ao ponto de definir regras e criar leis. O que constitui sempre grande problema. É por isso que creio ser importante pensar tudo isto. Seremos nós, certamente, a traçar os rumos desse futuro em curso...

Afinal, a minha dúvida subsistente é sobretudo esta: será necessário incorporar/enxertar novos elementos em nós para realizarmos o que verdadeiramente somos? Por outras palavras, é possível alguém ser verdadeiramente humano sem modificar o seu corpo? Bom, eu adorava voar. Mas só poderei ser realmente humana se o fizer? Humanos-voadores. Parece atraente, mas radical. Qual é afinal o papel do corpo neste futuro de fusão dos reinos? Como é abordada a questão nesse núcleo duro das Ciências do Artificial? Aqui deixo as minhas interrogações, partilhando-as um pouco com todos os eventualmente interessados no assunto. E a minha vénia ao Porfírio Silva por nos fazer pensar...

6 comentários:

Porfirio Silva disse...

Olá, Filósofa Ana Paula!
Obrigado pelas interrogações. Darei um esboço de resposta no meu blogue, mais cedo do que tarde.

Eliete disse...

Ana Paula vou voltar para ler suas ideias logo mais.Agora passei para te deixar um beijo.

Ana Paula Sena disse...

Olá, caro Filósofo Porfírio! Darei a minha melhor atenção ao esboço de resposta no Machina Speculatrix. Obrigada.

Ana Paula Sena disse...

Querida Eliete, fico feliz com a sua atenção e com o beijo amigo. Retribuo!

vbm disse...

Se a ciência da inteligência artificial conseguir fundir no organismo de viventes um programa de tal modo versátil que irradie para soulções experimentais inovadoras do conhecimento acumulado, nós, humanos, ver-nos-emos confrontados com seres livres de nos desobedecerem, e suficientemente hábeis para de nós se defenderem, pelo que, em verdade, nos aproximaremos da fronteira de um mundo exterior á totalidade da nossa razão, em contacto com uma racionalidade inumana, uma verdadeira infinitude de heterónomo saber.

No fundo, é verosímil que este haja sido o processo que ocorreu na natureza quando a nossa espécie desenvolveu de tal modo a mente que se recriou a si própria, ao conseguir aperceber-se e consciencializar os seus próprios procedimentos naturais, reflectindo experimentalmente na lógica dos meios-fins da própria acção no meio.

Se programarmos este tipo de aprendizagem em organismos que ganhem pela autoconsciência a liberdade criativa de inventarem uma nova inteligibilidade do mundo, — desobecendo a quaisquer hipotéticos condicionamentos que lhes tenhamos modelado —, mergulharemos num mundo-outro de in-finita, por diversa, racionalidade inumana.

:))

Ana Paula Sena disse...

Olá, Vasco!

Vejo que também achas o tema interessante e inquietante :))

Obrigada pelo teu comentário.

Um abraço.